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Para pensar

Esperança é uma utopia ingênua ou condição de possibilidade para o real?

Nas festas regadas a camarões, lagostas, cordeiros e pernis, muito pouco se falará acerca dos direitos sociais retirados para que suas rendas possam se manter intactas ou ampliadas

Publicado em 30 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

30 dez 2019 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer
Queima de fogos durante a virada de ano na Praia de Camburi: o que queremos no novo ano? Crédito: Vitor Jubini

Um novo ano se impõe a nós de forma inexorável. Amanhã, assistiremos, em várias partes do mundo e no Brasil, de modo mais significativo nas grandes cidades, os fogos de artifícios anunciarem a chegada de 2020.

No burburinho dos fogos pipocando e explodindo em lindas imagens coloridas que se formam no céu estrelado, encantando nossa imaginação; nas ricas e fartas ceias; nos espumantes borbulhantes que alegram o coração e na profusão de abraços e beijos com desejos de feliz Ano Novo, alguns, muitos poucos, pararão para refletir, de fato, sobre as possibilidades reais que o novo ano se nos apresenta.

Estarão felizes, sentindo-se naturalmente confortáveis, comemorando a chegada de um novo e abençoado ano, acreditando que o mundo lhes deve esta alegria e que essas benesses lhes são por direito, seja de nascimento, em razão dos sobrenomes que carregam, seja por merecimento, em razão de seus esforços no trabalho ou nos negócios nos quais empreendem de forma tão “criativa e lucrativa”.

Muito poucos se lembrarão dos milhares que passam fome pelo Brasil e que se sentiriam privilegiados somente com as migalhas que irão para o lixo dos que habitam nas suntuosas mansões suspensas à beira-mar.

Muito poucos se lembrarão das milhares de crianças refugiadas, estupradas, violentadas física e psicologicamente, que são rejeitadas pelos países ricos e que desejam a morte por não suportarem a dor de existir, que as nações ricas lhes impõe com o desprezo destinado aos incômodos, os quais a simples imagem se faz causadora de repulsa.

Olharão para os belos presépios montados com requinte em suas salas e falarão de Jesus, sem nem ao menos se lembrarem ser a manjedoura, o cocho de suas fazendas, onde comem os animais e a família de Jesus, uma família de refugiados, escapando da perseguição de Herodes.

Nas festas regadas a camarões, lagostas, cordeiros e pernis, muito pouco se falará acerca dos direitos sociais retirados para que suas rendas possam se manter intactas ou ampliadas. Muito pouco, talvez nada, se dirá da ampliação da desigualdade social no Brasil, da fome, dos recursos da saúde reduzidos para que seus lucros possam ser multiplicados.

Nas festas regadas a Champagne Veuve Clicquot e canapés delicados, circularão pessoas boas, sérias e comprometidas, discutindo, dentre outras coisas, planos de benemerência e doações que farão aos pobres no primeiro dia do ano, anunciando a bondade que lhes invade o coração nessas datas festivas, e convidando os amigos a doarem para as inúmeras listas que circulam entre os bem aquinhoados economicamente.

Nas festas reais, que acontecem nas periferias das cidades, nas favelas, nos morros e nas casas onde reside a maioria dos cidadãos brasileiros, a crise se impõe, à despeito da cerveja, dos pagodes, dos funks, da proximidade do carnaval e da percepção clara de que tudo se agravou e as perdas continuam e continuarão a aparecer. Um sentimento de impotência se impõe e então, “vamos dançar para não chorar”. “Amanhã há de ser um novo dia”.

Ainda sonham, talvez, com as promessas de campanha propagadas nos púlpitos das igrejas e nas redes sociais de que a partir de 2019 o Brasil entrará nos trilhos e a vida irá melhorar.

Não mais corrupção, o reino da verdade, a família, saúde para todos, emprego, renda e segurança, com todos os corrompidos, depravados e pervertidos, partindo para fora do Brasil, que agora estará limpo de toda a podridão imposta por anos de governos corruptos sob o comando de não cristãos.

