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Crônica

Festa na Granja e os adeptos da buchada de bode

Com os olhos brilhando e a respiração meio acelerada, ela comeu o tanto que lhe deram para provar, pediu mais, repetiu mais uma vez e arrematou, por gula, uma última porção caprichada. Depois de tudo, tomou um gole de cachaça

Públicado em 

07 mar 2025 às 02:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

No último volume, a velha eletrola se tremia toda. Era dia de festa na granja. O motivo era forte. Não me lembro se aniversário de Iveraldo ou de Iracema.
Manhã de sol quente, não parava de chegar carro lotado de convidados. Como de costume, cada qual trazia alguma coisa de comer ou beber, pra reforçar a fartura.
A família do casal era enorme. Muitos parentes diretos e indiretos, muitos agregados. Tudo gente habituada a frequentar aquele lugar. Iveraldo, o próprio coronel nordestino de fala mansa e sorriso amigo. Iracema, mulher de muitas providências, regulava o movimento falando alto e andando ligeiro.
A granja era muito agradável. Ficava a uns 30 minutos de João Pessoa, na estrada para a praia de Tambaba, onde o nu ainda não era praticado oficialmente. A casa era parecida com as que existem pelo interior da Paraíba. Telhado de quatro águas, arrodeada de varandas. Muita flor em volta.
Pra cortar o gosto forte da pinga, um bom pedaço de caju maduro, catado no quintal. Uma frutinha vermelha, de um pé ainda pequeno, também caía bem depois da talagada. Era acerola.
A água de coco era das mais doces que se conhecia e as mangas, rosa e carlotinha, verdadeiras delícias. Aqui e acolá, uma touceira de cana caiana. Pé de pinha também tinha. De goiaba e araçá, nem se fala.
A criação era variada. Um cavalo velho, três vacas holandesas. Galinha, tinha muita, sobretudo pescoço-pelado e carijó. As galinhas d’Angola eram mais para enfeite. O galo do terreiro era vermelho, com rabo amarelado e preto. Esporas curvas, de tão grandes.
Nas noites quentes, quem estivesse na varanda ganhava a companhia de um velho sapo enorme, que pesava quase um quilo. Surgia não se sabe de onde e, em silêncio, ficava espiando o movimento.
Naquela manhã, a movimentação era grande em volta do tanque, na varanda dos fundos. Era dia de buchada de bode. Quatro mulheres cuidavam da limpeza das tripas e dos miúdos de dois cabritos, comprados por Iveraldo na feira do Conde, logo cedo.
Servicinho duro e enjoado de fazer. Muita gente nem chegava perto. As vísceras são escuras, feias. O cheiro é bem forte. Mas as mulheres, já acostumadas com tudo aquilo, trabalhavam firmes. Riam alto, animadas pelos goles de Rainha, a cachaça oficial da granja. Ela vinha em garrafão, direto do alambique das redondezas de Bananeiras, terra de Iveraldo. Forte, mas muito saborosa.
O trabalho já estava bem perto do fim quando, metida num impecável macacão bege e de bolsa a tiracolo, Dona Dadá chegou na beira. Parecia supervisionar, com muito rigor, tudo o que via. Assustada, distribuía caras e muxoxos de discreta reprovação.
- E pensar que alguém vai comer isso...
Frequentadora assídua dos sítios da Fazenda Inglesa, na serra de Petrópolis, onde a granfinagem carioca passa fins de semana. Ela já demonstrava querer voltar pra casa, quando apareceu uma garrafa do melhor uísque nacional.
- Um duplo, por favor. Com bastante gelo!
De copo na mão, saiu para dar uma volta no quintal, à cata de novidade.
A tarde já ia longe, quando o almoço foi servido no pagode, perto da piscina que estava sendo inaugurada. Grandes travessas e muitas panelas sobre a mesa. Dava gosto de ver: de tudo, um pouco. Galinha de cabidela, carne de sol, ensopado de costela de vaca, feijoada, cabrito assado e rubacão. Pra acompanhar, pirão de leite, feijão de corda, macaxeira, jerimum e salada de tomate.
