Os municípios mais ao Norte do Espírito Santo podem sofrer com calor, seca e risco de desabastecimento nos próximos meses. As previsões indicam menos chuva, aumento de temperatura em até quatro graus e redução nos volumes de água nos rios.
A primavera de 2026 será uma das mais quentes, registrando três graus acima da média máxima, podendo chegar a quatro graus, já que a previsão é que o calor se intensifique a partir de novembro, com redução de chuvas e períodos maiores de seca no Espírito Santo, principalmente nos municípios mais ao Norte do estado.
As afirmações são do meteorologista Ivaniel Soro Maia, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). “Até o momento, a previsão é de termos um déficit de 50 mm de chuva para a região que fica acima do Rio Doce, na área Centro-Norte do Estado, principalmente nas divisas com Minas Gerais e Bahia”, explica Maia.
No entanto, esse déficit é apenas, por ora, uma referência, levando em consideração a média histórica do índice de chuva para essa região, incluindo as áreas do Norte, Noroeste e do Nordeste capixaba.
As chuvas virão abaixo da média, ao longo da primavera. Isso se intensifica no mês de novembro, que historicamente é um dos meses que mais chove no ano
Ivaniel Soro Maia, meteorologista e pesquisador do Incaper
E o que significa ser apenas uma referência esses 50 mm a menos de chuva? Que esse indicativo, segundo Maia, pode ser maior do que o previsto. Ou seja, pode chover ainda menos nessas áreas Centro-Norte do Espírito Santo.
Nesse cenário, aclimatado com a presença do El Niño, o pico de interferências desse fenômeno deve ocorrer entre o final da primavera e o início do verão, atingindo 98%. Mas, segundo Maia, entre o final de outubro e o início de novembro, já será possível sentir os efeitos maiores do El Niño no Estado, principalmente na metade Centro-Norte.
Com base na estimativa de calor extremo e pouca chuva, Maia considera o risco de falta de água no Espírito Santo, principalmente na área localizada mais ao Norte. “É uma região que já tem um índice pluviométrico mais baixo. Em 2026, promete ser ainda menor, caso as chuvas de novembro sejam prejudicadas com o El Niño”, reforça o profissional do Incaper.
Com o cenário exposto, o meteorologista avalia os efeitos na agricultura, em razão da dificuldade na captação e abastecimento hídrico, além de pressão maior aos produtores rurais em virtude da irrigação. O impacto tende a ser maior na produção de mamão e café
Mais uma vez, analisa, o Norte capixaba sofrerá mais com o quadro. “Com mais calor e menos chuva, o risco para a produção de mamão está na deformação do fruto e algumas doenças. Quanto ao café, sensível a altas temperaturas, as floradas seguirão fora de época, com deformação do fruto e redução na produtividade e qualidade do grão."
Outro desafio aos agricultores são os focos de calor, que viram risco de incêndios florestais em virtude da redução de chuva. “Essa é uma preocupação para toda a região Norte, ao longo da primavera e do verão."
188 FOCOS DE CALOR
Durante os dias 14 e 27 de setembro, no Espírito Santo.
Dos 188 focos de calor registrados em duas semanas de setembro, 91 ocorreram em apenas seus municípios mais ao Norte do Estado: São Mateus (24), Pinheiros (22), Aracruz (13), Rio Bananal (12), Linhares (10) e Jaguaré (10). E esses números são de um período em que houve recuperação gradual das chuvas, no Espírito Santo: choveu mais em setembro, mas a distribuição espacial dessa chuva foi irregular por todo o território capixaba.
A variação dos acumulados de chuva ficou entre 6,56 e 189,25 mm, durante o mês de setembro, com maiores volumes concentrados principalmente nas regiões Sul, Serrana e Centro-Sul do Estado. Nessas áreas, foram registrados núcleos próximos de 150 a 190 mm.
Em contrapartida, no Centro-Norte, os volumes foram menores, mesmo havendo registros pontuais com acumulados superiores a 100 mm. Municípios como Colatina (28,2 mm), Vila Valério (28,6 mm), Jaguaré (29,0 mm), Pancas (39,2 mm), Rio Bananal (44,8 mm) e São Roque do Canaã (46,6 mm) estão entre os que registraram os menores acumulados.
Quando as chuvas avançam para o Nordeste do país, elas mudam de direção a partir do Centro-Norte capixaba e vão para o mar, desfavorecendo essa região do Estado
Ivaniel Soro Maia, meteorologista e pesquisador do Incaper
Historicamente, as regiões Norte, Noroeste e Nordeste do Espírito Santo apresentam um acumulado de chuvas menor que as demais áreas do Estado. Para a primavera, por exemplo, a média é de 250 mm a 350 mm na parte mais ao Norte do território capixaba, enquanto a área Centro-Sul, incluindo Caparaó, Grande Vitória, região Serrana e Sul, concentram de 350 mm a 400 mm, ou mais.
Porém, para 2026, a previsão é que todo o Espírito Santo receba 50 mm a menos de chuva nos três durante a primavera, com o impacto podendo ser maior para os municípios mais ao Norte do estado.
