A escolha de uma profissão representa uma das decisões mais relevantes que os jovens devem tomar ao longo de suas vidas. Isso acontece, de um modo geral, por volta dos 17 anos, momento no qual ainda estão vivenciando o fim da adolescência, quando nem todos os seus potenciais cognitivos e emocionais estão totalmente amadurecidos.
Segundo estudos da neurociência, o córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelas altas funções cognitivas e pela regulação emocional, somente alcança seu amadurecimento pleno por volta dos 24 a 25 anos. Nesse sentido, uma das decisões mais relevantes de suas vidas, e que certamente terá impacto importante em toda a sua história, poderá ser tomada de forma não tão comprometida com sua racionalidade, aptidões, talentos e inclinações. Para essa decisão, os jovens sofrem, muitas vezes, forte influência da família, dos amigos, da mídia ou, simplesmente, se sustentam no desejo de serem valorizados social e economicamente.
Profissões de elevado reconhecimento social e com alto potencial de promoverem retorno financeiro e posicionamento na hierarquia econômico-social compatível com os desejos de sucesso acabam, assim, por povoar o imaginário de jovens, construindo e alimentando seus desejos e definindo suas escolhas.
A alta disputa nos vestibulares por profissões como Medicina, Direito, Engenharia, dentre poucas outras, é uma evidência desses mecanismos e fatores envolvidos nas escolhas que os jovens fazem.
Assim, profissões com menor prestígio social acabam ficando em um segundo plano no campo das opções, sendo destinadas àqueles que, em razão das profundas desigualdades sociais vivenciadas no Brasil, não conseguem entrar nessas disputas com as mesmas condições daqueles que tiveram oportunidades escolares diferenciadas.
Profissões ligadas à Educação, que têm como campo profissional mais abrangente a sala de aula, vinculando seus exercentes à profissão de professores, dentre elas Pedagogia, Geografia, História, Matemática e Física, acabam por não se incluírem como opção primeira, ficando, assim, destinadas a muitos que gostariam de estar em outros lugares profissionais, mas que, pelas limitações impostas, não conseguem almejá-los.
Neste sentido, uma das profissões mais relevantes, essenciais e fundamentais no desenvolvimento de uma sociedade que se deseja livre, emancipada e com potencial para construir a história, pilar constitutivo de todas as demais profissões, como é a de professor, acaba por ser relegada à uma condição de segunda opção, tendo em vista não se constituir objeto de desejo dos jovem, em razão de não atender aos critérios iniciais definidores de escolha profissional, tais como valorização social e econômica.
Por mais que no Dia dos Professores sejam feitas homenagens e manifestações múltiplas de reconhecimento por parte dos estudantes e de seus familiares, tanto no ensino fundamental, médio, quanto superior, o certo é que poucos pais, hoje, com condições de sustentar seus filhos com tranquilidade durante toda sua vida acadêmica superior, os estimulariam a escolher profissões ligadas à carreira acadêmica.
Não reside nesta análise nenhuma crítica à preocupação dos pais quanto ao futuro de seus filhos e à tentativa de influenciá-los na escolha de profissões mais promissoras econômica e socialmente. Ela é justa e compreensível. A análise se restringe ao debate sobre a necessidade de se considerar o cenário no qual nos encontramos, de profunda desvalorização da profissão sobre a qual, como já dissemos, se sustentam todas as demais.
É necessário que seja considerada a impossibilidade de se forjar jovens para um futuro complexo e desafiador, como o que se apresenta a nós, sem que eles sejam formados por professores que atuem como educadores que escolheram livremente sua carreira.
Algumas profissões até podem ser exercidas com eficácia e competência de forma meramente técnica, sem envolvimento emocional, afetivo e criativo mais caracterizado. O mister do educador, entretanto, exige outros qualificadores para além das competências típicas envolvidas no ato de ensinar.
As habilidades e inclinações exigidas de um educador são complexas e intrincadas. A alegria e o prazer envolvidos na arte, na técnica e na ciência de produzir e compartilhar conhecimentos exigem uma capacidade superlativa de encantar e de capturar mentes e corações.
