Se a vida é um rio, como diz a escritora Carla Madeira, as margens podem ser consideradas a infância e a velhice. Entre elas, estamos nós, os adultos. Mesmo aqueles que voltaram a usar chupetas sabem que essa fase está eticamente ligada à proteção das margens desse rio. Aliás, adulto voltando a usar chupeta é de um simbolismo que fala por si. Não é fácil ser o adulto na sala, quando o mundo parece ter sido invadido por birrentos sem noção, espalhando suas insanidades de poder delirante.
Toda força que insurge contra um vulnerável é brutal. Todo indefeso tem direito à defesa. Comecei a escrever esta crônica pensando na coragem do humorista e youtuber Felca, que, correndo todos os riscos, usou sua voz que chega fácil aos seus milhões de seguidores para jogar luz na adultização de crianças e a enormidade de infâncias roubadas pela força do dinheiro podre e foi impossível não desdobrar o tema para outras naturezas de fragilidade.
Está em condição de vulnerabilidade todo aquele que não tem meios de defesa física, financeira, emocional ou moral. Isso inclui, desde uma calúnia, um abuso da boa-fé até um ato de violência física. Falar sobre vulnerabilidades reais em período de irrelevância retórica é um risco. Quem mete a mão em um vespeiro desta magnitude merece respeito.
Vou reproduzir aqui duas falas do Felca que me impressionaram. A primeira é “Internet não é lugar para crianças”. É isso e ponto final. Seus filhos podem não gostar, mas quando adultos te agradecerão. Falo por experiência própria. A outra fala é: “Se você é capaz de causar impacto no mundo, que seja positivo”. Em meio à profusão de iniciativas bilionárias que adoecem as pessoas, ter essa integridade entre discurso e atitude é a maior entrega de valor que um influenciador pode fazer.
Da outra margem da infância está a velhice. Torço para que, neste momento, algum grande influenciador esteja disposto a falar da fragilidade dos idosos. Afinal, são eles os pauteiros dos poderes. Não é um assunto fácil. Talvez não resulte em leis quase imediatamente. Idosos não votam. O idoso já não é convocado a falar, e quando fala, não é ouvido. Relegar o sujeito à condição de resto é uma violência tão corrosiva quanto o abuso infantil.
Sempre que volto de uma visita à casa da minha mãe, que mora em outro estado, prometo a mim mesma que farei algo que contribua para diminuir a exclusão social dos idosos. Depois, entro no fluxo do meu rio, nem sempre manso, e esqueço.
Ando muito impaciente com tudo que me rouba o foco. Com as devidas desculpas ao poeta Leminski, não acho que distraídos venceremos em casos de questões sociais graves. Elencar nossas urgências e colocar energia no que realmente nos importa é um ato de autocuidado. De que vale ser meio se a mensagem não gera nenhuma mudança positiva?
Nascemos frágeis e, se dermos a sorte de envelhecer, morreremos frágeis também. Ambas as margens, cada uma à sua maneira, exigem um ato ético de cuidar do outro. É preciso indignar-se perante a normalização de situações abusivas e romper com a inércia. Quem cuida do frágil está, no fundo, cuidando de si mesmo.