Lá estava, também, uma enorme travessa de arroz frio e sem qualquer tempero. Naquele lugar ninguém levava o arroz a sério. Ele era cozido em água abundante e depois escorrido numa peneira, como macarrão.
Como era costume, de barriga cheia, os convidados procuraram um lugar para fazer a sesta. Os mais espertos conseguiram vaga numa das muitas redes estendidas na varanda. A fresca corria solta e ninguém falava em colesterol.
A buchada já havia sido colocada no fogo, num caldeirão enorme. Os miúdos de bode, picados em pequenos pedaços, haviam sido ensacados dentro dos buchos, que eram costurados com fio urso para não deixar vazar o recheio. As tripas estavam enroladas nos ossinhos da canela. Muito alho, cebola e tempero verde. Um pouco de pimenta crua pra dar gosto. Na panela, um caldo ainda ralo cobria tudo.
Cheiro verde, tempero, coentro
Tempero verde Crédito: Pixabay
- Pronto, agora é só deixar cozinhar em fogo brando.
O fogão, como convinha, era a lenha. Havia sido construído na varanda, bem perto da porta da cozinha, pra dar conforto a quem cozinhasse.
Na chegada da noite, Dona Dadá já parecia ambientada. Encontrara uma pessoa para escutar suas histórias. Exímia jogadora de baralho, aceitou de imediato o convite pra uma partida de canastra.
Da mesa de jogo dava para sentir o calorzinho do fogão e o cheiro que saía da panela. Era jogo de gente grande, sem menino em volta.
Mais uma vez, muitos adultos e crianças se preparavam para dormir. Uma boa parte deitaria em colchonetes espalhados no chão da copa e das duas salas. Por cima, uma camada de redes garantiria acomodação para mais umas vinte pessoas. Difícil era ir ao banheiro no meio da noite.
O ambiente da jogatina era alegre e descontraído. As troças, as birras e as piadas, apesar de surradas, ainda faziam rir. As manhas e malandragens de cada jogador eram previsíveis, pelo tempo de convívio. As possibilidades contidas nas cartas e o movimento pendular da sorte mantinham vivas as expectativas de cada um.
Como mandava a tradição, lá pelas onze da noite, o jogo foi interrompido para que os jogadores pudessem experimentar o caldo resultante da ferveção de mais de 10 horas em fogo brando. Se quisessem, poderiam também experimentar a buchada.
Dona Dadá distribuía as cartas do morto, quando Iracema veio de lá, trazendo um dos buchinhos num prato fundo. Ao ver aqueles estranhos objetos serem colocado na mesa de apoio, ao lado, a expressão dela era de aversão. Educada, ela sabia que não poderia fazer desfeita para a dona da casa.
- Vou aceitar só um pouquinho, para provar.
Iracema caprichou. Jogou duas gotas de pimenta de cheiro sobre aquela espécie de sarapatel molhadinho e cobriu tudo com uma fina camada de farinha bem branquinha. Salpicou com cebolinha verde. Era pra comer de colher.
Quem prestasse atenção poderia notar a metamorfose: o sabor forte daquela comida havia transformado aquela elegante senhora na menininha franzina que morava no sobrado verde da rua 25 de março, em Cachoeiro de Itapemirim.
Com os olhos brilhando e a respiração meio acelerada, ela comeu o tanto que lhe deram para provar, pediu mais, repetiu mais uma vez e arrematou, por gula, uma última porção caprichada. Depois de tudo, tomou um gole de cachaça.
- Uma verdadeira maravilha!
Os anfitriões, satisfeitos, sorriram do que ouviram. É bem provável que, em seu discreto silêncio, Iveraldo tenha se lembrado da modinha que Wilson Batista compôs, na intenção de destratar Noel Rosa: “por uma cara feia perde-se um bom coração”.
A buchada de bode de Iracema havia conquistado mais uma adepta.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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