Vi a dor da avó, a indignação da mãe, a consternação do pai, o coração partido do namorado resumido num retrato em branco e preto tão triste quanto a canção.
Acompanhei a bola fora da marca famosa para quem a jovem trabalhava, o pedido de desculpas, a reação dos famosos. Ouvi a mesma justificativa de sempre por parte das autoridades que deviam zelar pela segurança de todos, mas em um milhão de vezes atiram primeiro e perguntam depois.
Li análises, constatações e desabafos. Perdi o sono com as lágrimas da comentarista diante da notícia. Contabilizei o significado dos números, que são de arrepiar: oito em cada dez mortos pela polícia no
Brasil são negros como Kathlen e, ao que tudo indica, o bebê de 14 semanas que ela esperava.
Refleti sobre o peso da ideia de que vidas negras importam, uma frase tão óbvia que fica difícil acreditar que haja ainda tanto sangue em suas linhas e entrelinhas.
Num país escrito com as tintas da escravidão, o racismo opera diariamente, não apenas no olhar e nas práticas de gente comum, mas no olhar e nas práticas do mercado, da polícia, do sistema de saúde e da Justiça.
Está na Constituição, mas é como se não estivesse: cabe ao Estado assegurar os direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores de uma sociedade pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias.
Para uma enorme parcela da sociedade, as garantias são como a banda daquele filme enigmático: no hay. Garantias não existem, como também não existem a segurança, o bem-estar, a igualdade, a justiça, a harmonia social e a solução pacífica das controvérsias.
Não é coincidência que quase todos os personagens deste gigantesco pedaço da população tenham a pele da mesma cor.
Mas que ninguém se engane. As mortes de Kathlen e seu bebê têm o carimbo da nossa tolerância, no pior dos sentidos. Toleramos a violência desde que ela se registre longe de nós. Toleramos o preconceito e o jeito de fazer
segurança pública que nunca vimos surtir efeito. Toleramos o intolerável, perpetuando o racismo com nossas ações ou simplesmente com o nosso silêncio.