É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

"Hamnet" nos lembra do poder da arte diante das ausências mais sentidas

A morte tem formas distintas de atravessar os que ficam, e há muitas delas no magnífico filme da diretora chinesa Chloé Zhao

Publicado em 22/02/2026 às 03h30

Como administrar a dor de uma partida? Que práticas adotar diante do vazio deixado pela morte dos nossos? Quais hábitos amenizam e quais, ao contrário, amplificam o luto? O que fazer com os não ditos? Quanto de ausência, raiva, resposta malcriada, olhar perdido ou desistência você tem direito quando tudo dói?

A morte tem formas distintas de atravessar os que ficam.

Há muitas delas em “Hamnet”, o magnífico filme da diretora chinesa Chloé Zhao.

Em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, o público é convidado a mergulhar no universo shakespeariano e na dor íntima do luto (Imagem: Reprodução digital | Universal Pictures)
Em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, o público é convidado a mergulhar no universo shakespeariano e na dor íntima do luto . Crédito:  Reprodução digital | Universal Pictures

Na história, a morte do filho pequeno de Agnes Hathaway e William Shakespeare desperta um misto de agonia, culpa, tensão, fraqueza, fúria e distanciamento.

Agnes se ressente do que até então estimulava - a completa dedicação do marido ao teatro e à escrita, a necessidade de estar longe de casa em nome da carreira. Sua força descomunal, atrelada ao amor, às mulheres que vieram antes dela e à ligação com a natureza, se transforma em rancor, daqueles que embaraçam a visão, arrebentam elos antes inabaláveis e botam o fígado no comando.

Shakespeare, por sua vez, se aproxima e se afasta da mulher, mergulhando ainda mais no trabalho. Sua tentativa de organizar o caos e a tristeza passa pela arte, especialmente pela criação de uma obra-prima que sobreviveu aos séculos sem perder a relevância.

Em “A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, escrita entre 1599 e 1601, o fantasma do rei, traído e assassinado pelo próprio irmão, aparece para o filho pedindo que vingue sua morte. Hamlet finge loucura, hesita em agir e mergulha no célebre dilema existencial resumido pela frase “ser ou não ser, eis a questão”, mas acaba atendendo ao pedido do pai.

Com “Hamnet”, vemos a peça por outro ângulo. A história de traição e vingança da família real dinamarquesa se revela uma forma de seu criador expressar o luto. Ao interpretar ele mesmo o papel do fantasma do patriarca assassinado, Shakespeare se despede do filho no palco, por intermédio da palavra.

Alguém disse, com toda razão, que a arte não devolve ninguém, não cura e não explica, mas pode virar permanência, memória e sentido quando a vida desaba. “Hamnet” nos lembra do quanto ela também funciona como um poderoso instrumento de reconexão e reconciliação com os outros e com a gente mesmo, até - ou principalmente - diante das ausências mais sentidas.

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