Envolver crianças e jovens no fantástico ato de sair de sua condição de obscuridade intelectual temporária ou incapacidade de perceber aquilo que parece óbvio, mas que nem sempre o é, jogando luzes na intensidade e na medida necessária para não provocar a interrupção das interconexões neurais necessárias à conformação do aprendizado, são habilidades indispensáveis ao fazer do educador e da educadora.
A educação não se coaduna com massificação. Ela é um processo de customização altamente requintado e que exige conhecimento que se renova permanentemente, assim como criatividade no seu grau máximo.
Criar histórias e estórias, fazer as aplicações devidas, ter a destreza, a desenvoltura, a agilidade e a sabedoria para lidar com o inusitado, com o inesperado que se manifesta em uma pergunta inapropriada ou não, em uma agressividade fora de hora ou de contexto, não é para alguém que se encontra na condição de exercente de uma profissão que não deseja e que não lhe faz feliz.
Encontrar a palavra certa para lidar com uma timidez ou com um estado de profunda depressão de um educando, sem constrangê-lo, sem diminuí-lo e sem excluí-lo do processo, estabelecendo uma prática pedagógica de envolvimento com o outro, mediada pelo respeito, pelo afeto e pela compreensão da singularidade que constitui o humano, é mais do que excelência técnica e competência pedagógica.
Um educador não nasce pronto. Ele é forjado a partir de múltiplos e contínuos processos pedagógicos que exigem hetero e autoavaliação continuadas, que precisam estar sustentadas em um compromisso de humildade não subserviente ao outro, educando, ou aos superiores hierárquicos, mas suficiente para remodelar-se e ressignificar-se em um processo ininterrupto de busca pela excelência.
Há algo de mágico na relação educador e educando, nesse convite à liberdade, à emancipação e à construção de um sujeito ético, que é capaz de perceber sua potencialidade intelectiva, respeitosa de suas limitações e de seus desejos.
Educar é libertar das amarras da ignorância e da obscuridade, abrindo caminhos para a construção do novo e do futuro.
Um educador convida para conhecer os detalhes de uma operação matemática ao mesmo tempo em que desperta e faz nascer um economista comprometido com a matemática da vida, na qual todos precisam ter as mesmas oportunidades para se desenvolverem e para fazerem as opções que desejarem, inclusive de serem professores.
Um músico pode nascer de uma aula de Física, e um empresário comprometido com a crise climática e com desenvolvimento sustentável de sua empresa e da nação pode emergir em uma aula de Direito Constitucional na qual se discute o artigo quinto da Constituição e os Direitos Fundamentais ali elencados.
Não é apenas o conteúdo da aula e nem o seu formato rigorosamente estabelecido em um planejamento perfeito e milimetricamente configurado em um plano de aula, necessário, sem dúvida alguma, mas é a alegria que envolve educadores e educandos em um amoroso processo de ensinar e aprender que fazem a diferença.
Para além das homenagens no Dia dos Professores, justas e merecidas, a valorização profissional passa também por políticas públicas de Estado que possibilitem o nascimento do desejo em jovens de 17 anos, para que possam enxergar nas profissões da educação um lugar de reconhecimento social e econômico compatível com a grandeza da profissão.
No ensino superior, a questão não é diferente. Por mais que a docência nesse nível seja mais glamorosa e instigante, considerando ser esta uma opção que já se faz em momento de maior maturidade emocional e cognitiva, no quesito valorização, o princípio que se firma é mais ou menos o mesmo.
Com raríssimas exceções, professores do ensino superior são pouco valorizados, encontrando dificuldades para se manterem exclusivamente na docência.
Na contracorrente desse modelo de desvalorização da carreira docente, instituições privadas premium, que se destacam pela excelência e por resultados surpreendentes nos quesitos avaliativos do MEC, da OAB, dos concursos públicos e do mercado, em uma perspectiva estratégica, têm assumido compromissos sérios de respeito e valorização de seu corpo docente, que lhes permitem manter o desejo pela carreira, ainda que exclusivamente nessas instituições, sempre em alta.
Educadores, professores que compreendem sua importância e assumem compromissos sérios como uma formação ética, social e cientificamente responsável, são indispensáveis à construção de um futuro rico de oportunidades, criatividade, igualdade, liberdade e esperança.
A democracia, para se sustentar, depende de processos educativos emancipatórios, disponíveis a todos, em que pessoas são tratadas em sua individualidade, potencialidade e liberdade.