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É Fisioterapeuta, acupunturista e especialista em avaliação e tratamento de dor crônica pela USP. Entende a saúde como um estado de equilíbrio para lidar com as adversidades da vida de forma mais harmônica

As pessoas só querem ficar sem dor para desempenharem as tarefas do dia a dia

Parece algo simples de promover, mas envolve um mergulho dentro de si, um entendimento de como estava a vida no início dos sintomas, escolhas sobre quais hábitos deverão ser abandonados

Publicado em 12/04/2021 às 02h00
Mão com remédios
Com frequência, em meu consultório, recebo pacientes com uma lista enorme de medicamentos, os quais não usam adequadamente em constância e respeito aos horários. Crédito: Freepik

Com frequência, em meu consultório, recebo pacientes com uma lista enorme de medicamentos, os quais não usam adequadamente em constância e respeito aos horários. Criei o hábito de perguntar se além dos prescritos por médicos, havia algo mais em uso. A resposta é quase regra sobre analgésicos e relaxantes musculares.

“Doutora, eu não tomo porque eu quero, é porque eu preciso. No fim do dia eu sinto muitas dores e sinto meu corpo cansado e tenso demais”. O uso chega a ser diário e muitas vezes chega a preceder algumas atividades. “Doutora, eu já sabia que precisaria fazer uma faxina mais intensa então tomei antes mesmo de sentir”, ou ainda, “Não consigo relaxar completamente se não tomar um relaxante muscular antes de dormir, permaneço com muitos pensamentos e alerta pois tenho filho pequeno”. Os exemplos são inúmeros e inquietam meu coração.

Minha escuta contemplativa é deixada de lado e toma conta de mim uma investigadora que deseja buscar mais a fundo. A surpresa está em cada uma das respostas às indagações, a maioria não entende os motivos do cansaço, não tem estratégias para não ter crise e quando ela acontece, não tem medidas eficientes para sair dela. As pessoas estão naturalmente tensas – a ênfase está na naturalização e normalização desse estado – e já nem sabem como ficaram assim.

Tratar dor e cansaço é rotina, mas como tratar a pessoa, esta que não conhece a si mesma, que pede ajuda e nunca tentou se ajudar, esse é o desafio. Eu vivo a terceirização da saúde em meus pacientes e tendo a ser mais uma se nada de diferente for feito. Serei reduzida a mais uma prescrição sem resultados, mais uma não adesão ao tratamento, mais uma profissional a tratar o sintoma em detrimento da causa. “Doutora, eu fico bem, mas depois volta tudo”. O modo como lidamos com a saúde é revelador e justifica a sociedade doente a qual fazemos parte.

Após entender o estado de passividade com o próprio cuidado e a tendência de fuga que ocorre nos casos de automedicação, um alinhamento de expectativas é fundamental. O quanto o indivíduo que está a minha frente está disposto a mudar para encontrar um estado pleno de saúde? Minha mão está estendida, mas ela só alcança a metade do caminho. E qual é o desfecho que deseja atingir? No melhor cenário possível, como este paciente se vê e que atividades ele pretende desempenhar?

Na grande maioria das vezes, as pessoas só querem ficar sem dor para desempenharem as tarefas do dia a dia. Parece algo simples de promover, mas envolve um mergulho dentro de si, um entendimento de como estava a vida no início dos sintomas, escolhas sobre quais hábitos deverão ser abandonados, quais deverão ser criados, mudanças na alimentação e comportamentos, introdução de atividade física e contato com a natureza. Será que a mão do paciente encontrará a minha? Ou será que encontrará artifícios para mascarar o fato de que quer resultados diferentes fazendo as mesmas coisas de sempre?

Este texto absolutamente contraindica a automedicação, seja ela qual for. Há um grande risco de intoxicação, resistência ao fármaco, interação com outros medicamentos, dependência ou reações alérgicas. Muitos pacientes com esta prática chegam ao consultório com confusão mental, alterações de concentração e agitação. O tratamento inclui desmame gradual das medicações e acompanhamento bem próximo para facilitar uma rotina mais leve e com mais vida.

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