Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

Até quando vamos tolerar o ódio e a violência contra as mulheres?

É preciso enfrentar o problema com estratégias menos ingênuas e pueris do que as que vêm sendo utilizadas

Publicado em 10/03/2026 às 04h00

O ódio contra as mulheres é fenômeno milenar! Em todas as culturas e em todos os tempos, o desprezo, a desconsideração e a hostilidade dirigida às mulheres se manifestaram de alguma forma, sustentando-se em argumentos os mais diversos e inimagináveis.

Esse ódio tem se ampliado, nos últimos tempos, aperfeiçoando suas formas de manifestação e sofisticando o escopo argumentativo, justificador de suas práticas. Ele se cristaliza como cultura socialmente estruturada e enraizada nas instituições e na sociedade.

Esse ódio, manifestado como violência, é validado, seja pela aquiescência, concordância com as práticas, seja pela omissão dos que o percebem, mas preferem se manter à margem, omissos em sua ética individualista e autocentrada. O modo como os homens operam as estratégias de silenciamento das vítimas é altamente eficaz.

O medo, a vergonha e o sentimento de culpa, vivenciados e compartilhados pelas mulheres vítimas de violência, estão baseados na experiência própria de revitimização daquelas que se arvoram o direito de se rebelar e denunciar, manifestando sua indignação com a violência.

O sistema patriarcal, que opera por meio das instituições, família, igreja e Estado, se encarrega de manter as mulheres silenciosas e passivas, com vistas a não haver alteração em um sistema que parece, aos homens que o gerenciam, adequado e conveniente, satisfatório aos seus próprios interesses.

A violência contra mulheres, manifestação do ódio, é sistêmica e estrutural. Na cultura ocidental, o que hoje denominamos como misoginia, fenômeno estudado de forma cada vez mais frequente por pesquisadoras das mais diversificadas áreas, vem crescendo. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece a violência de gênero como um problema de saúde pública e já a classificou como uma verdadeira pandemia em escala global.

A crescente onda de violências contra as mulheres está sustentada em um aparato institucional solidamente consolidado em modelagens validadas por uma sociedade que percebe a mulher como ser inferior.

A misoginia não é uma construção discursiva dos movimentos feministas que resolveram cunhar esse termo para designar um fenômeno recente. O desprezo pelas mulheres tem raízes históricas, patriarcais, religiosas, que tentam jogar sobre as mulheres uma condição de culpa pelo pecado da humanidade, associando-as ao demônio e às tentações. O feminino, seja na religião, seja na mitologia, seja na filosofia, sempre é visto como inferior ao masculino, precisando ser protegido, controlado e punido.

Esse ódio se manifesta na violência doméstica, nos estupros, nas humilhações públicas e privadas, na interrupção das falas das mulheres, na desqualificação profissional delas, nos salários inferiores, nas “piadinhas”, no cuidado exclusivo dos filhos, na sobrecarga de trabalhos que adoece as mulheres e as deixa com altos índices de depressão e muitas outras doenças.

Os dados a seguir são, sem dúvida, perturbadores. Eles causam espanto, indignação e, por vezes, incredulidade. Ainda assim, é preciso encará-los com seriedade, pois revelam a dimensão real e alarmante da violência que atinge mulheres e meninas. Mais do que números, esses dados expõem a profundidade de um problema estrutural que exige reflexão, responsabilidade institucional e respostas urgentes da sociedade.

Réus por estupro coletivo são procurados pela polícia do Rio
Réus por estupro coletivo são procurados pela polícia do Rio. Crédito: Divulgação/Polícia Civil

Só em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, número que representa um aumento de 4,7% em relação a 2024. A maior parte dessas violências é cometida no ambiente doméstico, pelos homens que dizem amá-las e que são vistos pela sociedade e pelo sistema religioso como aqueles aos quais elas têm que ser submissas.

A violência, entretanto, começa muito antes do feminicídio. Segundo dados da Unicef, uma em cada oito meninas no mundo sofreu estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. No Brasil, de acordo com o DataSenado, 3,7 milhões de mulheres foram vítimas de violência doméstica ou familiar apenas em 2025. Esses números revelam uma realidade ainda mais ampla e persistente: 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida.

O mundo digital tem ampliado esses riscos para a vida e a saúde das mulheres. Os algoritmos operam no sentido de perpetuar o machismo e a violência de gênero. Comunidades como red pill têm provocado estragos significativos no aumento da violência contra mulheres entre adolescentes.

É preciso enfrentar o problema com estratégias menos ingênuas e pueris do que as que vêm sendo utilizadas. Elas atendem apenas aos interesses daqueles que desejam manter o sistema funcionando dentro da mesma lógica que funciona há milênios, qual seja, mulheres são inferiores aos homens e responsáveis pela violência que sofrem.

Diante de uma realidade tão evidente e reiteradamente comprovada pelos dados, resta uma pergunta que a sociedade brasileira não pode mais evitar: até quando aceitaremos conviver com uma cultura que transforma o ódio e a violência contra mulheres em algo tolerável?

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais
mulher Violência contra a mulher Todas Elas Estupro de vulnerável Mulheres Machismo Misoginia

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.