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(In)fidelidade

(In)fidelidade

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Publicado em 30 de setembro de 2019 às 11:57

 - Atualizado há 6 anos

Quando eu era uma meninota, tinha o hábito de me achegar ao grupo de homens que se aglutinava na casa do meu avô materno antes de irem à caçada. Isso mesmo! Literalmente, esses senhores com seus 60 e poucos anos, com seus genros e filhos iam à caça. Eu, astuta, à espreita, transitava livre por esse universo tão distante do colo materno: “os homens contra as feras!”. Ficava ali capturada pelas histórias.

Eis que um grande amigo do meu avô, cujo filho iria se casar na semana seguinte, conta a seguinte passagem, quando um amigo pergunta o que ele achava da noiva, sua futura nora: “Um jovem com o casamento marcado foi orientado a ir ao pescador da vila para ser aconselhado. Afinal, um pescador é um homem sábio. Ao chegar, perguntou: “devo me casar ou não?” E o pescador, respondeu: “a ostra nem sempre faz pérola, mas nem por isso tem menos valor”. Quando penso em casamento, sempre me lembro dessa frase. Quando duas pessoas se lançam à aventura de uma vida a dois, é preciso ter em mente que precisarão deixar para traz fantasias, sonhos e anseios. A vida compartilhada não é fácil, é um eterno doar-se e retomar-se. Aceitar-se falho e ceder à razão ao outro. Acima de tudo, resilir.

Não sou sábia, nem pescadora, e muito menos aventureira. E quando os pacientes no divã me perguntam se devem ou não se casar, o que me vem de imediato é: “Vocês desejam ter filhos?”. Essa é uma das perguntas que os casais menos se fazem na atualidade. E em seguida lanço a segunda pergunta: “Como seria ter um filho com seu parceiro ou sua parceira?”. E a terceira: “Como você imagina a família que irão construir juntos?”.

Não há impeditivos culturais, como outrora, para que os casais enamorados estabeleçam seus laços conjugais. Mas uma conjugalidade inevitavelmente evoluirá para uma parentalidade. E muitos casais não se casam vislumbrando esse horizonte. Por favor, não me demonizem, há sim casais que escolhem desde cedo não ter filhos e que sustentam suas posições, mas ainda assim a escolha está atrelada à parentalidade.

Infelizmente o meu ofício me permite ouvir muitas histórias com finais não tão felizes (embora eu ache que alguns finais são bem felizes). Particularmente, fico sempre muito triste quando recebo uma notícia de um casamento desfeito, ces´t la vie! Principalmente se esse casal se tornou família, com crianças, principalmente as muito pequenas. Não fico ilesa. Mas, inevitavelmente, o erro do casal se encontra na porta de entrada do enlace.

Não conheço qualquer história em que o ritual tenha sido leve, que não houvesse mal-estares entre os familiares, e lágrimas de decepção. Os casais se consomem fazendo tudo para serem aceitos e agradar aos outros e cuidam tão pouco de si mesmos. Até os votos são proferidos por outrem e repetidos automaticamente pelos pombinhos, sem um pingo de hesitação. Não deveriam eles próprios assumir por si seu compromisso, sem precisar de um terceiro na cena? Sem lançar mão de um outro que os valide? Esquecem-se que, ao fim da festa, dali em diante, serão apenas os dois, um com o outro, no cotidiano nu e cru da vida.

Voltando à história do amigo do meu avô, penso que jamais deveria ser um diamante a peça oferecida em um noivado, mas uma pérola. Diamantes são rígidos, estáveis, são arrancados brutos da natureza, precisam ser lapidados para brilhar. Duram uma infinidade, puro carbono. Já a pérola, não! Nasce pronta, será sempre daquele jeito, não tem como modificar seu formato, pois depende da ostra que a engendrou para ter suas características. E, ao contrário das demais gemas preciosas, pode morrer se não tiver os devidos cuidados, devido à sua composição química não uniforme. É o símbolo da fecundidade. Muitos casais se estabelecem almejando a pérola, mas não se dão conta de que a ostra precisa ser provocada para oferecer o seu melhor.

Escuto diariamente as pessoas com dificuldades emocionais dizerem: “mas por que não me avisaram que seria assim?”. Desculpe, mas não há uma regra universal capaz de determinar as vivências humanas, e o que funciona para um casal não funcionará para o outro. Há dois termos muito utilizados nesse período da vida dos quais deveríamos dar risadas. Um, o “felizes para sempre!”. Afinal, ninguém é feliz o tempo todo, e para sempre é muito tempo. A felicidade é um estado fugaz, e só é usufruída quando entendemos que a vida é cíclica. Assim como as estações, não é possível colher as flores na primavera, se não aguardamos pacientemente a latência do inverno. E “enfim, sós”, outro engodo. Será trazida muita gente oculta para dentro da nova casa, e o casal levará um tempo para ver que esses inquilinos não pagam o aluguel. Eu tenho certeza de que você chegou até aqui na leitura ansiando por algo que respondesse ao título que engenhosamente propus – “quando ela vai falar sobre fidelidade?”. Inspirada no sábio pescador das histórias da minhas infância, respondo: num casamento só se é fiel ou infiel a si mesmo.

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