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Mulheres invisíveis

“A Vida Invisível” é de partir o coração. Há mulheres que apenas ficam

A história podia ser hoje, na noite passada ou agorinha, enquanto o isolamento social exigido pela pandemia amplia os registros de violência contra a mulher, as separações e as diferenças entre ricos e pobres

Publicado em 31 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

31 mai 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Cena do filme
Cena do filme "A Vida Invisível" Crédito: Divulgação
Por diversas razões, “A Vida Invisível” é um filme de partir o coração. Porque duas irmãs se perdem de vista, separadas pelas circunstâncias da vida e pelo machismo da família. Porque ambas são silenciadas em seus maiores desejos. Porque determinados acordos escondem um doloroso e desigual domínio de uma parte sobre a outra. Porque, como Guida e Eurídice Gusmão, há muitas mulheres que apenas ficam.
A história se passa na década de 1950, mas podia ser hoje, na noite passada ou agorinha mesmo, enquanto o isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus amplia os registros de violência contra a mulher, as separações e as diferenças entre ricos e pobres.
Filhas de um conservador casal português, Guida e Eurídice Gusmão são como água e vinho. Eurídice é uma jovem tímida, realista e retraída que deseja ser pianista profissional. Guida é expansiva, sonhadora e extrovertida, e tem como meta encontrar um amor de verdade e, no caminho, se divertir um pouco.
A ingenuidade delicada da dupla contrasta com a rispidez do pai, com a omissão da mãe e com o destino que as espera. Guida foge com um marinheiro grego, viaja, casa, separa e engravida, nesta ordem. Expulsa de casa por causa da gravidez sem marido, enfrenta a dura realidade da vida operária para criar o filho.
Sua invisibilidade vem da condição de mulher social e economicamente vulnerável. A de Eurídice está dentro de casa, no marido aparentemente cortez que personifica a violência sexual e psicológica vista como normal em muitas famílias, especialmente naquela época, mas ainda hoje.
Uma ou outra delicadeza se impõem no duro cotidiano das irmãs: a música, a amizade como espaço de resistência e transformação, as cartas que Guida destina a Eurídice sem saber se realmente foram entregues.
Ao narrar a história de duas irmãs silenciadas pelo patriarcado e pela opressão social, em uma longa caminhada interior que elas percorrem sempre no mesmo lugar, o filme de Karim Ainouz homenageia, de algum modo, todas as mulheres invisíveis do mundo.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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