Escrevo, atrasada e afoita, no dia em que se comemora o centenário de Clarice Lispector e pouco depois de retomar a leitura de “Todas as Cartas”, a preciosa reunião em livro da correspondência dela. Um volume feito de 859 páginas e muitas maravilhas em forma de cartas, que ela mandou para amores, amigos, um ou outro detrator, ao longo de 37 anos.
Clarice não era exatamente uma pessoa doce, nem a leveza era o seu forte - isso não é segredo. Mesmo assim, suas cartas quase sempre tratavam do prosaico da vida: o sono de trocar o dia pela noite, o encontro com amigos, o choro dos filhos, jantares dados, filmes vistos, livros lidos, a saudade, o amor, a melancolia, a palavra protótipo...
“Todas as Cartas” não é a primeira seleção das correspondências da escritora, mas é certamente a mais robusta - embora as “Cartas Perto do Coração”, com o registro das conversas entre ela e Fernando Sabino tenha ainda um lugar cativo no meu pódio particular.
Muitas das correspondências são inéditas. Parei especialmente numa delas, de Clarice para Rubem Braga, nosso cronista maior, mestre imbatível no suave exercício sobre o tempo, as boas histórias e a delicadeza das coisas simples. A carta reafirma o afeto e a intimidade entre dois grandes amigos, que pareciam ter não apenas a escrita em comum, mas também vazios e uma pequena, mas constante, tristeza de ser.
Rubem vivia no Rio de Janeiro, Rua Prudente de Moraes, número 599, apartamento 501. Clarice, em Washington, “uma cidade tão larga, de ruas tão abertas, que dava a impressão de falta do que fazer”. Eram amigos desde a Segunda Guerra, quando ele atuava como jornalista na Itália e ela acompanhava o marido diplomata que trabalhava no país.
Na carta datada de 21 de abril de 1953, uma terça-feira, Clarice responde a uma conversa enviada por um Rubem “meio desempregado, crivado de dívidas e cansado de um verão de praia, uísque e amores levianos”.
“Nosso Comício morreu assim que Thereza Quadros partiu”, Rubem escreve, a respeito do semanário que ele havia criado e para o qual Clarice escrevia uma coluna feminina, assinando como Thereza Quadros. “Sem a influição sutil de sua presença na cidade, o pobre jornalzinho se foi. Não o choremos, que morreu como nasceu, muito vivo, desleixado, alegre, às vezes malcriado, no fundo talvez sério, em todo caso sempre livre.”
Clarice devolve com saudades do Rio, “um dos poucos lugares do mundo onde é bom estar meio desempregado”. Diz que, apesar de ocupadíssima, também se sente meio desempregada. Conta das peripécias dos filhos, do encontro com amigos em comum e de um ou outro desencontro. Pede que Rubem envie o que tem escrito para o “Correio da Manhã”. Confessa que tem lido pouco, mas que as coisas vão melhorar. E crava, bem ao seu modo, que “no mais, tudo igual”.