Nós não podemos decidir onde, quando e como queremos nascer, mas podemos, de algum modo, nos manifestarmos sobre como desejamos fazer a transição desta vida para a outra, caso nossa morte não aconteça de maneira súbita, na qual não haja tempo para qualquer intervenção externa no processo de transição.
Em uma cultura baseada na busca pela longevidade, na qual o prolongamento artificial da vida é uma condição aceita e validada social e cientificamente, morrer parece, de algum modo, um atestado de nossa incapacidade de enfrentarmos uma condição inexorável à qual todos estamos condicionados.
Morrer é condição da existência e isso precisa ser aceito, compreendido e tratado com a mesma natural submissão à qual intuímos o nascer e o viver.
Não se trata aqui do morrer por violência, por falta de assistência em razão da ausência do Estado, de abandono familiar ou de qualquer outra forma de morte antinatural e evitável. Considera-se, para efeito de análise nesse texto, aquelas que se incluem na condição de mortes advindas de um processo natural de envelhecimento ou de adoecimento em razão de enfermidade para a qual não haja tratamento possível ou que, havendo, ele não produza mais efeitos naquele corpo que padece.
Ressignificar a morte, passando a compreendê-la como parte integrante da vida e como condição absolutamente natural de nossa existência, é um caminho a ser construído, e essa construção, processo educativo urgente e necessário, somente pode ser trilhada se aprendermos a olhar para dentro de nós mesmos e para nossa absoluta impotência diante do implacável fim.
A ciência, por mais que avance e que se sofistique teórica e metodologicamente, com inovações às mais diversas e inimagináveis, jamais atingirá o ponto de domínio de uma questão que é absolutamente transcendental, fora de nossa capacidade humana de compreender ou intervir.
O fim chegará para todos. Para cada um à sua maneira, mas para todos indistintamente, sem qualquer tipo de intervenção externa. O que as condições sociais e econômicas podem e fazem, como perversa forma de atestar e validar a diferença que alguns pensam existir entre os humanos, é possibilitar recursos para o seu adiamento ou para que se morra com maior conforto, seja referente ao recebimento de serviços de hotelaria hospitalar, seja por assistência contínua e qualificada, recebida por parte daquele que está em fase de transição.
A morte, tal qual a enxergamos e vivenciamos hoje, é processo tecnologizado, artificializado, monitorado por aparelhos altamente sofisticados, acompanhado por profissionais com capacidade técnica, na maior parte das vezes, mas sem o contato da mão de uma pessoa amada que possa acarinhar, acalmar e dizer acerca do amor que sente, cantando cantigas que façam sentido na história de vida e que remetam a lugares e sensações de felicidade e de conforto.
Aceitar a inexorabilidade da morte é construir e constituir um novo e mais significativo ritual para essa transição que se instala. A morte é um rito de passagem que precisa ser vivenciado com autonomia e dignidade.
Se houvesse uma cultura dialógica de considerar a morte como algo concreto e presente na vida de todos, inclusive na nossa, poderíamos planejar esse momento, tal qual planejamos os eventos ritualísticos de passagem, como os aniversários e os casamentos.
É claro que morte não é um momento de festa ou de comemoração, tal como estamos acostumados a considerar os motivos que ensejam festejos e celebrações. É um momento de dor e de consciência do fim e da saudade que se anuncia. Mas a morte e o morrer, fenômeno único, que se apresenta como condição natural de vida, pode ser transformado em um rico ritual de aprendizado sobre a existência humana com celebrações sobre o amor vivido, sobre as amizades construídas, sobre os afetos que nos envolvem, sobre os projetos consolidados e os que foram ou que não foram concretizados.
Um belo e emocionante ritual de lembranças que nos aquecem e alimentam o espírito. Festejar a vida na morte pode ser nosso aprendizado necessário e urgente.
Vivenciei recentemente a partida de minha mãe. Oitenta e oito anos de uma existência plena, apesar dos momentos dolorosos enfrentados, todos, com dignidade e fé. Amou e foi amada. Teve o privilégio de compartilhar a vida com meu pai por 67 anos. Nunca vi uma união tão sólida e amorosa.
Eu me lembrarei para sempre do afetuoso cuidado dele para com ela. Descascar e picar uma manga para minha mãe, em pedaços pequenos e absolutamente simétricos, assentados na mesa da cozinha, era um ritual digno de ser assistido, devendo fazer parte eterna das lembranças de filhos, netos e bisnetos. Eram de fato uma unidade.
Não desejar mais continuar a viver, após ter vivido uma vida tão rica e plena de amor, companheirismo e experiencias produtivas de existência, é perfeitamente compreensível. Não adiantar a partida, mas partir no tempo certo sem qualquer tipo de intervenção, uma forma de garantir a autonomia e a dignidade.
O ritual de passagem de minha mãe, dentre eles o longo, dedicado e cuidadoso amor de minha irmã, de todos que estiveram ao redor, do acompanhamento por um médico amigo e amoroso, da cerimônia de sepultamento na qual o abraço de parentes e amigos queridos, antigos e recentes, permitiu trazer à memória tantas lembranças boas e, mais do que tudo, o doce consolo do amor que se manifesta em flores, abraços, presenças inesperadas, palavras ternas, docinhos, afagos e cuidados diversos, mediados pelo amor infinito de Deus, tornaram o momento uma experiência amena e menos sofrida.
Valores compartilhados de compromissos com o trabalho, com a busca da excelência em tudo, com a verdade, com a ética, com o exercício da solidariedade e com a fé, foram sendo lembrados nesse ritual de passagem que tive o privilégio de vivenciar, ladeada por parentes, amigos chegados e pessoas queridas que estavam ali, para nos abraçar e consolar.
Uma partida suave, natural, de um tempo que chega, sem intervenções heroicas e sem tentativas de adiamento daquilo que é inevitável.
“Há tempo para tudo debaixo do sol. Tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para colher, tempo de chorar e tempo de rir...” Eclesiastes 3
Agora é tempo de viver os compromissos e valores que aprendemos. Aceitar e respeitar que o viver e o morrer implicam em compromissos de respeito à autonomia, à dignidade, à igualdade, à justiça e à busca pela paz.