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Avanço

Limites da ciência focada na doença

As incertezas com relação a prazos em que a vacina poderá ser utilizada no combate ao coronavírus, e até mesmo à sua efetividade, indicam que a estratégia de produzir conhecimento voltado para a doença precisa ser vista de forma crítica

Publicado em 10 de Setembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

10 set 2020 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Covid: tratamentos avançam e expectativa é de vacina para janeiro
Produção de vacina contra a Covid-19 é uma desafio da ciência Crédito: Thisisengineering/Unsplash/Arte: Geraldo Neto
Dentre inúmeros aspectos da vida social, econômica e política, a pandemia provocada pela Covid-19 também abre oportunidades para um olhar mais crítico com relação à busca de conhecimento sistematizado focada na doença. Doença no sentido do tratamento de humanos, do meio ambiente e também no que diz respeito ao tecido social, cultural e econômico.
As incertezas com relação a prazos em que a vacina poderá ser utilizada no combate ao coronavírus, e até mesmo à sua efetividade, indicam que a estratégia de produzir conhecimento voltado para a doença precisa ser vista de forma mais crítica do que deseja o saber estabelecido e os interesses financeiros e políticos que os sustentam e são por ele sustentados. A maneira como novas doenças surgem a partir da produção voltada para o lucro mais imediato possível precisa ser pautada com maior frequência tanto pelos meios de comunicação social como pela academia.
Sabe-se, por exemplo, que durante muito tempo os efeitos nocivos do tabaco sobre a saúde humana eram conhecidos por cientistas, mas o debate sobre esses efeitos demorou uma década para vir a público e resultar em ação política para enfrentá-los. Há décadas, estudos científicos indicam os efeitos perniciosos da exploração de gás e petróleo sobre a saúde do planeta e de todos seres viventes que o habitam - inclusive humanos.
Apesar dessas indicações até o presente, os processos de acumulação financeira que derivam dessa exploração impossibilitam ações mais efetivas de enfrentamento dos interesses de alguns poucos em detrimento da qualidade de vida da maioria.
O que cínicos apontam é que efeitos sabidamente nocivos de avanços científicos e tecnológicos podem ser combatidos com novos avanços nessas áreas do conhecimento humano. Ou seja, doenças causadas pelo uso intensivo de pesticidas e adubos químicos na produção de alimentos sob a ótica do agronegócio podem ser tratados com medicamentos e procedimentos médicos que resultam da busca sistematizada com esse objetivo.
Do ponto de vista dos ganhos financeiros das grandes corporações de capital improdutivo, o círculo vicioso concentração/escala da produção - efeitos negativos sobre a vida humana - busca de novos tratamentos para as doenças derivadas, é sempre rentável e tentador.
Círculos viciosos se repetem em outras esferas que vão desde o tratamento de doenças provocadas por medicamentos quanto àquelas que derivam cada vez mais do processo civilizatório em vigor que desconsidera valores humanos, sociais e culturais. Em nome dos interesses de poucos, o luto se transformou em doença e, por isso, passível de tratamento com remédios; e a eles também é atribuída a função de resolver os desgastes físicos e mentais provocados por processos de trabalho e por padrões de consumo objetiva ou subjetivamente impostos como os que devem ser buscados por quem quiser alcançar sucesso na vida, seja isso lá o que for.
Círculo vicioso no campo das doenças sociais, dentre as quais das mais gritantes está a exclusão da maioria da população do mundo, do Brasil, do Espírito Santo e de cada uma de suas cidades. Exclusão que se repete de geração em geração; filho de pobre, pobre será. Excluídos intergeracionais de direitos básicos da vida - alimentação saudável; saúde; educação; moradia; saneamento; cultura; lazer, dentre outros.
Doenças sociais que são perpetuadas pelo entendimento de financistas que querem o estudo da economia como uma ciência exata fundamentada em dogmas, dentre os quais se destacam o da liberdade de mercado; o de que o ser humano e a natureza devem ser tratados como recursos a serem explorados conforme a vontade do lucro rápido e da acumulação de riquezas nas mãos de poucos.
Os resultados desses e de outros círculos viciosos que se aprofundaram nos últimos três séculos podem ser sentidos de forma mais aguda nesses tempos de pandemia. Seja na atitude omissa de governantes; seja no comportamento egoísta de pessoas e grupos sociais cujo centro do mundo são seus próprios umbigos. Atitude e comportamento alimentados por uma ideologia que coloca o eu acima de qualquer outro valor.
Egoísmo exacerbado que precisa ser questionado sempre e cujo debate precisa ser priorizado em qualquer tentativa de construção de um novo normal onde a vida seja o principal foco de todo conhecimento buscado por qualquer sociedade que se deseja civilizada.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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