Chego ao fim do ano mais ou menos como comecei: escrevendo a respeito das vantagens de ouvir outras vozes, buscar soluções em lugares tradicionalmente colocados à margem, entender outras culturas, estreitar o diálogo com o que sempre nos pareceu estranho ou distante. Mas, 50 textos, 358 dias e uma pandemia depois da primeira coluna de 2020, pouca coisa além disso continua igual por aqui.
2020 foi um ano em que tivemos de manter distância. Sobrevivi bem ao home office, disciplinadamente. Reduzi drasticamente os encontros, abortei a maioria dos bares, suspendi as viagens, cancelei as madrugadas. Velei de longe os que partiram, encerrando ciclos de forma repentina e desavisada ou de algum modo anunciado.
Fui um bocado resiliente, para usar a palavra da moda. Aceitei as perdas, as más notícias, os empates, as derrotas e as expectativas desfeitas, como os corpos que a Física mostrou serem capazes de retornar ao seu estado normal depois tensionados.
Confesso, no entanto, que ainda não aprendi a evitar os abraços, mesmo depois de quase 10 meses de um intenso treinamento à base de ficar em casa e dar oi com o cotovelo.
No meio deste montão de gente que é o mundo, o mar de fogueirinhas de que Eduardo Galeano nos falava exatamente no "Livro dos Abraços", fomos instados a estar a pelo menos dois metros de distância uns dos outros - fogueiras grandes, pequenas, de todas as cores, de fogo sereno, de fogo louco ou então fogo bobo, que não alumia nem queima, enquanto outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar.
2020 foi um ano marcado pelo imponderável. Ainda assim, sobrevivemos às incertezas do mercado de trabalho, aos absurdos da política, ao pouco caso de certas autoridades, ao horror dos números que nos contam 185 mil mortos no Brasil e mais de 1 milhão e meio no mundo, como se morrer fosse tão corriqueiro quanto estar vivo.
A verdade é que pouca coisa foi fácil no ano que termino mais ou menos como comecei, com exceção de quase tudo. Cinquenta textos, 358 dias e uma pandemia depois da primeira coluna de 2020, é nisto que ainda acredito: nas vantagens de ouvir outras vozes, buscar soluções em lugares colocados à margem, entender outras culturas, estreitar o diálogo com o que sempre nos pareceu estranho ou distante.