“Se considerarmos que, em muitos desses municípios, a chuva aparece mais ainda em novembro, o risco de queda no índice da chuva pode ser maior que 50 mm, já que neste ano esse será o mês de maior interferência do calor, por conta do El Niño”, pontua Maia.
De acordo com ele, em alguns anos esses municípios das regiões Norte, Noroeste e Nordeste do Estado recebem toda a chuva prevista para o período da primavera somente em novembro. “Será fundamental organizar a capacitação e distribuição de água”, enfatiza o meteorologista.
Outro ponto levantado por Ivaniel Soro Maia diz respeito ao aumento da temperatura, para os próximos meses, em especial a partir do final de outubro. A previsão é que a média máxima de temperatura suba um grau a mais, por mês, até o final da primavera, acumulando três graus em dezembro.
Serão dias muito quentes, extremamente abafados, com previsões de alta temperatura
Ivaniel Soro Maia, meteorologista e pesquisador do Incaper
Maia lembra que, em agosto deste ano, esse aumento de temperatura foi registrado em algumas cidades capixabas. No meio do inverno, houve dias com máxima de 40 ºC em Cachoeiro de Itapemirim; 39 °C em Alegre; 37,5 ºC em Guaçuí; 37 ºC em Presidente Kennedy; e 35 ºC em Itapemirim. Tais patamares são mais comuns durante o verão.
Para a primavera, a média da temperatura máxima vai variar entre 28 ºC e 34 ºC no Estado. “Essa é a média dos pouco mais de 90 dias da primavera. Com 28 ºC nas áreas mais montanhosas e 34º C nas regiões mais ao Norte capixaba”, explica Maia.
Esse cenário é muito similar aos primeiros meses de 2015, quando o El Niño também interferiu nas temperaturas e chuvas que atingiram o Espírito Santo, contribuindo para um período de seca histórica.
Com menos chuvas e mais calor, o abastecimento de água também pode ser atingido durante a primavera. De acordo com Maia, a população mais ao Norte do Estado deve ser a mais impactada. A questão é que, atualmente, essa região já está sofrendo com a escassez de chuva, em especial o município de São Mateus.
O balanço hídrico climatológico feito pelo Incaper, e que considera a evolução mensal entre janeiro e setembro deste ano, aponta para uma disponibilidade hídrica abaixo do desejado. O estudo selecionou quatro estações meteorológicas para análise: São Mateus, Itaguaçu, Venda Nova do Imigrante e Iconha.
Como resultado, percebe-se a ocorrência de excedente hídrico no início de 2026, ficando acima de 100 mm nos primeiros meses do ano. Porém, a partir de março e abril, nota-se uma queda nos indicadores por causa da retirada de água do solo e deficiência hídrica.
Em São Mateus, a deficiência é persistente entre os meses de abril e outubro. No final do mês de agosto, o município emitiu um alerta e, em seguida, decretou situação de emergência nível 1, por conta da baixa ocorrência de chuvas, da redução do nível do Rio Cricaré e do avanço da água salgada na direção dos pontos de captação. O sistema de captação de água está classificado como extremamente crítico, o pior do Estado.
Na estação de Itaguaçu, o registro de deficiência é ainda maior, começando em fevereiro e com quedas mais expressivas a partir de abril deste ano. Em Venda Nova do Imigrante, a estação meteorológica do Incaper apresentou a deficiência hídrica a partir de abril, com ligeira reposição em setembro e melhor recuperação no começo de outubro, ocorrendo o mesmo nas estações de Vargem Alta, Presidente Kennedy e Santa Teresa.
A quantidade de água disponível na estação de Iconha também passou por variações, durante os meses de janeiro e início de outubro de 2026, registrando deficiências entre março e julho. Houve reposição de água no solo, em agosto, mas em setembro e no começo de outubro o balanço hídrico voltou a mostrar retirada e deficiência.
As demais estações - Afonso Cláudio, Alegre, João Neiva, Linhares, Marilândia, Pedro Canário, Vila pavão e Vila Valério - mantiveram o déficit hírdrico nos últimos meses, desde os meses de abril e maio até outrubro.
Os resultados, na análise da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), reforçam que, mesmo em meses nos quais o acumulado de chuva foi acima da média histórica, o balanço hídrico climatológico aponta para a persistência ou o restabelecimento de deficiência hídrica. Somados aos dados referentes à vazão de água e aos níveis dos rios capixabas, os alertas para a área mais Norte do Espírito Santo ficam mais preocupantes.
30
reservatórios de água
do Estado podem guardar até 16,8 milhões de m³ de água.
De acordo com o diretor de Planejamento e Infraestrutura Hídrica da Agerh, José Roberto Jorge, a preocupação maior é com o período atual, de outubro a dezembro, já que historicamente são os meses de maior concentração de chuva no Espírito Santo.
“Nossa expectativa é de que as chuvas sejam regulares, já que desde abril deste ano elas estão abaixo da média. Caso isso aconteça, teremos condições melhores de enfrentar o período de estiagem que devemos passar entre abril e setembro de 2027”, pontua o diretor.
