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Publicado em 30 de março de 2026 às 08:48
Uma investigação que se arrastava há pelo menos nove anos na Corregedoria da Polícia Civil do Espírito Santo veio à tona após ações do Ministério Público e da Polícia Federal. O caso levanta questionamentos sobre a demora nas apurações internas envolvendo policiais do Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc), suspeitos de associação com criminosos e de reintrodução de drogas no mercado ilegal.>
Em entrevista ao Fantástico, em reportagem exibida na noite de domingo (29), o repórter Maurício Ferraz questionou o delegado-geral José Darcy Arruda sobre a lentidão do processo e se outros órgãos teriam sido mais eficientes. >
Durante o período investigativo, que já dura quase uma década, os policiais civis continuaram na ativa. Atualmente, dois estão afastados e outros dois, presos. O delegado-geral afirmou que havia investigação interna em andamento, mas reconheceu diferença no ritmo das apurações.
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— “Nós tínhamos uma investigação em andamento também na Corregedoria, porém o Gaeco e a Polícia Federal antecipou as ações”, disse.>
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Ao ser questionado se os outros órgãos foram mais eficientes, respondeu:>
— “Não é que sejam mais eficientes. A Corregedoria da Polícia Civil trabalha investigando todo o Estado. Pode ser que, em algum momento, ela deixou essa investigação, talvez, um pouco mais lenta.”>
Em entrevista ao Bom Dia ES, da TV Gazeta, na manhã desta segunda-feira (30), José Darcy afirmou que houve um acordo entre a Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público do Espírito Santo (MPES): caberia à Corregedoria a apuração administrativa, enquanto o MPES ficaria responsável pela investigação criminal.>
Segundo o delegado-geral, a complexidade do caso também contribuiu para a demora.>
— “Nessa investigação, percebe-se que os policiais não foram presos transportando ou vendendo drogas. Eles foram presos com base no que chamamos de prova indireta, construída a partir de informações, depoimentos, extrações de dados e vestígios. Isso demanda tempo. O MP trabalhou com apoio da Corregedoria. Participamos do afastamento dos policiais, dos mandados de busca e apreensão e também dos mandados de prisão”, explicou.>
Questionado sobre a permanência dos policiais na ativa durante a investigação, Arruda afirmou que o afastamento depende de decisão judicial ou de solicitação formal da Corregedoria.>
— “O afastamento ocorreu quando as provas foram reunidas, com base em depoimentos e extrações de dados, momento em que a Justiça teve embasamento para determinar a medida. Não se afasta policial por suposição, mas por fatos concretos”, afirmou.>
Durante esse período, os investigados chegaram a ser transferidos para outras delegacias. Segundo Arruda, será aberta nova apuração para verificar se eles também cometeram irregularidades nesses locais.>
— “A Polícia Civil é uma instituição séria. Não podemos permitir que dez policiais manchem a imagem de cerca de dois mil profissionais”, destacou.>
De acordo com depoimentos reunidos na investigação, um delegado chegou a afirmar que “o maior traficante do Espírito Santo é um policial civil”. A declaração, exibida na reportagem, levou Arruda a determinar, na última sexta-feira (28), a abertura de uma apuração específica para esclarecer o caso.>
Além disso, o chefe da Polícia Civil informou que acionou a Corregedoria para verificar quais providências foram adotadas pelo delegado ao tomar conhecimento das suspeitas envolvendo o policial apontado, supostamente, como o “maior traficante do Estado”.>
O Fantástico teve acesso exclusivo a áudios, vídeos e depoimentos que apontam que policiais civis do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc) teriam se aliado a criminosos para desviar drogas apreendidas em operações e revendê-las no mercado ilegal.>
De acordo com os documentos, e como já revelado por A Gazeta, parte dos entorpecentes recolhidos em ações policiais voltava a circular por meio de traficantes ligados ao grupo. Os agentes investigados atuavam justamente no setor responsável pelo combate ao tráfico no estado.>
Depoimentos indicam que os policiais não apenas desviavam drogas, mas também negociavam diretamente com criminosos. Em um dos relatos, um traficante afirmou ter comprado 50 quilos de droga de um dos agentes, pagando R$ 49 mil pela carga.>
As investigações apontam que o esquema incluía a atuação de informantes, que indicavam traficantes rivais. A partir dessas informações, os policiais realizavam abordagens, apreendiam os entorpecentes e desviavam parte do material, que era posteriormente repassado para revenda, com divisão dos lucros.>
Parte das provas foi obtida a partir do celular de um traficante ligado ao PCC, que mantinha contato frequente com um policial do Denarc. Conversas indicam troca de informações e negociação de drogas.>
