Estes dias tive a alegria de mediar uma roda de leitura do livro “A Hora da Estrela” com estudantes de seus 13, 14 anos, pouco menos do que eu tinha quando li a obra de Clarice Lispector pela primeira vez.
Como as melhores histórias, aquelas que mais tempo sobrevivem ao passar dos anos e às mudanças do caminho, a saga da moça a quem faltava o jeito de se ajeitar costuma nos impactar de formas diferentes em diferentes momentos da vida.
Comigo demorou um pouco para que certas questões ficassem evidentes. Graças aos deuses e deusas, as meninas e meninos de agora entenderam mais rápido o tamanho da desigualdade imposta pelo mundo dos homens a Macabéa, a personagem central do romance, uma mulher, nordestina, migrante, subempregada - carente de tudo.
Macabéa simboliza a invisibilidade, a miséria, a falta de vínculo e perspectiva, a completa ausência de vida ao longo da vida, menos na hora da própria morte. Fala pouco, pensa menos ainda. Suas especialidades são se desculpar por qualquer coisa, se submeter a migalhas, ver as coisas esquecida de si mesma.
Um dos trechos que os estudantes leram é um diálogo entre Macabéa e seu namorado, o insensível e ambicioso Olímpico de Jesus. Num processo crescente de desumanização da protagonista, ele destila pretensão e desprezo, e cada vez mais pretensão e desprezo diante do recolhimento com que ela reage.
Boa parte do grupo desaprovou o modo de Olímpico de Jesus tratar Macabéa, o que não deixa de ser um alento, em meio a tantas más notícias para as mulheres, na rua ou dentro de casa, com mais ou menos requintes de crueldade e hipocrisia.
Mesmo sem saber, os alunos iluminaram o dia, como a cartomante do romance ao antecipar o futuro de glória que Macabéa teria pela frente, garantindo que nem tudo estava perdido. Ao contrário: as esperanças estavam ali, ativas e renovadas.
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