Por enquanto, há preocupação sobre as chuvas da primavera. Tanto que a agência manteve os indicadores de atenção sobre todas as estações usadas para o balanço hídrico climatológico do Estado, e em grande parte da situação hidrológica dos rios capixabas.
O ponto positivo é que as barragens estão com volume dentro do esperado para este período, podendo ajudar no abastecimento, caso seja necessário
José Roberto Jorge, diretor de Planejamento e Infraestrutura da Agerh
Atualmente, o Estado tem 30 barragens maiores, espalhadas pelo território capixaba, com capacidade para 16,8 milhões de metros cúbicos de água, no total. “O nosso monitoramento leva todas as informações sobre o clima, e acompanha de perto todas as interferências climáticas", afirma Jorge.
Essa cautela faz parte das ações de prevenção do comitê gestor do Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil (Siepdec), criado para planejar, ordenar e analisar as informações de mapeamento, monitoramento, previsão e alerta do clima, no Espírito Santo. E eles avaliam as condições meteorológicas, hidrológicas, geológicas e oceanográficas.
Historicamente, as chuvas não vêm atingindo a totalidade da área Centro-Norte capixaba. Frequentemente, as frentes que as trazem chegam do Rio de Janeiro, passando pelo Sul do Espírito Santo e se deslocando para o litoral capixaba, permanecendo entre as regiões Metropolitana, Serrana e Caparaó.
Esse percurso não contribui para que determinadas áreas, em especial as cidades entre Colatina e Mucurici, venham a se recuperar nos próximos meses. “Teria que chover na nascente da bacia dos Rios Guandu, Doce e Cricaré”, afirma Ivaniel Soro Maia.
De acordo com o meteorologista do Incaper, apenas o litoral Norte poderá ser beneficiado, mas numa área mais litorânea. Isso significa que Rio Bananal, Sooretama, Jaguaré, Vila Valério, São Gabriel da Palha, Vila Pavão, Boa Esperança, Nova Venécia, assim como grande parte de Conceição da Barra, Linhares e São Mateus, também serão impactados com a falta da chuva.
No último monitoramento dos pontos de captação de água disponibilizado pelo Estado, e que ajudam a avaliar o abastecimento público, São Mateus segue em estágio crítico, enquanto outros 13 municípios capixabas estão em situação de alerta. Um fica na região Sul (São José do Calçado) e dois estão localizados na região Central Serrana (São Roque do Canaã e Itarana). As áreas Norte, Noroeste e Nordeste capixaba mantêm Aracruz, Marilândia, Linhares, Rio Bananal, Governador Lindenberg, São Gabriel da Palha, Mantenópolis, Conceição da Barra, Montanha e Pedro Canário em alerta.
Isso significa que, até a primeira semana de outubro, a captação de água está atendendo à demanda da população. “Mas com as temperaturas seguindo elevadas, e sem chuvas, em breve essas cidades poderão sofrer com problemas de abastecimento”, alerta Maia.
13
pontos de captação de água
da Cesan estão em estado de atenção.
De acordo com a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan), 87% dos pontos de captação de água da empresa permanecem classificados em condição de normalidade. Isso significa que 13 dos 102 pontos estão em estado de atenção. Entre esses pontos não está o de São Mateus, já que os serviços locais são de responsabilidade do município.
A Cesan disse, ainda, que esse monitoramento é constante e alega que está observando melhoria no cenário, destacando o nível dos rios. Reforçou também que, no momento, não há comprometimento do abastecimento público na área de atuação da Cesan.
Porém, dentro dos dados disponibilizados pelo próprio Governo do Estado sobre a presença do El Niño no Espírito Santo, as bacias hidrográficas dos rios Doce e Santa Joana, por exemplo, estão no limite do índice Q90. Quando esse indicador fica perto ou abaixo de 90, o risco de prejudicar o abastecimento à população aumenta. E ambos os rios contribuem para a área Central-Norte.
Na outra porção do território capixaba, na área Central-Sul, mais duas bacias também apontaram indicadores abaixo ou próximos de Q90, mesmo durante as chuvas que caíram nessas regiões, durante o mês de setembro. Os índices dos rios Beneventes e Jucu também estão sendo monitorados.
Porém, para esses casos, o meteorologista do Incaper considera não haver riscos para o abastecimento da população, nem para a agricultura, já que as demais áreas do estado estão mais propícias às chuvas durante a primavera.
“A proximidade com o relevo das regiões Serrana e Caparaó pode gerar outras chuvas, mais comuns nos períodos de calor, não deixando que esses municípios fiquem muito abaixo da média de chuvas durante a primavera”, avalia Ivaniel Soro Maia.
Outro ponto por ele levantado está na tendência de a área mais serrana do Espírito Santo ter a ocorrência de chuvas mais próxima da média, neste ano. Isso cria um cenário mais favorável, também, para a Grande Vitória, já que os rios que chegam à Região Metropolitana passam pelas áreas mais montanhosas.
Leia mais