A crise climática é uma realidade inconteste. Do ponto de vista da ciência e da observação da realidade, não há como negar. Os dados são aterrorizantes e qualquer pessoa com um mínimo de capacidade intelectual, ou de percepção do mundo ao redor, é capaz de sentir os riscos aos quais estamos todos expostos como membros da comunidade de humanos com os quais compartilhamos esse tempo histórico.
A situação em que se encontra o Rio Grande do Sul escancara o que pesquisadores do mundo inteiro já haviam dito há tempos, alertando que esse tempo chegaria e que ele seria de dores, de vergonha, de morte e de destruição.
Por mais que o povo gaúcho seja forte, corajoso, trabalhador, determinado e otimista; por mais que o Brasil inteiro se manifeste de forma solidária e humana; por mais que os governantes se desdobrem em políticas públicas de restauração e reconstrução de tudo o que foi destruído, por mais que os políticos se unam em torno de um ideal solidário, esquecendo as habituais práticas nefastas ao coletivo, adotadas por alguns; por mais que recursos sejam injetados em profusão na economia gaúcha; por mais que muito seja feito no sentido de superar os embates políticos e os desvios de recursos públicos, avançando na reconstrução das cidades e de seus aparelhos públicos e privados... o certo é que, nunca mais, essa geração que assistiu, viveu e ainda vive o drama do dilúvio anunciado e não creditado, será a mesma de antes da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul.
Mesmo aqueles que sofreram menos, protegidos por suas casas sólidas, bem localizadas e fartas de bens materiais, jamais se esquecerão das imagens de um estado devastado e coberto pelas águas. A imagem da destruição estará presente na memória, lembrança viva do horror e do medo. São imagens que afetam a retina e marcam, de alguma forma, o espírito.
Enquanto a maioria conviverá com a dor e os sofrimentos, uma pequena minoria continuará a gozar dos privilégios decorrentes da desigualdade que impera e que se alastra. Uma parcela da elite, muitas vezes insensível, permanecerá em gozo de regalias, sem perceber-se parte do problema e sem enxergar sua cooresponsabilidade no desencadeamento da crise climática.
As águas ainda nem desceram, as ruas continuam alagadas, milhares de pessoas em abrigos vivendo da assistência prestada pelo Estado, de donativos e do que consideram “favores’’, fruto da solidariedade de tantos, enquanto os negacionistas, seja por ignorância, seja por interesses privados, já se colocam a serviço da continuidade da destruição da natureza e de tudo que pode agravar as condições climáticas no mundo, nos impondo efeitos tão devastadores, ou até mais do que os que ocorreram no Rio Grande do Sul.
As enchentes que inundaram Mimoso do Sul, no Espírito Santo, a desertificação da Amazônia e do Pantanal, assim como o alagamento de Porto Alegre e de tantas cidades gaúchas, são uma pequena amostra da tragédia que se anuncia, se continuarmos a viver do mesmo modo que vivemos até aqui, consumindo como consumimos e aceitando que os depredadores da natureza e da vida continuem a agir como se o planeta e os seus recursos fossem infinitos.
A continuidade do aniquilamento ambiental, nos mesmos moldes que vivemos hoje, e as consequências decorrentes poderão em breve nos levar ao ponto onde o retorno não será mais possível.
O problema é essencialmente político e não é possível ignorar essa condição. As opções políticas que fazemos hoje determinam o rumo de nossa história.
Por exemplo, a ascensão da extrema direita no mundo terá impactos críticos na destruição ambiental e na aceleração das mudanças climáticas e dos seus efeitos extremos. No Brasil, por exemplo, a destruição da política ambiental, entre os anos 2019 e 2022, esteve sustentada ora no negacionismo, ora no discurso de um necessário desenvolvimento econômico a todo custo.
As estratégias do capital para alcançar seus objetivos são sempre as mesmas. Fake news, descredibilização da ciência, centralização das informações, fragilização das políticas ambientais com flexibilização das regras, destruição do saber ancestral, desmonte dos órgãos de proteção ambiental, eleição de bancada comprometida exclusivamente com o setor privado e com o agronegócio, entre outras.
A extrema direita, no Brasil representada por políticos dos partidos ideologicamente descomprometidos com a ciência e comprometidos com interesses contrários a qualquer regra de proteção ambiental, continua firme, questionando o que chama de excesso de poder nas mãos de órgão ambientais.
A manifestação negacionista do secretário-executivo de Mudanças Climáticas da cidade de São Paulo, Antonio Fernando Pinheiro Pedro, no sentido de que a crise climática não tem nada a ver com a ação humana, é uma pequena mostra da qualidade técnica e ética de muitos que deveriam estar à frente dos projetos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
A preocupação com o retrocesso na agenda climática se amplia na medida em que avança a extrema direita no mundo. No Brasil vivemos, muito recentemente, os riscos da ascensão de um grupo político de matriz ultraconservadora, negacionista da ciência e ditatorial. Na União Europeia, a questão já provoca apreensão e na América do Sul, a vitória de Millei deixa claro que o problema está mais perto do que imaginávamos.
Pesquisa da Universidade de Michigam indica que 15% dos americanos não acreditam nas mudanças climáticas e no aquecimento global. Evidencia ainda que o negacionismo do clima está diretamente relacionado com as opções políticas dos participantes de pesquisa.
A pesquisa conclui haver uma forte conexão entre os negacionistas do clima e os negacionistas da vacina da Covid-19.
Segundo John Kerry, ex-secretário de Estado americano e importante ativista em favor do combate às mudanças climáticas, a ascensão da extrema direita, e do discurso populista contra a crise climática, coloca em risco as políticas de enfrentamento do problema.
Sem nenhuma perspectiva catastrófica, utópica ou ilusória, a tragédia que assistimos hoje no Rio Grande do Sul vai se repetir ainda muitas vezes. Chegará o dia em que a solidariedade não será mais tão potente como agora, pois cada um estará voltado para dar conta de sua própria realidade, já que o revés nos atingirá a todos e assistiremos a igualdade ser construída não para a compartilhamento dos bens comuns, mas para o compartilhamento da tragédia que se anuncia a todos.
Há limites que não podem ser ultrapassados e, me parece, que já estamos na linha divisória de muitos deles. A existência do homem na terra depende de condições climáticas e de respeito a natureza, que não pode ter seus limites ultrapassados.