A crise que estamos enfrentando e vamos enfrentar de forma ainda mais aguda nas próximas semanas é tão profunda que depositar todas as fichas no poder público, como o único responsável por apresentar as soluções para o combate ao coronavírus, é um erro.
Saídas para reduzir o número de mortes e minimizar o colapso no sistema de saúde, bem como iniciativas que interrompam a derrocada da economia não devem ser jogadas exclusivamente sobre o colo dos governos federal, estaduais e municipais. É preciso haver um envolvimento conjunto entre iniciativa pública e privada.
Compartilhar responsabilidades não significa eximir autoridades dos seus compromissos com a população. O presidente e sua equipe devem coordenar os esforços contra essa pandemia. Devem ser capazes de dar as orientações corretas e embasadas no conhecimento médico e científico para evitar a exposição de vidas à Covid-19. Devem reforçar os investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Devem lançar mão de recursos que protejam os trabalhadores formais e informais e que amparem as empresas, principalmente as micro, pequenas e médias. E, sobretudo, devem ser ágeis na realização dessas e de tantas outras medidas.
Aos governadores e prefeitos também cabem empenho massivo e urgente para assistir suas populações. Reforço aqui o que já escrevi em outras colunas: a assistência tem que ser prioritariamente aos mais pobres, aos mais vulneráveis.
No Espírito Santo, mais de 825 mil pessoas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, cerca de 20% da população capixaba vivem, ou melhor, sobrevivem, com até R$ 409 por mês, de acordo com dados do IBGE.
Imagine o quanto esse número pode ser ampliado com a crise que atravessamos. Por isso, os governos têm que traçar ações com responsabilidade e executá-las de forma assertiva.
Eles, entretanto, não podem ser o único bote “salva-vidas” para este momento de maremoto. A sociedade deve arregaçar as mangas e ajudar a remar. Existem muitos meios para isso, como o próprio compromisso de cada cidadão de permanecer em isolamento e evitar a disseminação da Covid-19.
Mas hoje quero jogar luz sobre o envolvimento das empresas, especialmente das de grande porte, que são as que têm maior capacidade de organização e caixa.
É imprescindível que companhias tomem para si essa briga contra o coronavírus. A atitude proativa de grandes corporações pode ser decisiva na redução do número de mortos e na recuperação da economia.
REAÇÃO
No primeiro momento, muitos grupos organizados e empresas Brasil afora reagiram de forma intempestiva sobre a doença que se apresentava e os impactos que viriam à reboque. Atônito é uma das palavras que descrevia bem o sentimento que se instaurou no meio corporativo logo que o vírus começou a se espalhar pelo Brasil.
Muitas das fontes com as quais converso rotineiramente relataram que nunca sentiram tamanha insegurança para avaliar qualquer cenário. “É como se não tivesse luz no fim do túnel”, desabafou uma delas.
O susto trouxe uma reação que a primeira vista teve um quê de egoísmo. Organizações passaram a fazer listas e listas de reivindicações, pleitos sem fim para proteger seus negócios. Legítimo? Sem dúvidas. Mas ao bater na porta do Palácio do Planalto com extensa lista de pedidos, e sabendo a força que têm junto às instâncias de poder, muitas empresas e entidades atrapalharam o governo a enxergar quais deveriam ser as prioridades.
Não à toa, uma das primeiras ações anunciadas pela equipe de Jair Bolsonaro foi uma medida provisória que autorizava empresas a suspenderem o contrato de trabalho por quatro meses sem o pagamento de salários.
A iniciativa repercutiu muito mal e o presidente voltou atrás. Depois disso, optou por uma medida que olha para o empresário, mas não desampara por completo o trabalhador, como a que permite a redução do salário pela empresa, mas o governo se compromete a transferir renda para o profissional, desde que o seu emprego seja mantido.
CAIU A FICHA
Passados alguns dias do primeiro baque e de ações públicas que em pouco ou nada eram favoráveis a quem mais precisa, é como se tivesse caído a ficha de diversas corporações. Muitas perceberam que compartilhar recursos, contatos, expertise, mão de obra qualificada ou tecnologia era também uma forma de ajudar o país a sair mais rápido desta crise, que já é considerada a mais desafiadora desde a Segunda Guerra Mundial.
Movimentos que foram vistos primeiro em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde estão concentrados o maior número de casos do coronavírus, também passaram a fazer parte da agenda do setor produtivo capixaba.
Nesta semana, empresas que atuam no Espírito Santo anunciaram a adaptação de linhas produtivas para atender a demanda de equipamentos hospitalares, que estão em falta na rede de saúde. Empresários do setor de confecção passaram a fazer máscaras e doar para profissionais informais ou pessoas que utilizam o transporte público. Companhias compraram kits de higiene para distribuir entre famílias mais carentes. Outras doaram dinheiro para o governo estadual ou entidades de assistência social. Além de empresas que optaram pela doação de kits para testes que ajudem a diagnosticar a Covid-19.
Uma grande rede colaborativa foi criada em pouco tempo e já começa a trazer resultados importantíssimos para a sociedade. Esse tipo de iniciativa deve ser valorizada. Aliás, mais do que isso, ela precisa ser ampliada. Quanto mais formos capazes de enxergar além dos nossos interesses, mais rápido vamos nos recuperar. Se em um primeiro momento, algumas empresas só olharam para o próprio umbigo, agora, há quem dê uma aula de que a solidariedade além do efeito humanitário, terá um grande efeito para a recuperação da economia.