O anúncio feito na última semana pela ArcelorMittal Tubarão de desligamento do alto-forno 3 da unidade capixaba, como consequência da pandemia do coronavírus, já começa a trazer reflexos em áreas que, em princípio, parecem não ter a menor conexão.
A redução da produção de aço vai impactar o preço de alimentos no Espírito Santo, especialmente de dois que formam a refeição mais tradicional do brasileiro: o feijão com arroz. Por mais inusitada que possa parecer essa relação, ela existe, e mostra como as cadeias produtivas do país estão interligadas.
O presidente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), João Falqueto, afirmou à coluna que alguns produtos já indicam que sofrerão reajustes nos próximos dias. O motivo? A redução do volume de aço transportado para o Sul do país. Segundo ele, com a menor movimentação dessa carga, o custo do frete dos alimentos tende a crescer.
“Carretas que vinham do Sul brasileiro com itens como feijão e principalmente o arroz chegavam aqui no Estado e descarregavam esses alimentos. Essas mesmas carretas levavam para o Sul o material produzido pela Arcelor. Então, havia carga nos dois fluxos. Agora, como não tem o mesmo volume de aço para retornar para o Sul, os transportadores estão deixando de vir para cá ou então estão cobrando frete de ida e volta, e isso ajuda a formar um preço mais alto do arroz e do feijão, por exemplo. Ou você paga o frete cheio ou não tem mercadoria. Para as lojas ficarem abastecidas, está se contratando um frete de ida e volta em virtude de não haver o retorno das lâminas de aço da siderurgia capixaba”, justificou Falqueto.
De acordo com ele, o aumento dos preços nas prateleiras para o consumidor vai variar conforme o produto e a distância do frete, mas há casos em que o representante da Acaps estima uma alta de até 30%. "Quanto menor o valor agregado do produto, mais o frete vai impactar. Por isso, acredito que alguns alimentos possam aumentar de 20% a 30%."
Falqueto pondera ainda que a alta dos preços já deve começar a ser sentida em breve, mas ele observa que o repasse para o consumidor vai ser diferente de acordo com o perfil do negócio. "Os mercados que têm capacidade de estocar tendem a demorar mais a reajustar preços. Enquanto aqueles que compram para atender a demanda diária podem ficar mais expostos a essa oscilação imediata dos preços."
O diretor do Carone, William Carone Junior, reforça que os custos com o transporte das mercadorias devem crescer em função da redução do chamado frete de retorno. E acrescenta que, pelo fato de muitos profissionais que atuam na estrada fazerem parte do grupo de risco, eles têm preferido pegar trabalhos com distâncias menores. "Isso reduz a quantidade de caminhões circulando. Aí, o custo do frete aumenta e, inevitavelmente, aumenta também o custo da mercadoria."
PREÇO DO AÇÚCAR TAMBÉM PODE AUMENTAR
Não é só o arroz e o feijão que estão sofrendo o baque que a pandemia do coronavírus está produzindo na integração logística do país, outro item que pode ficar mais caro nas prateleiras dos supermercados por conta da elevação do frete é o açúcar.
Ainda de acordo com João Falqueto, presidente da Acaps, embora o Estado tenha fábricas do produto, elas não têm sido suficientes para atender a demanda. Dessa forma, o açúcar consumido no Espírito Santo vem também de São Paulo, Minas Gerais e de cidades do Sul do país.
No caso do açúcar, o frete de ida e volta se dá em parceria com o setor de rochas ornamentais. Acontece, que a redução da demanda por mármore e granito tende também a impactar o fluxo desse alimento.
“Toda a logística do país é muito integrada e, neste momento, a gente vai descobrindo como ela pode nos impactar se algo nesse fluxo for interrompido. O que depender dos supermercadistas, vamos fazer. No momento, é garantir o abastecimento. Mas estamos tendo que contratar com um frete mais caro e, infelizmente, isso acaba por impactar no preço final para o consumidor”, comentou Falqueto.