As notícias sobre o ex-jogador de futebol Adriano Imperador sempre me levam a pensar nas voltas que a vida dá. Foi assim, mais de uma década atrás, quando escrevi sobre ele pela primeira vez, ele e a frase que podia ser minha, sua ou de qualquer pessoa que, por alguma razão e apesar de todas as expectativas ao contrário, decidisse voltar.
- Voltei para casa. Era o que eu precisava.
Foi assim, outra vez, diante da entrevista de televisão em que ele afirma que cometeu um mar de erros, mas que se sente confortável e feliz com suas escolhas. Adriano falava em especial sobre a decisão de deixar a Europa, um salário milionário e um monte de coisas que a gente tende a valorizar, mas, com o tempo, descobre que não valem, de fato, tanta coisa. Falava em especial da escolha de trocar o Velho Mundo pela quebrada onde estavam suas raízes e referências, seus amigos e os dias calmos do passado.
Foi assim, uma vez mais, nesta semana, quando li o longo depoimento que o jogador deu para o Players Tribune, um canal digital que publica relatos pessoais de grandes atletas. Na carta aberta, Adriano diz que tem um buraco no tornozelo e outro na alma. Uma lesão no pé e outra no peito a afastar o sorrisão que nos acostumamos a ver, depois do gol, com todos os dentes do mundo, no rosto meio familiar do molecote da Vila Cruzeiro.
- Sim, talvez eu tenha desistido de milhões. Mas quanto vale a sua paz de espírito? Quanto você pagaria para ter de volta a sua essência?
Separada da primeira frase por 11, 12 anos, a questão que Adriano levanta no depoimento ao Players Tribune também podia ser minha, sua, de qualquer um. Um incômodo é físico. O outro, nem tanto, embora possa chegar a ser. O gosto pela farra virou indisciplina, que alimentou a depressão que desandou para o excesso de álcool que fez a tristeza ficar ainda mais funda, num ciclo tão difícil de interromper por dentro quanto fácil de julgar por fora.
Independentemente do quanto as posturas dele sejam questionáveis ou compreensíveis, tem uma coisa que não dá para negar. Sair da favela para se tornar uma estrela do futebol é o sonho de muitos brasileiros.
O caminho inverso, no entanto, soa incomum e exige doses extras de coragem. Coragem para assumir que perdeu o brilho, que desencontrou da vontade, que sumiu o ar. Coragem para enfrentar julgamentos severos e um mar de críticas que, no caso de uma figura pública como Adriano, logo viram manchete de jornal.
Adriano - Adirano para a avó, Didico para os amigos - pagou um preço alto por escolher um caminho diferente daquele que o senso comum considera bem-sucedido. Dizem que ele desperdiçou um enorme potencial, que poderia ter sido ainda maior do que foi no futebol.
Não sei avaliar. O que sei é que admiro gente que tem coragem de recomeçar, gente que até sucumbe, mas depois dribla e segue, do melhor jeito que dá.