O chefe da Polícia Civil do Espírito Santo, delegado José Darcy Arruda, foi denunciado à Polícia Federal por suspeita de coação à testemunha. A chamada notícia-crime foi apresentada pelo delegado Alberto Roque Peres, que prestou informações em uma investigação federal.
Foi solicitada a apuração dos fatos por intermédio de um inquérito, informando ainda a suspeita da ocorrência de outros crimes, como denunciação caluniosa, abuso de autoridade, prevaricação e obstrução de investigação de organização criminosa.
O material também foi enviado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES). Arruda nega as acusações (veja abaixo).
O caso envolve depoimento de Alberto em investigação federal, divulgado pelo Fantástico no último dia 29. Nas imagens ele confirma as informações prestadas por um criminoso que ele havia detido, e que apontou um policial civil como sendo “o maior traficante do Espírito Santo”.
É relatado que antes da matéria ser veiculada, Arruda teria informado em suas redes sociais que o delegado capixaba seria investigado pela Corregedoria da Polícia Civil, assinalando que a corporação desconhecia as informações prestadas por ele à PF.
Na sexta-feira (27), foi confirmada a formalização da investigação interna, por intermédio de um comunicado oficial assinado por Arruda e encaminhado ao Corregedor-geral da PC, Roberto Fanti de Resende (CI Nº 034/2026 - PCES/GAB).
No ofício, a que a coluna também teve acesso, é solicitado "a instauração de procedimento para apurar quais medidas foram efetivamente adotadas pelo delegado Alberto Roque Peres ao tomar conhecimento dos fatos mencionados, bem como a verificação de eventual responsabilidade funcional decorrente de sua atuação".
O que foi considerado uma retaliação. "Não são eventos isolados; é uma reação direta, uma retaliação à colaboração do noticiante (delegado Alberto) com a investigação federal”, foi dito no documento encaminhado à PF, acrescentando que as ações do chefe da Polícia Civil vão contra os interesses da União em proteger a integridade de suas investigações e a segurança de suas testemunhas.
O depoimento do delegado ocorreu, relata o documento, em um contexto sigiloso, na condição de testemunha de fatos relacionados à Operação Turquia.
Trata-se da investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do MPES, em conjunto com a Polícia Federal, por intermédio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Espírito Santo (Ficco-ES).
O alvo foram policiais do Departamento Especializado de Narcóticos do Espírito Santo (Denarc), presos e afastados de suas funções, e traficantes com vínculos com facção criminosa envolvidos no desvio e comercialização de armas e drogas apreendidas pela polícia.
Crimes que teriam sido comunicados à Corregedoria da PC desde 2017. “Os fatos foram relatados ao delegado-geral da PC em diversas ocasiões, apontando haver indícios de conduta duvidosa por parte de um dos policiais investigados, Eduardo Tadeu Ribeiro Batista da Cunha, conhecido como Dudu” é dito na notícia-crime, que traz um histórico destas comunicações.
Há informações, por exemplo, de que há nove anos o policial civil Eduardo Tadeu chegou a ser afastado do Denarc e, mesmo assim, continuou interferindo nas investigações, entre elas, uma operação para apreensão de fuzis em Cariacica.
Arruda nega acusações
José Darcy Arruda afirma que não há intenção de investigar o delegado Alberto e que o objetivo foi convidá-lo a ir à Corregedoria da corporação para apresentar as informações e documentos que possui sobre o caso, já em posse da Polícia Federal.
“Não tive e não tenho nenhuma intenção de coagir um delegado de polícia ou mesmo interferir em uma investigação. Os documentos e informações que ele citou em seu depoimento, cerca de 3 ou 4 denúncias, nós ainda não localizamos. Nossa intenção é no sentido de que ele apresente o que possui”, disse.
Acrescentou que já solicitou que a Corregedoria faça um levantamento das investigações que por lá tramitam em busca dos casos que envolvem o policial Eduardo Tadeu. E destaca que houve um período em que todas as comunicações eram feitas por ofícios em papel.
“Atualmente é tudo por e-docs. Para acessar os ofícios em papel teremos que fazer uma busca em caixas, e já solicitei o desarquivamento. As informações do delegado poderiam nos ajudar nesta busca”, afirma.
Aponta ainda que a localização dos documentos permitirá saber o que foi feito de investigação e por qual motivo ficou paralisada por tanto tempo.
Em relação ao policial Eduardo Tadeu, Arruda afirma que não o conhecia pessoalmente.
O delegado Alberto Roque Peres e seu advogado, Fábio Marçal, decidiram não se manifestar sobre o documento encaminhado à PF e ao MPES.
A defesa do policial Eduardo Tadeu informou que também não se manifestaria sobre o caso.