Mais uma vez somos “sobressaltados” e “surpreendidos” com as tragédias relacionadas aos efeitos das mudanças climáticas que tantos ainda teimam em negar, atribuindo exclusivamente aos céus o dilúvio que se abateu sobre o Rio Grande do Sul.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de forma bastante lúcida e realista, declarou, em entrevista, que o mapeamento das cidades com maior risco de sofrerem esse tipo de revés existe e deveria ser seguido como parâmetro para nortear as intervenções de caráter preventivo.
Segundo ela, estudos produzidos pela Casa Civil e pelo Ministério das Cidades indicam que há hoje no Brasil 1942 municípios com pessoas habitando regiões com alta suscetibilidade a alagamentos e deslizamentos, ou seja, mais de um terço dos municípios brasileiros poderão vivenciar tragédias da mesma dimensão e abrangência da que viveram, e vivem, munícipios do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, contabilizando mortes e destruição incalculáveis.
Não estamos mais falando de um futuro longínquo e distante de nós. Estamos falando do aqui e agora, ao meu lado e ao lado das pessoas que nos são caras, que gozam do nosso amor e com as quais convivemos diretamente.
Não estamos mais falando, exclusivamente, de pessoas vulneráveis, que moram nos morros, nas favelas, com as quais não nos encontramos e que só enxergamos à distância, sem conhecer as dores e os sofrimentos cotidianos que enfrentam.
Não estamos mais falando, exclusivamente, de pessoas que vivem nas ruas, que somente nos são visíveis pelo vidro dos carros que nos conduzem de casa para o trabalho ou para a diversão.
Não estamos mais falando, exclusivamente, de pessoas sobre as quais a sensibilidade e a proteção de alguns é meramente protocolar, sazonal, direcionada na estação das chuvas e para as quais nossa solidariedade, temporária, se manifesta com o envio de roupas, cobertores, alimentos ou água.
A tragédia está batendo às nossas portas. Está cada vez mais perto de nós, chegando ao nosso quintal, aos prédios dos bairros habitados pela classe média. Até as casas dos bairros nobres da cidade já começam a ser afetadas.
Está levando os carros de luxo, da mesma forma que leva as bicicletas ou carros mais populares que transitam pela cidade. Está entrando nos consultórios, nas clínicas, nos órgãos públicos e nos hospitais das cidades. Está deixando sem água, sem energia e sem internet não apenas os vulneráveis e vulnerabilizados socialmente, mas ampliando sua abrangência e se capilarizando de forma rápida e incontrolável.
Ela começa a ser, de alguma forma, democratizada. A igualdade, constitucionalmente delineada, defendida incondicionalmente por alguns e com a eficácia embaraçada por outros, está chegando pela via da tragédia e não pela vida da comunhão e distribuição equitativa de bens e de direitos.
É claro que estamos apenas no começo do compartilhamento do sofrimento. A desigualdade social continua a nos colocar em patamares de enfrentamento diferentes, mas em matéria de efeitos das mudanças climáticas vai, de alguma forma, atingir a todos, colocando em risco nossas vidas, nossa saúde, nosso patrimônio e nossa paz.
O certo é que a tragédia está chegando perto de quem possui o poder para decidir mudar nosso destino. As águas estão atingindo os bairros nobres e o medo se alastra. O medo da força das águas e da tragédia anunciada não é mais prerrogativa de quem mora nas favelas e nos bairros mais vulneráveis.
Aos poucos, ele chega até todos como condição de existência a partir da constatação de que não há como deter a força das águas. Elas caem sobre todos e arrastam casebres, mas começam a adentrar as casas de bairros antes considerados nobres e inatingíveis.
Seremos todos igualados pela força das águas? Será esse nosso destino comum?
Em seu pronunciamento, a ministra Marina Silva fala em um Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil que será implementado pelo governo federal nos próximos dias. É claro que não é simples e nem barato. É claro que não depende apenas de um governante bem-intencionado assinando um plano de emergência para o enfrentamento da crise climática. Ela é estrutural e estruturante.
Melhorias na infraestrutura, investimento na remoção da população das áreas de risco, estabelecimento de sistemas de alerta, planejamento urbano, intervenção nas encostas, política de moradia, reflorestamento, políticas voltadas ao estabelecimento de cidades resilientes, dentre outros, poderão amenizar o problema e evitar tragédias da dimensão das que estamos vivendo hoje. Não será fácil, mas é possível.
Entretanto, nada será capaz de reverter o quadro de declínio climático se não conseguirmos enfrentar e repensar o modelo de economia capitalista, consumista e concentrador de renda, que vive de manter desigualdades, de tal forma a que um grande exército de vulneráveis esteja disponível a baixo custo, para o trabalho, já que indispensáveis à manutenção dos privilégios que concentram as riquezas do planeta nas mãos de 1% da população mundial.
Vivemos a era das tragédias anunciadas no que diz respeito aos efeitos da crise climática. Ou repensamos o modelo que nos levou a essa condição ou passaremos os próximos anos tapando os buracos no telhado, enquanto a água derruba as portas e paredes de nossas casas, levando, na enxurrada a nós mesmos e a todos a quem amamos.