Os episódios envolvendo o médico psiquiatra que apontou arma contra um vendedor em loja de um shopping e o vereador de Vitória que ameaçou uma professora de inglês são exemplos de que o fanatismo político-ideológico, recrudescido pelo extremismo nos últimos anos, expõe o que há de pior na sociedade. Pessoas más, violentas ou perigosas sempre houve, porém, parece que agora elas se sentem à vontade para colocar as garras para fora.
Num momento de calamidade sanitária sem precedentes, que já ceifou a vida de mais de meio milhão de brasileiros, em vez de ensejar a união da sociedade em torno de uma corrente coletiva de mútua cooperação em defesa da vida, o que se viu foi justamente o oposto: um médico psiquiatra negando a ciência e um vereador abusando de suas prerrogativas para intimidar uma professora.
No caso do psiquiatra Bernardo Santos Carmo, que no último dia 10 humilhou e apontou uma arma contra um vendedor que pediu simplesmente o uso de máscara de proteção facial, fica a constatação de que profissão não dita caráter, educação ou sociabilidade, tampouco que todo médico seja, necessariamente, um cientista ou paute sua atuação profissional em diretrizes científicas e éticas. O ato reprovável traduz a exacerbação de um sentimento de soberba e de superioridade: um médico se sente melhor que um vendedor e acima da lei.
O caso ganhou repercussão nacional após matéria veiculada no "Fantástico". Nem durante a entrevista à TV Globo o médico conseguiu controlar sua notória hostilidade e a fala prepotente e verbalmente agressiva, que soa como incompatível com alguém que deveria cuidar da saúde mental de outrem.
Para se defender, além de atacar, o psiquiatra confessou ter saído de casa com um simulacro. Ora bem, ninguém anda armado ou com um simulacro de arma de fogo ao acaso, exceto quando há o intento deliberado de delinquir (seja usando a arma ou simulacro num roubo ou para ameaçar alguém).
O Conselho Regional de Medicina já antecipou que não tomará nenhuma medida. Mesmo porque, os CRMs, apesar de serem órgãos de fiscalização do exercício da profissão, muitas vezes configuram-se mais como entidades políticas do que técnicas, com forte influência de corporativismo. Desse jeito, vamos ter que avaliar a vida pregressa antes de escolher com quem se tratar.
O caso do vereador Gilvan da Federal contra a professora da Escola Estadual Renato Pacheco, em pleno mês de junho (quando se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+), é a prova inequívoca da necessidade de ter sido criminalizada a homofobia. O vereador perseguiu a professora, disse que iria aguardá-la na saída do colégio para bater boca e intimidá-la tão somente porquanto a educadora, em suas aulas de inglês, passou aos alunos do ensino médio uma atividade contendo um texto alusivo ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+. A discordância virou motivo para intolerância e violência.
Na atividade da professora, ao contrário do que tentou dissuadir o professor e a mãe de uma aluna que externou sua visão homofóbica, não havia tentativa de convencer os alunos a adotarem qualquer posição ideológica, apenas uma tarefa para entendimento das estruturas gramaticais da língua inglesa e para ensinar os alunos a interpretarem textos naquela idioma. Isso porque a homofobia já é considerada crime. Imagine se não fosse…
Quando se quer calar a voz de uma professora, a intenção é impedir que o conhecimento seja difundido e que visões de um mundo plural sejam caladas por um grupo que se julga acima do bem e do mal, acima, inclusive, dos fatos, da lei e da ciência.
O que há de comum entre o vereador e o psiquiatra? Ambos compartilham a mesma afinidade político-ideológica pela extrema direita, basta ver suas redes sociais e declarações públicas. Não é coincidência.
Tão perigosa quanto a pandemia do coronavírus é a escalada do ódio, da intolerância, do negacionismo e da prepotência, sintomas claros de uma sociedade em crise de humanidade em baixa.