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Crônica

Como o mundo lá fora ainda não melhorou, falo mais sobre quem tem bico

O fato é que convívio intenso com Amora, nesta pandemia, está fazendo de mim um desses passarinheiros, que começam o dia tratando dos seus bichos de estimação

Públicado em 

04 set 2020 às 05:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Arara: durante a pandemia, tenho tempo de conhecer melhor meu novo amigo
Arara: durante a pandemia, tenho tempo de conhecer melhor meu novo amigo Crédito: Pixabay
Como prometido, continuarei falando de Amora, mesmo porque o mundo lá fora ainda não melhorou. Começo dizendo que já está mais do que comprovado que a arara é quase um cachorro, por tão amiga do homem que pode vir a ficar. Com sua audição apuradíssima, sabe muito bem quando estamos saindo de casa e quando estamos chegando de carro.
Empoleirada numa cadeira da varanda nos espera pacientemente, tendo Pingo e Bill por perto. Não seria exagero dizer ela já acata ordens básicas, tipo: “sobe”, no poleiro, “solta”, as garras do meu braço e “vem”, pro colo do dono. Aprendeu rápido que é muito bom alguém coçar a sua cabeça, mas custou a aceitar que coçasse sua barriga, o que deve exigir entrega e confiança.
Falar, Amora não fala, mas emite sons parecidos com os das palavras arara, amora, Carol e Álvaro. Ao se despedir, antes de dormir, pode produzir beijinho, estalando a língua. Theo, nosso neto, escolheu seu nome para que ela pudesse se apresentar às pessoas, tal como Carol fez com Aurora.
Demonstra entusiasmo dando pulinhos de pés juntos pra frente, no chão ou sobre a mesa da varanda. Desconfio que ela sabe que eu acho graça e faz isso pra me agradar. Em compensação, volta e meia, atira pelos ares as cumbucas de aço inox com água e comida. É a maneira que encontrou pra protestar pelo abandono que esteja sentindo. Normalmente funciona.
Posso garantir que ela adora pelejar contra minha sandália havaiana. Dá gosto vê-la se armando, de prontidão, à espera do próximo golpe e, ao se sentir poderosa, partir para o ataque ao monstro azul. A disputa, sem vencedor, pode durar minutos de pura diversão.
Movida por algum instinto, Amora tem uma tremenda psiqué de ficar nas grimpas, no ponto mais alto de onde esteja. Adora tomar banho no chuveirão lá de fora trepada na escadinha, mas é totalmente avessa à água de mangueira de jardim, traumatizada por quem não entende de arara.
Come ração balanceada comprada na Vila Rubim, mas prefere queijo fresco, semente de banana da terra e castanha-de-caju. Volta e meia come ração dos cachorros da casa sem pedir licença. Sua convivência com eles é relativamente cordial, mas ela impõe respeito, ameaçando bicar, se necessário.
Ela dorme na área de serviço e fica feliz quando chego lá de manhã. Abre as asas para se espreguiçar e ganha os primeiros dengos. Gosta de ficar puxando meus cabelos, enquanto vou limpando a plataforma do poleiro e colocando água e comida. Sempre trocamos palavras sem nexo quando a levo pra fora, de onde ficará nos vendo na cozinha. O fato é que convívio intenso com Amora, nesta pandemia, está fazendo de mim um desses passarinheiros, que começam o dia tratando dos seus bichos de estimação.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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