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Crônica

O dia em que perdi a competição por errar o lugar da chegada

Embora estivesse bem treinado, nadar 800 metros não era o meu forte. Preferia as provas curtas, de explosão. Longas distâncias, além de preparo físico, exigem que se dose as energias, para que não falte nem sobre oxigênio na chegada

Públicado em 

21 fev 2025 às 02:30
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Meu filho Rafael me mandou um post sobre um ciclista europeu que, depois de pedalar muitos quilômetros, perdeu a competição por ter errado o lugar da chegada. Ele disse que se lembrou da história sobre a minha participação numa prova de natação, que acontecia anualmente, na Baía de Vitória. A crônica que escrevi há uns 20 anos sobre o assunto, com pequenos ajustes, é a que se segue.
“Era a primeira vez que eu disputaria aquela travessia, a principal prova da natação capixaba. Por duas vezes, minha pouca idade foi usada como argumento restritivo por dirigentes de outros clubes; adiante, já crescido, um torcicolo inviabilizou minha participação.
Domingo de sol, a calçada do começo da Beira-Mar estava repleta de torcedores, parentes e amigos dos nadadores. Éramos mais de sessenta.
As águas do canal estavam espelhadas, sem sinais de correnteza. Era tempo de maré morta. Um navio, atracado no cais do Pela-Macaco, enchia os porões com minério de ferro. Um outro, menor, estava sendo carregado com toras de peroba e jacarandá, vindas no Norte do estado.
Embora estivesse bem treinado, nadar 800 metros não era o meu forte. Preferia as provas curtas, de explosão. Longas distâncias, além de preparo físico, exigem que se dose as energias, para que não falte nem sobre oxigênio na chegada.
Como respirava pela direita, preferi me posicionar bem à esquerda, para melhor controlar a movimentação dos demais nadadores. Dois deles, Viola e Bufete, mereciam especial atenção. Eram os favoritos de sempre.
A expectativa era grande. Para relaxar, resolvi ficar boiando de barriga pra cima, forçando a respiração para super-oxigenar o sangue, como sempre fazia, antes de um mergulho mais demorado. Distraído, não ouvi o tiro de partida. Alertado pelo pessoal que estava no paredão, pude ver que a dupla já estava uns quinze metros à frente.
Velocidade para alcançá-los, eu sabia que tinha. Nadar rápido era minha especialidade. A questão era saber se teria fôlego para me manter na dianteira até o final.
Os dois favoritos assumiram a liderança logo no início. Veteranos, conheciam bem a raia. Como sempre faziam, eles nadavam lado a lado, um respirando para o outro. Tinha, a meu favor, uma pequena vantagem: ao tirar a cara da água para respirar, eu podia vê-los facilmente.
Estávamos pra lá da metade do percurso quando consegui me emparelhar com os dois e assumir a dianteira. Ao notar a minha presença, Viola arregalou os olhos e fez cara tão assustada, a ponto de Bufete se virar pro meu lado, para conferir o que estava acontecendo.
Descoberto, acabava o elemento surpresa. Daquele momento em diante, teria de enfrentá-los na marra e na malandragem. Eles deviam estar menos cansados mas, em compensação, eu poderia continuar acompanhando a movimentação dos dois, sobretudo suas eventuais tentativas de ultrapassagem.
Dito e feito: todas as vezes que apertavam o ritmo, eu tratava de acelerar o meu também. Todas as vezes que a cadência diminuía, eu aproveitava para dar duas braçadas fortes a mais. Assim, aos poucos, fui consolidando uma pequena dianteira.
Já podia ver a figura do Morro do Penedo, quando notei que Bufete, depois de deixar o companheiro para trás, parecia conformado com o segundo lugar. Já não me pressionava mais. E isso era muito bom, porque meu peito parecia querer explodir. Agora, era só administrar a diferença e rezar para que ele não encontrasse forças para reagir.
Morro do Penedo e Terminal Portuário de Vila Velha
Morro do Penedo  Crédito: Luciney Araújo
Nadava com o pensamento concentrado na respiração. A cada braçada, sugava todo o ar que conseguia. Exaustas, as pernas já não batiam com o vigor de sempre. O céu da boca estava forrado de óleo.
O gosto da vitória estava ao alcance das mãos. A tirar pela quantidade de barcos e catraias ao redor, apinhados de gente, o final daquela maratona já estava bem próximo. Identifiquei o pequeno farol vermelho que demarca as pedras em frente ao Clube Saldanha da Gama, justamente o local da chegada.
Vi, bem na minha frente, uma corda com pequenas boias coloridas, como as usadas para separar as raias das piscinas. Bastaria tocá-la e tudo estaria terminado. Achei melhor agarrá-la com as duas mãos e com firmeza. Aquela corda era a exata expressão da chegada e, ao tocá-la antes dos demais nadadores, eu me consagrava vencedor. Vi que as pessoas faziam movimentos vigorosos, como se estivessem comemorando.
Aos poucos, meus olhos foram recuperando o foco e os ouvidos, a audição. Percebi que todos queriam que eu nadasse para a esquerda. Aflitos, gritavam cada vez mais alto, como se eu estivesse correndo algum sério perigo. Atônito, mesmo sem entender o que tentavam me mostrar, obedeci.
Depois de algumas poucas braçadas, senti alguém passando sobre as minhas pernas. Espantado, parei de nadar e, ao tirar a cabeça fora da água, vi os pés de Bufete fazendo espuma.
Foi quando vi uma espécie de trave de futebol. Ela era sustentada por dois estrados de madeira, que flutuavam, presos pela corda de bóias coloridas. Tratei de passar entre eles, como o meu adversário acabara de fazer.
Ofegante, agarrei-me na borda do primeiro barco que encontrei pela frente. Alçaram-me para bordo como se fosse um peixe grande, exausto, de tanto lutar. Deitado na madeira quente do banco, fui recuperando as energias e os sentidos. Um senhor, com os braços abertos, me perguntava, atônito:
– Por que você não entrou no funil?
– Que funil?
– Entre os dois estrados de madeira...
Foi o bastante para entender que eu havia nadado alguns metros paralelamente à linha de chegada. Pelo regulamento, tal proeza, inédita e descabida, não me garantia a medalha de primeiro lugar, mas A Gazeta publicou uma pequena matéria com foto de nós três abraçados, ressaltando a minha vitória moral."

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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