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Violência

Atos obscenos de alunos de Medicina mostram validação da cultura do estupro

Não são raros os casos noticiados pela imprensa, ou viralizados nas redes sociais, nos quais grupos de homens se manifestam coletivamente de forma a afirmar o poder do macho

Publicado em 26 de Setembro de 2023 às 00:20

Públicado em 

26 set 2023 às 00:20
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O ato protagonizado por estudantes de medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), exposto em vídeos que mostram um grupo de homens exibindo e tocando as partes íntimas  durante um jogo de vôlei feminino em um campeonato universitário, não é um episódio isolado.
Não são raros os casos noticiados pela imprensa, ou viralizados nas redes sociais, nos quais grupos de homens se manifestam coletivamente de forma a afirmar o poder do macho com base em uma suposta superioridade deste sobre a fêmea, utilizando-se de seus órgãos sexuais ou de simbolismos alusivos a atos sexuais, como demonstrativos de sua “potência” em relação à “impotência” feminina que desejam propagar.
O Espírito Santo mesmo já assistiu, em tempos recentes, manifestação dessa mesma natureza com estudantes de medicina. O assunto caiu no esquecimento poucos dias depois, como caem todos os outros com os quais somos cotidianamente impactados, não havendo, por parte da sociedade, qualquer lembrança ou retorno no sentido de ver se a justiça foi efetivamente concretizada ou se a gravidade do ocorrido foi mais uma vez jogada para baixo do tapete, tratado como mero e inofensivo ato inconsequente praticado por jovens em manifestações de alegria típicas da juventude.
Atos como o ocorrido com estudantes de medicina lá e cá não são singelas manifestações imprudentes, levianas, irresponsáveis e sem maiores consequências praticadas por jovens em momentos de descontração.
São representativos de uma cultura do estupro, machista e misógina que segue forte e potente, validada socialmente e justificada como simples atos de falta de maturidade e irresponsabilidade da juventude e que, portanto, devem ser perdoados e tratados com parcimônia, moderação, reservas e simples advertências, sem maiores impactos na vida desses “meninos bons” que erraram mas que não deixam de ser “bons meninos”, já que, em regra, são originados de classe social elevada e, portanto, filhos de gente considerada no Brasil como “gente de bem” em razão de seu status social e econômico.
É fato inquestionável que a formação médica no Brasil sofre uma grave crise em várias áreas, mas, em especial, uma crise ética. São inúmeros os casos de médicos que saem do lugar de heróis, respeitados e admirados por seu status socialmente reproduzido de homens importantes e essenciais à sociedade, lugar típico de salvadores de vidas e da pátria, para o lugar de vilões, estupradores daquelas que deveriam cuidar, curar, socorrer, amparar e proteger.
Casos de médicos estupradores já se tornaram tão comuns que somente aqueles com maior carga de absurdo, como o do anestesista que estuprava suas pacientes em pleno centro cirúrgico, chegam a mobilizar a atenção da sociedade, causando repugnância, repúdio e revolta. Também esses são esquecidos rapidamente.
O Espírito Santo tem seus casos dessa condição que relaciona médicos a monstros.
A expulsão dos alunos que protagonizaram esse episódio do curso de medicina da Unisa não é mais do que uma singela e inócua medida de punição que apenas tem o sentido de dar uma resposta imediata à sociedade.
Assim que o assunto cair no esquecimento público, o que certamente ocorrerá muito em breve, esses meninos ricos e “lindos”, protegidos e compreendidos pela maioria de seus pais e amigos, inclusive por muitas de suas namoradas, retornará aos estudos em uma das centenas de faculdades de medicina espalhadas pelo país, nas quais o ingresso, claro, está muito mais condicionado à capacidade de sustentabilidade financeira do que a qualquer outro requisito.
Alguns deles, talvez, ainda venham a relatar, no futuro, em alegres mesas de bar regadas a cerveja, seu passado de menino irreverente e levado, em meio a risadas sádicas de amigos que compartilham da mesma cultura e sistema de crenças, ou seja, uma cultura misógina que enxerga a mulher como objeto de satisfação para seus desejos e para validação de sua masculinidade.
A educação médica precisa ser modificada com urgência. Há problemas de muitas ordens a serem enfrentados na formação dos médicos brasileiros, dentre elas a radical cultura da mercantilização da profissão e o negacionismo que atingiu a muitos e que pôde ser constatado no processo de enfrentamento da pandemia com a prescrição de ivermectina e cloroquina.
A questão da formação ética dos médicos é um problema de base, urgente e imperativo para a garantia da dignidade médica. O problema, entretanto, não se restringe aos médicos.
Aqueles tolos e criminosos meninos/homens, já responsáveis por suas ações, que arriaram as calças nos jogos da Intermed são fruto de uma cultura que os socializou para serem assim. Foram forjados na lógica do homem predador, valorizados por pais, por amigos e, também, por muitas mulheres.
Imagens de um grupo de alunos realizando uma ´´masturbação coletiva`` durante uma partida de vôlei feminino da Intermed
Imagens de um grupo de alunos realizando uma ´´masturbação coletiva`` durante uma partida de vôlei feminino da Intermed Crédito: Reprodução/Redes Sociais
Nesse sentido, é preciso compreender que esses homens, futuros médicos, animalizados, são frutos de um processo de socialização masculina que lhes garante status de heróis quando na realidade praticam crimes previstos em lei e que, por eles, deverão responder.
Não basta a expulsão do curso de medicina ou dos jogos escolares. Sua carreira de educação para o estupro precisa ser interrompida definitiva e radicalmente.
Eles precisam ser responsabilizados por seus crimes de forma a que a pena possa cumprir seu papel educativo, para eles e para a sociedade.
Os crimes que cometeram estão claramente tipificados na legislação penal brasileira. Ato obsceno, importunação sexual e outros possíveis enquadramentos a serem analisados. Deverão ser submetidos ao devido processo legal e precisam ser julgados e responsabilizados devidamente, no rigor da lei.
Magistrados, magistradas e todos os demais profissionais envolvidos na causa devem atuar com vistas ao alcance da justiça com vistas a quebrar a impunidade tantas vezes perpetrada em casos como esse.
Seja por compreensão real dos mecanismos pelos quais operam o machismo e o patriarcado, seja por dever de ofício, os magistrados, em razão da Resolução do CNJ para que julguem com perspectiva de gênero, e todos os demais profissionais deverão estar atentos a essa cultura que oprime, massacra e viola a dignidade das mulheres.
Não é apenas um caso que envolve exclusivamente médicos. É toda uma cultura do estupro sustentada no patriarcado, no machismo e na misoginia que precisa ser enfrentada com coragem.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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