Além disso, há relatos de extorsão. Um dos depoentes afirmou ter pago cerca de R$ 25 mil para ser liberado após uma abordagem. Em outro caso, a investigação aponta que cerca de 500 quilos de droga foram apreendidos, mas apenas 207 quilos chegaram oficialmente ao departamento.>
Três investigadores da Polícia Civil foram afastados por ordem judicial, e um deles foi preso. O policial detido, Eduardo Tadeu, que atuava há mais de 10 anos no Denarc, é apontado como suspeito de liderar o esquema.>
As apurações indicam que o grupo pode ser mais amplo, envolvendo outros policiais civis e também militares. Ao todo, além de cinco policiais civis, outros 15 policiais militares foram investigados e denunciados.>
As declarações do delegado estão relacionadas à Operação Turquia, que já teve duas fases realizadas. Na primeira, em novembro do ano passado, um policial civil foi preso e outros dois afastados por suspeita de desviar drogas apreendidas para traficantes que atuam na Ilha da Príncipe, em Vitória. Os três atuavam no Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc). Deflagrada pela Polícia Federal e pelo Gaeco, a ação ocorreu em Vitória, Vila Velha e Serra.>
Na segunda fase da operação, realizada no último dia 18, outro policial civil e mais cinco suspeitos foram presos. Segundo a Polícia Federal, o agente preso nessa ocasião é um dos que haviam sido afastados na primeira fase da ação. O nome dele não foi divulgado, mas a reportagem de A Gazeta apurou que se trata de Erildo Rosa Junior.>
As investigações tiveram início após a prisão em flagrante de um dos principais líderes do tráfico de drogas na Ilha do Príncipe, ocorrida em fevereiro de 2024. A partir do aprofundamento das apurações, foram identificados indícios de ligação entre o investigado e servidores públicos, evidenciando possível cooperação ilícita durante diligências policiais.>
Segundo a PF, parte das drogas apreendidas em operações oficiais estaria sendo desviada para a própria organização criminosa. Uma fração dos entorpecentes não era registrada nos boletins de ocorrência e, posteriormente, era repassada a intermediários ligados ao grupo.>
Ao todo, segundo divulgado pela colunista Vilmara Fernandes, oito pessoas foram denunciadas e se tornaram rés, incluindo o traficante que mantinha contato com os policiais. São elas:>
Veja o que disseram as defesas dos policiais presos e afastados em notas encaminhadas à colunista Vilmara Fernandes no último dia 16.>
A defesa de Eduardo Aznar Bichara é realizada pelo advogado Fábio Marçal. Ele discorda da decisão, assinalando que o afastamento das funções públicas representa um prejuízo irreversível para o seu cliente e para o Estado.>
“Entendemos a decisão como uma antecipação de pena, antes do processo penal ter evoluído em todas as suas etapas e sem nenhum tipo de manifestação da defesa. Não podemos concordar”.>
O advogado Rafael Almeida de Souza representa o policial Eduardo Tadeu. Ele informa que tomou conhecimento das medidas cautelares recentemente determinadas no curso da investigação conduzida pela Polícia Federal, que resultaram no afastamento funcional de alguns investigados.>
“Ressalta-se que a apuração ainda se encontra em andamento, com diligências investigativas pendentes, razão pela qual qualquer análise conclusiva neste momento mostra-se prematura. A defesa confia no regular andamento das investigações e reitera que todos os esclarecimentos necessários serão prestados no momento oportuno”, assinala.>
O advogado Ricardo Luiz de Oliveira Rocha Filho faz a defesa do policial Alessandro. Relata que está reunindo provas necessárias para comprovar a inocência de seu cliente. “As provas contrárias ao meu cliente, desde o início desta investigação, são frágeis. Vamos comprovar que ele não tem relação e nem mesmo tangenciou os fatos investigados”.>
Em relação ao afastamento das funções, observa que desde que a operação foi realizada ele continuou exercendo suas funções e não surgiram fatos novos desde a decisão judicial anterior que justifiquem o afastamento determinado no início deste mês. “Entendemos a medida como desnecessária, mas a defesa confia no senso de justiça da magistrada", assinalou. >
A defesa de Erildo Rosa Júnior é realizada por Frederico Pozzatti de Souza. Sobre o afastamento de mais um policial, informa, por intermédio de nota, que a decisão é de 2 de março deste ano. “Causa certa estranheza, contudo, que tal informação seja divulgada neste momento como fato recente, quando a decisão judicial correspondente foi proferida em 2 de março de 2026, portanto há cerca de duas semanas”.>
Acrescenta que já requereu, em 5 de fevereiro, acesso à integralidade dos elementos da investigação, e que o pedido aguarda manifestação do Ministério Público. >
“Diante disso, qualquer narrativa construída a partir de fragmentos ou informações parciais não permite uma avaliação responsável dos fatos, razão pela qual a defesa aguarda o exame do requerimento já formulado para que seja franqueado o acesso completo ao material investigativo, condição indispensável para a adequada análise técnica do caso”, assinala.>
Os advogados dos demais réus não foram localizados, mas o espaço segue aberto à manifestação.>
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