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Sextas Crônicas

Com sorte, seremos velhos um dia

Com sorte, já idosos, teremos muito a revelar. Seremos um mundo de possibilidades, cheios de sabedoria esculpida na pele que só se revela quando é tocada. Com extrema sorte, seremos apreciados como obra de arte, não como objeto útil ou inútil

Publicado em 19 de Setembro de 2025 às 04:30

Públicado em 

19 set 2025 às 04:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Com sorte, seremos velhos. Não como em uma noite sombria que se arrasta, mas como um dia claro, que nasce e renasce, que ilumina as histórias contadas em cada ruga traçada nos nossos rostos. Histórias curtas, engraçadas, tristes, interrompidas ou prolongadas. A vida escreve em nós. Anota versos e prosas, ensaios e haicais. Nosso corpo é simultaneamente autoajuda e sofisticação literária. Seu estilo predileto é a sobrevivência. Não tem rascunho, tem edição, mas é diariamente impresso.
Com muita sorte, seremos idosos com o coração quentinho pelo calor da família, dos amigos, de todos aqueles que sabem que o outro nome do amor é cuidado. Nossos olhos, já miúdos, se iluminarão com esse caleidoscópio, em que cada peça é um fragmento de nós.
À mesa, pratos e histórias. Fartura que alimenta a alma. Assim, com sorte, ainda dançaremos com os netos na sala, sem ossos quebrados. Nadaremos em águas tranquilas, certos de salva-vidas no entorno. Com sorte, seremos velhos sem medo, sem pupilas foscas de pavor. Com muita sorte, seremos ouvidos. Porque ouvir também é um dos nomes do amor.
Com sorte, já idosos, teremos muito a revelar. Seremos um mundo de possibilidades, cheios de sabedoria esculpida na pele que só se revela quando é tocada. Com extrema sorte, seremos apreciados como obra de arte, não como objeto útil ou inútil.
Com sorte, seremos velhos, com mapas impressos na pele. Cheios de vida percorrida. Deixaremos risadas como herança. Caminhos abertos e boas lembranças. Teremos dito muito sobre o amor. Não sonegaremos informações, não disfarçaremos. Entregaremos, com orgulho, nosso roteiro de todos os amores feitos. Nossos abraços e mãos entrelaçadas continuarão a inspirar depois de nós. Com muita sorte, seremos refúgio de gerações. Bons ouvintes, bons de prosa e com bons dentes.
Com sorte, seremos velhos guiados pelo falatório das crianças nos nossos dias de nevoeiro. Com muita sorte, teremos um lar onde podemos andar seguros. Paredes conhecidas e cheiro de bolo recém-saído do forno. Uma casa ventilada pelas janelas abertas para o mundo.
Idoso
Compaheirismo na velhice Crédito: Pixabay
Com muita sorte, alguém, que cuida porque ama, vai nos contar histórias que nos acalmam e divertem. Alguém vai trazer versos que curam. Cantarolar músicas antigas. Com mais sorte ainda, pessoas e passarinhos gostarão de ouvir nossas histórias. A sorte gosta de muitos passarinhos no quintal. Flores e beija-flores também não podem faltar.
Com muita sorte, seremos velhos que amam os passarinhos, como os bebês amam. Com mais sorte ainda, eles ajudarão a preservar boas memórias e impedirão que nossos sonhos se desbotem.
Com sorte, que também podemos chamar de escolhas, seremos muito amigos da saúde, essa amiga volúvel, que quer protagonismo na edição diária da vida que imprimimos. Com mais sorte ainda, seremos um livro gostoso de ler, profundo e transformador, como é o amor. Um livro com muitas páginas e nenhuma delas em branco.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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