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Segurança pública

Jacarezinho: em vez de culpados ou heróis, é preciso identificar responsáveis

O comportamento de manada e o treinamento cotidiano em ordem unida fazem com que seja muito mais fácil comandar tropas que indivíduos

Publicado em 30 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 mai 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Operação da Polícia Civil no RJ contra o tráfico de drogas no Jacarezinho
Operação da Polícia Civil no RJ contra o tráfico de drogas no Jacarezinho Crédito: Vanessa Ataliba/Zimel Press/Folhapress
Diante da operação policial mais sangrenta da história do Rio de Janeiro, críticos sustentam que o número de mortos neste mês na favela do Jacarezinho teria sido uma represália pelo policial vitimado logo no início da operação, enquanto os dirigentes da Polícia Civil elogiam o profissionalismo de seus integrantes. Está simplificado demais. Em situações como aquela, o comportamento humano é influenciado por um turbilhão de fatores pouco estudados pela ciência, mas bem conhecidos pelos militares, que os utilizam há milênios.
Na Ofensiva do Somme, entre julho e novembro de 1916, os ingleses tiveram 20 mil mortos logo no primeiro dia. Houve quase um milhão de baixas dos dois lados enquanto a linha de frente avançava ou recuava alguns poucos metros. Tudo isso ocorreu porque os comandantes não adequaram suas táticas ao surgimento da metralhadora.
Mais estranho, porém, que um general ordenar o avanço das tropas contra uma chuva de projéteis é o fato de os subordinados obedecerem ao custo de suas próprias vidas, sem questionar a óbvia inutilidade desse sacrifício.
O comportamento de manada e o treinamento cotidiano em ordem unida fazem com que seja muito mais fácil comandar tropas que indivíduos. Descargas de adrenalina impelem ao ataque. A solidariedade forjada sob fogo torna impossível recuar enquanto seu amigo avança. A visão em túnel permite enxergar apenas o objetivo traçado antes de tudo começar.
Não parar antes de morrer ou esgotar a munição é o natural, especialmente quando se tem uma arma automática ou semiautomática. O ethos guerreiro e os conflitos por prevalência social e territorial não são uma exclusividade masculina ou dos mocinhos. Os dois lados foram tomados por tudo isso quando o primeiro policial tombou.
Talvez a operação tenha vazado, talvez os criminosos estivessem convencidos de que, desta vez, não era apenas a polícia fazendo o seu trabalho. O fato é que não atiraram somente para fugir. Todos esses fatores e seus desdobramentos são conhecidos e previsíveis, devendo ser considerados ao se decidir por uma ação potencialmente conflituosa, porque, uma vez iniciado, o fluxo não pode mais ser detido.
Em outras palavras, em vez de buscar respostas simples e culpados ou heróis, é preciso identificar responsabilidades. A conduta individual dos policiais naquela situação é menos importante que a escolha de quem os colocou ali.
Há anos os governantes do Rio parecem acreditar que a força bruta é a única solução para os problemas que ela mesma criou ao longo de décadas. Consideram que esse é o modo “normal” de reprimir o crime e que os cidadãos que moram nas favelas vão realmente suportar esse preço e ainda colaborar nessa guerra sem propósito.
Não. Não é razoável submeter a população civil a riscos físicos e psicológicos, e os policiais, além desses, a riscos jurídicos, sem um objetivo estratégico claro e alcançável que os justifique. Se continuar por esse caminho, o Rio de Janeiro colherá o que vem plantando.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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