Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Parlamento brasileiro

O empobrecimento ético e cognitivo do Congresso Nacional

Não há debate sério ocorrendo. O esgoto emergiu com força, transbordando nos microfones e nas agressões verbais e físicas que começam a tomar força

Públicado em 

18 jun 2024 às 02:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

É visível e facilmente constatado que o parlamento brasileiro sofre um processo progressivo de empobrecimento ético e cognitivo. A fragilidade moral é de tal magnitude que chega a comprometer a própria capacidade de alguns parlamentares em compreender o absurdo dos disparates e incoerências presentes em suas formulações argumentativas em defesa de seus projetos.
O debate político está restrito às disputas por interesses pessoais de natureza ético-moral comprometedora do caráter do parlamento. A dimensão do estrago é tão grande que os parlamentares que não comungam com essa visão distorcida da política se sentem isolados, muitas vezes perdidos e sem forças para sustentar seus projetos em defesa da sociedade e de denúncia dos descalabros que todos os dias rolam nos discursos dos representantes do povo brasileiro.
Não há debate sério ocorrendo. O esgoto emergiu com força, transbordando nos microfones e nas agressões verbais e físicas que começam a tomar força, inclusive no espaço físico do Congresso Nacional. Não há terno bem cortado e vistoso capaz de disfarçar a qualidade moral daquele que o porta.
A vergonha e a desonra dos parlamentares, televisionadas, chegam a todos de forma imediata, estabelecendo um novo paradigma que vai se tornando natural e aceitável em todos os espaços da vida pública brasileira.
O absurdo e a distopia se naturalizam e se esparramam por todos os espaços públicos e privados. Se deputados e senadores, os grandes representantes da sociedade, podem, por que não podemos nós?
Um novo paradigma se impõe a partir do modelo estabelecido por aqueles que deveriam participar da construção de uma nação forte, digna e comprometida com os valores morais mais elevados, tendo como base a Constituição da República e seus princípios norteadores.
A ordem jurídica se fragiliza na medida em que aqueles que deveriam, de alguma forma, construir o arcabouço jurídico brasileiro, o fazem meramente com base em interesses privados, escusos, depreciadores da ética e da moral, sem qualquer respeito aos princípios constitucionais da supremacia da Constituição, da separação dos poderes, da legalidade, da igualdade, dos Direitos e Garantias Fundamentais, da solidariedade, da dignidade e de tantos outros valores que deveriam nortear nosso exercício de uma cidadania comprometida com a justiça social, com a moralidade, com a verdade e com a transparência.
O que antes era feito debaixo de tapetes, nos bastidores, escondido do olhar público, escamoteado por discursos de compromisso político com suas bases e de defesa nacional, agora são explicitados de forma escancarada em entrevistas na televisão e nas redes sociais.
Congresso Nacional
Do parlamento não virá qualquer transformação, ainda que ali tenhamos representantes de altíssimo padrão ético e cognitivo. Eles estão silenciados Crédito: Leonardo Sá/Agência Senado
O parlamento votou sim às fake news, e, ao fazê-lo, assumiu a mentira como modo de ser e de fazer política. No momento em que assim decidiu, explicitou a natureza de seu caráter apodrecido pelas conveniências, pela ganância e pelo opróbrio. Desonra o parlamento e a República, assumindo a infâmia, o escárnio e a zombaria como padrão ético.
Silencia os opositores com a ameaça do grito, da chantagem e das redes sociais, capazes de destruir qualquer reputação ilibada em poucos minutos. Comunistas, abortistas e feministas, por falta de criatividade e capacidade enunciativa mais sofisticada intelectualmente, são os qualificadores mais comumente usados para destruir a honra e a capacidade eleitoral dos adversários.
O cabresto religioso se impõe com a ameaça do inferno e da perda de votos, para os discordantes. O empobrecimento ético e cognitivo do parlamento parece, de alguma forma, diretamente proporcional ao aumento da bancada evangélica no Congresso, o que deveria ser exatamente o oposto.
Os valores do cristianismo não se coadunam com a venda da consciência e de votos, em troca de concessões de tributos, de redes de rádio e televisão, de cargos, de barras de ouro e de vantagens pessoais para líderes desavergonhados que misturam patrimônio pessoal com o institucional, que se deleitam dos prazeres da carne estuprando fiéis, crédulos de suas heresias, deseducados que são dos verdadeiros valores cristãos, enquanto hipocritamente pastores e líderes religiosos dizem defender os valores da família e a vida.
A debilidade cognitiva e ética de parcela significativa do parlamento está expressa no modus operandi de muitos parlamentares, especialmente pertencentes ao denominado Centrão, que reúne uma massa disforme de políticos que só têm mesmo em comum os interesses privados aos quais guardam fidelidade e a capacidade de se articularem para destruir qualquer projeto de nação que contemple uma sociedade de livres e iguais.
Do parlamento não virá qualquer transformação, ainda que ali tenhamos representantes de altíssimo padrão ético e cognitivo. Eles estão silenciados, ainda que lutando bravamente para falar e se fazerem ouvidos. Vivem sob a ameaça constante de terem suas reputações destruídas por fake news ou por ameaças à integridade física e moral.
Os jogos de poder não estão mais camuflados em prédicas elaboradas por mentes brilhantes e capazes de construções discursivas sofisticadas, carregadas de elementos extralinguísticos. As justificativas são rasas, estão na superfície da elaboração enunciativa.
Sóstenes Cavalcante, pastor evangélico filiado ao Partido Liberal, ao defender o PL do estuprador, de sua autoria, em um demonstrativo claro de sua pobreza cognitiva e ética, afirmou, de forma clara e transparente, na televisão, que o projeto tinha como objetivo testar o presidente da República para ver se ele seria capaz de vetá-lo.
Ou seja, utiliza-se de um estratagema perverso com as mulheres, inconstitucional, discriminatório, que propõe um retorno à Idade Média, simplesmente para testar o presidente e para confrontar o poder do STF em razão da medida do ministro Alexandre de Moraes de suspender a liminar do Conselho Federal de Medicina.
A distopia institucionalizada é uma provocação à sociedade para que demonstre o seu repúdio, nojo e intolerância com todos aqueles que se apropriam do Estado, colocando em risco a democracia e os valores constitucionais que nos representam.
Os parlamentares, os representantes do Executivo e dos órgãos do sistema de Justiça que ainda permanecem fiéis aos valores democráticos precisam se sentir apoiados por nós da sociedade civil que ainda não fomos capturados pelos algoritmos do ódio e da ignorância.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Imagem de Nossa Senhora da Penha é acesa na Praia da Costa
Imagem de destaque
'Estamos nos tornando indiferentes à violência', alerta Papa Leão XIV na Páscoa
Imagem de destaque
Carreta tomba e afeta o trânsito na BR 101, em Itapemirim

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados