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Melancolia brasileira

Pandemia mina uma mania raiz, tipicamente brasileira: a alegria

Em algum momento, ela vai ressurgir, aqui e ali, para nos ajudar a reconstruir o gosto e a graça, a fé na festa, o hábito de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar apesar das perdas, celebrar o sol e todo o resto

Publicado em 06 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

06 jun 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

sorriso, saúde bucal
O modo brasilis por excelência de rir o quanto possível apesar das ausências Crédito: Shutterstock
Além da tragédia escancarada nos quase 500 mil mortos, na economia em crise e em todo o resto que vocês sabem, há um efeito perverso da pandemia que pouco vemos, mas que não deixa de cobrar seu preço, com juros e correção monetária. A pandemia tem sido certeira na missão de minar uma mania raiz, tipicamente brasileira: a alegria.
A prova dos nove de que falava Oswald de Andrade em sua cruzada por raízes no lugar de âncoras, pontes ao invés de muros. A melhor coisa que existe, como cantou o capitão do mato Vinícius De Moraes, poeta e diplomata, na linha direta de Xangô. O motor da fé segundo o evangelho de Gilberto Passos Gil Moreira. O modo brasilis por excelência de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar quase sempre apesar das perdas, celebrar o sol, a festa, o futebol, o carnaval.
Não falo das pequenas alegrias da vida adulta, como naquele dia em que roubei do rapper o título do texto. Falo do jeito coletivo de sambar, literal ou metaforicamente, na cara dos problemas. Falo deste misto de talento tropical com resiliência, a despeito do que pesa.
Falo do hábito intrinsecamente brasileiro de levar ao pé da letra a canção que diz que quando você para de brincar e mexer o coração, ao invés de bater, padece.
Falo do gosto e da graça retratados na essência do carnaval, no sorrisão escancarado depois do gol, no samba da esquina, na vocação para a diversão que o povo brasileiro tem - ou tinha -, mesmo com agruras, mesmo com ausências, mesmo que com pouco.
Se a alegria é uma forma de resistência, como dizem, ela e a vacina nos salvarão do horror em que estamos metidos. Os desafios são enormes, eu sei: comida para quem tem fome, a exaustão do isolamento, a recuperação da economia, a saudade dos que se foram, o medo de mais mortes, a gente mesmo tentando se proteger sem suspender a vida.
Perdemos gente demais no último ano. Perdemos, gente que nos fazia rir, como Paulo Gustavo, gente que nos fazia flutuar, como Aldir Blanc. Perdemos gente que morreu de outras causas, mas igualmente deixou um buraco no peito que vai saber.
Perdemos gente que fez a estatística sair do noticiário da TV para sentar no sofá, bem do nosso lado.
Sumiu o fôlego, a energia anda em falta. O Brasil não é exatamente o melhor lugar para se estar na pandemia. Mas somos brasileiros. E brasileiro, vocês sabem, não desiste nunca.
Em algum momento, a alegria, essa mania raiz, tipicamente nacional, vai ressurgir, aqui e ali, para nos ajudar a reconstruir o gosto e a graça, a fé na festa, o hábito de rir o quanto possível apesar das ausências, dançar apesar das perdas, celebrar o sol e todo o resto.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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