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Violência

Mortes de Kathlen e seu bebê têm o carimbo do nosso silêncio

Toleramos a violência desde que ela se registre longe de nós. Toleramos o preconceito e o jeito de fazer segurança pública que nunca vimos surtir efeito

Publicado em 13 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 jun 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Kathlen Romeu, grávida negra que morreu com tiro no Rio de Janeiro
Kathlen Romeu, de 24 anos, foi baleada, grávida, numa operação da polícia do Rio de Janeiro Crédito: Rogério Jorge / Reprodução Instagram
Como muitos brasileiros, assisti com tristeza à morte de Kathlen de Oliveira Romeu, a vendedora de 24 anos baleada, grávida, numa operação da polícia do Rio de Janeiro.
Vi a dor da avó, a indignação da mãe, a consternação do pai, o coração partido do namorado resumido num retrato em branco e preto tão triste quanto a canção.
Acompanhei a bola fora da marca famosa para quem a jovem trabalhava, o pedido de desculpas, a reação dos famosos. Ouvi a mesma justificativa de sempre por parte das autoridades que deviam zelar pela segurança de todos, mas em um milhão de vezes atiram primeiro e perguntam depois.
Li análises, constatações e desabafos. Perdi o sono com as lágrimas da comentarista diante da notícia. Contabilizei o significado dos números, que são de arrepiar: oito em cada dez mortos pela polícia no Brasil são negros como Kathlen e, ao que tudo indica, o bebê de 14 semanas que ela esperava.
Pensei silenciosamente em quando as estatísticas saem do noticiário para se sentar no sofá, bem do nosso lado. Rezei pelos meus, para que tenham uma caminhada longa, pacífica e feliz pela frente.
Refleti sobre o peso da ideia de que vidas negras importam, uma frase tão óbvia que fica difícil acreditar que haja ainda tanto sangue em suas linhas e entrelinhas.
Num país escrito com as tintas da escravidão, o racismo opera diariamente, não apenas no olhar e nas práticas de gente comum, mas no olhar e nas práticas do mercado, da polícia, do sistema de saúde e da Justiça.
Está na Constituição, mas é como se não estivesse: cabe ao Estado assegurar os direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores de uma sociedade pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias.
Para uma enorme parcela da sociedade, as garantias são como a banda daquele filme enigmático: no hay. Garantias não existem, como também não existem a segurança, o bem-estar, a igualdade, a justiça, a harmonia social e a solução pacífica das controvérsias.
Não é coincidência que quase todos os personagens deste gigantesco pedaço da população tenham a pele da mesma cor.
Mas que ninguém se engane. As mortes de Kathlen e seu bebê têm o carimbo da nossa tolerância, no pior dos sentidos. Toleramos a violência desde que ela se registre longe de nós. Toleramos o preconceito e o jeito de fazer segurança pública que nunca vimos surtir efeito. Toleramos o intolerável, perpetuando o racismo com nossas ações ou simplesmente com o nosso silêncio.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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