Há palavras que servem à passagem do ano. Rompidas as adutoras do novo tempo (apesar dos perigos, né, Ivan Lins?) saltam da ponta da língua os desejos em forma de substantivos abstratos no gênero que dependerá do gosto e aspiração do freguês. Amor, humor, felicidade, prosperidade e esperança estão no top five dos pedidos entre os que pulam as sete ondas e comem as uvas da pedição futura.
No findar do ano velho, uma esperança pousou em mim, a concreta, com cara de bicho-grilo, só que luminosamente verdinha em combinação com a grama do jardim. A mesma que pousou no conto da Clarice. As pernas magrelas resistiram a se agarrar nos meus dedos, parecia desaprovar o perfume - àquela altura a mão exalava o vinho tinto das comemorações.
Eis que a esperança cede e gruda na minha pele com vigor de inseto que fisgou a presa. Ali ficou num rodopio lento fazendo pose para as lentes dos amigos. A verdinha gostou da pista de pouso e agora a resistência era pra sair. Precisei do reforço do jardineiro da casa que, com a precisão de artífice dos verdes, arrancou a mocinha da mão e a deitou na caminha da grama, onde a perdi de vista.
Posso ter perdido o grilo verde da mirada, mas a abstração não. O sentimento tem lugar perene na casa dos meus desejos e mesmo quando a perco de vista, ela, a esperança, estará lá, dessa vez esperando por mim. Assim como o amor, outro da lista, que cisca aqui e ali, se faz de tico-tico no fubá, se equilibra na linha do horizonte e, no entanto, não me deixa na mão. Às vezes, em doses homeopáticas, numa avareza de dar dó, em outras ele avança sobre mim como avalanche, não há obra de contenção que o detenha.
As pedras rolantes do amor só seguem seu percurso se o humor lhes der a mão. O humor é o sal da vida sem chances de pressão nas alturas porque nele está o sabor dos dias, a alquimia que causa espanto às dores, a rega pra flor do bem-me-quer.
E ninguém reclame se prosperidade e felicidade parecem fora da lista dos pedidos. Com esperança, amor e humor, elas estarão garantidas no top five dos desejos se tornando realidade. Desde que o pidão faça por merecer.