O cristianismo, mesmo sem Cristo, salvará a nação. O cristianismo, mesmo que armado e violento, salvará os povos da corrupção. No reino dos brancos, com os negros na cadeia, homossexuais sendo agredidos e mulheres sendo mortas para que o padrão patriarcal se mantenha, Jesus continuará sendo pregado e em nome dele atrocidades sendo cometidas.

Quem salvará de fato o Brasil?

Os mais otimistas, ingênuos, crédulos ou desavisados, sonharão sonhos de paz e farão projetos de que a vida haverá de melhorar, a economia recuperada trará oportunidades as mais diversas: um novo emprego, a possibilidade de entrada do filho na tão sonhada faculdade em busca de um título que lhe dará a independência financeira tão sonhada. Ainda não perceberam as perdas que tiveram e que lhes impedirão, talvez, até mesmo de continuar a manter sonhos de prosperidade e paz.

Os mais pessimistas, reflexivos, críticos e desesperançados, cada vez mais céticos, conscientes da conjuntura que se apresenta e que o mundo denuncia e os números revelam, se quedarão envergonhados, deprimidos, impotentes ou raivosos contra todos que, seja por ação ou omissão, contribuíram para esse estado de coisas.

Não há mais esperança. O Brasil não tem mais jeito. Já entregamos tudo. Estamos envergonhados diante do mundo. Nossas florestas queimadas, nossas riquezas negociadas, nossa soberania entregue aos EUA, nossos mares e diversidade marinha destruída pelas grandes empresas mineradoras que continuam a ser tratadas com as regalias e benesses governamentais. Nosso Judiciário, Legislativo e Executivo com grau de comprometimento ético acima do mínimo aceitável e possível de controle.

Nossa democracia, tão jovem e frágil, desconstituída e deslegitimada por sonhos-pesadelos de ditadura e de autoritarismo. Não há mais solução para o Brasil, dirão muitos, desesperançados, desiludidos, deprimidos e abatidos.

Direi, entretanto, contra toda e qualquer evidência - há sim sinais demonstrativos de que a esperança é uma possibilidade real a se colocar a nós. Não esperança-utopia, ingênua, característica dos tolos e simples de coração. Esperança dos que avaliam a história como corpo do tempo a nos mostrar que avançamos à despeito dos retrocessos.

A história do nazismo, por exemplo, pôde nos mostrar que a crueldade mais sistêmica pode ser enfrentada e que uma nação destruída ética, política e economicamente pode renascer das cinzas ressurgindo a partir de novos e consistentes padrões morais.

A inteligência humana será capaz de nos libertar dos algoritmos que nos encarceram a liberdade e os desejos, se formos capazes de nos movimentarmos a partir de nossa humanidade, solidária e criativa.

Esperança é diferente de passividade. Esperança é luta, resistência, enfrentamento, movimento e estratégia.

Estamos sangrando sim. É preciso admitir. Fazer análise de conjuntura sem perdermos tempo em sentimentos de raiva e luta contra aqueles que amamos. A Roma de Nero foi destruída pelo fogo de uma mente alucinada e doentia. Tantos governantes loucos impuseram ao mundo a vergonha de suas mentes despudoradas e acometidas pelos piores sonhos de destruição, violência e morte. Mas o mundo se mostrou viável à despeito deles.

Somos nós a esperança da nação.

Temos lutas a lutar. Não há tempo para lamúrias, ressentimentos ou mágoas. A história se impõe como condição de possibilidade para a reconstrução de um Brasil mais livre, democrático e justo.

Se for preciso passar o prumo que o passemos. Se for preciso expurgar as chagas, que o façamos. Se for preciso drenar o tumores purulentos, que o façamos com precisão cirúrgica e com os riscos naturais nessas situações.

Se necessário for, uma revolução democrática, vinda das ruas. A mudança virá das ruas. Mas é preciso ressignificar as ruas antes de ocupá-las. Do parlamento, do executivo e do legislativo, ela certamente não virá.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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