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Passado superado

Após sofrer com corrupção e deixar o ES, Xerox quer voltar ao Estado

A companhia americana encerrou as atividades da sua fábrica no Espírito Santo há quase 20 anos, quando foi pressionada a pagar propina. Agora, estuda voltar a operar no Estado

Publicado em 24 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 out 2020 às 05:00
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

Campus de engenharia e fabricação da Xerox nos Estados Unidos
Campus de engenharia e fabricação da Xerox nos Estados Unidos Crédito: Cortesia da Xerox Corporation
Quase 20 anos depois de deixar o Espírito Santo, a empresa americana Xerox se prepara para voltar ao Estado. A vinda de um novo negócio já seria por si só interessante do ponto de vista econômico, mas, no caso da companhia, esse retorno mostra-se ainda mais relevante e repleto de simbolismo.
Depois de operar no Estado por 13 anos, com uma fábrica de tecnologia de acabamento para copiadores de alto volume de impressão, a americana decidiu encerrar suas atividades em virtude do cenário de alta corrupção enfrentado por aqui à época, quando o Espírito Santo ficou nacionalmente conhecido como “o Estado sem lei”.
Em um dos episódios mais emblemáticos da história recente capixaba, o então presidente da Xerox no Brasil, Guilherme Bettencourt, fez uma carta aberta expondo o assédio que a empresa vinha sofrendo de lobistas interessados no pagamento de propina como condição à liberação de financiamentos do Fundap.
“Gerentes e diretores da empresa tinham que conviver com o constrangimento provocado por pessoas sem qualquer escrúpulo que ofereciam seus préstimos e a sua intermediação onerosa para liberar os financiamentos retidos”, disse, na ocasião, o executivo.
O que foi um dos momentos mais sombrios da trajetória capixaba, com empresas sendo achacadas, um ambiente repleto de violência, insegurança, corrupção e impunidade, ficou para trás. Desde que houve uma forte mobilização de segmentos da sociedade civil organizada em conjunto com novas lideranças políticas, do início dos anos 2000 para cá, o Estado conseguiu reverter o ambiente hostil. O retorno da Xerox é um sinal consistente disso.
Matéria do Jornal A Gazeta, veiculada em 5 de abril de 2001, quando mostrou a denúncia feita pela Xerox de cobrança de propina
Matéria veiculada em 5 de abril de 2001 pelo Jornal A Gazeta, que revelou a denúncia feita pela Xerox de cobrança de propina no Estado Crédito: A Gazeta/Reprodução
Por enquanto, não há muitos detalhes sobre com que tipo de operação a multinacional retorna a terras capixabas e quando isso vai se efetivar. Mas pelo o que a coluna apurou, pelo menos neste primeiro momento, não será com a instalação de uma fábrica. Entre as possibilidades está a de o Espírito Santo ser uma base para a empresa do ponto de vista logístico e de importação, por exemplo.
Procurada, a Xerox confirmou que avalia retomar uma operação no Estado, mas ponderou que o estudo ainda não foi concluído. O governo capixaba também não se pronunciou sobre o assunto.
Independentemente da conclusão que a empresa chegue sobre o investimento que pode vir a fazer, o fato de ela enxergar o Espírito Santo novamente como um local seguro para realizar negócios demostra uma virada de página para os capixabas.
Para o presidente do Espírito Santo em Ação - uma das entidades que participou ativamente desse movimento de reconstrução -, Fábio Brasileiro, a notícia indica que o Estado propicia hoje condições favoráveis ao investidor.
"Depois de tudo o que aconteceu e considerando que a Xerox tem na sua estrutura uma análise de compliance profunda, esse sinal de retorno demonstra que temos um bom ambiente de negócios, competitivo e que oferece segurança jurídica, além de instituições organizadas e Poderes equilibrados"
Fábio Brasileiro - Presidente do ES em Ação
O advogado, mestre em Direito e presidente da Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem da Cindes/Findes, Luiz Cláudio Allemand, avalia que a volta da Xerox demostra que o Estado superou seu passado político. Mas pondera que a estabilidade institucional não é o único fator a garantir o interesse e a permanência de uma empresa em determinada região.
“É essencial que o Estado tome isso como marco e procure resolver gargalos ainda existentes e garantir condições, dentro da lei, para atrair cada vez mais investidores e empregar os filhos da nossa terra”, pontuou ao lembrar que, apesar da boa notícia com a Xerox, recentemente o Espírito Santo teve baixas nas operações da Tangará Foods e da TechnipFMC.

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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