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Tufão "Ateu" destruiu igrejas e locais com nomes de santos no ES

Carro foi jogado para fora da estrada, árvores gigantescas foram arrancadas pela raiz e postes de alta tensão derrubados. Conheça a história do fenômeno que sacudiu o Norte do Estado

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 03/10/2019 às 14h00
 Crédito: Cedoc | A Gazeta
Crédito: Cedoc | A Gazeta

Bastaram dois minutos de vento e três minutos de chuva, a partir das 18h30, para o tufão "Ateu" destruir três igrejas e danificar uma quarta, fazer um Fusca ser jogado para fora da estrada e deixar pelo menos 100 famílias desabrigadas e uma criança ferida na região de Linhares e Rio Bananal, no Norte do Estado, em outubro de 1974. Um seminário também foi danificado e várias localidades com nomes de santos atingidas. Por isso, o tufão ganhou da população o apelido de "Ateu".

Nos dias seguintes ao fenômeno, o jornal A GAZETA de 24 e 25 de outubro de 1974 trouxe a cobertura. "Equipes de socorro formadas por militares e populares trabalharam durante todo o dia de ontem na localidade de Comendador Rafael, à margem da lagoa Juparanã, prestando socorro às vítimas do tufão que a população apelidou de Ateu. Cem famílias desabrigadas, 150 casas destruídas, pelo menos 18 bois mortos, destruição de lavouras e estrago de maquinários foi o saldo deixado pelo tufão, com ventos de até 100 quilômetros horários. Os prejuízos não foram calculados e as pessoas ainda estão assustadas, principalmente porque o vento foi acompanhado de forte chuva de granizo", dizia a publicação da época.

CRIANÇA FERIDA

Segundo a reportagem, o único ferido grave registrado até o dia anterior à publicação havia sido o bebê Wanderli Rodrigues, de quatro meses, filho do barbeiro João Rodrigues, que foi atingido na cabeça por uma ripa, quando caiu o teto de sua casa. "Sua mãe, D. Luzia Alves, de 28 anos, também sofreu várias pancadas, mas nenhuma de gravidade."

ESCONDIDO NO ESGOTO

Mais um detalhe da história chama a atenção. "Junto com o tufão chegou a Comendador Rafael (nome do local em Linhares) o guarda-motorista da Malária (funcionário do Governo Federal), João da Conceição Costa, 46 anos. Este não pensou em procurar uma casa porque poderia morrer soterrado, abandonou o carro que dirigia e se abrigou numa manilha que faz esgoto na lagoa Juparanã. "Foi o lugar que achei mais seguro", disse.

'FIM DO MUNDO'

Outro depoimento mostra o desespero dos moradores. "No pouco tempo de vento todo mundo saiu pelas ruas numa gritaria louca, num pânico sem tamanho. Saiu gente de roupa íntima à procura de socorro, apavorando-se ainda mais porque as luzes de apagaram, dando a pensar que era o fim do mundo", o relato é do guarda da Malária Antônio Alves Pinto ao jornal A GAZETA.

CASAS E IGREJAS DESTRUÍDAS

O texto continua: "Na localidade existem 227 residências, das quais 20 de alvenaria e o restante de madeira, cobertas de tabuinhas ou palha de coco. As ruas não são denominadas e as casas são carentes de numeração. Todos os moradores são pobres. E eles foram unânimes ao afirmar que "ninguém ouviu contar tão grande tragédia em Comendador Rafael. Os homens ficaram apavorados e as mulheres gritavam a todos os santos, por misericórdia. Crianças perdiam a voz, trêmulas e desfalecidas pelo medo.

Da igreja católica, em alvenaria, construída no topo de uma elevação, somente o sino ficou no andaime em que fora colocado. As imagens tornaram-se em pedaços confundindo-se com os destroços do templo. Também uma igreja presbiteriana e uma Assembleia de Deus tiveram o mesmo fim.

Das 227 residências, apenas o posto de saúde não foi atingido. Pelo menos 150 casas ficaram parcialmente destruídas e as 77 perderam parte dos seus telhados", afirma a reportagem. 

Além de todos esses danos, árvores gigantescas foram arrancadas pela raiz e postes de alta tensão derrubados.

NAMORO NO CARRO

Tufão
Tufão "Ateu" em Linhares . Crédito: Cedoc | A Gazeta

A população foi pega de surpresa pelo tufão e, até quem estava namorando, não escapou do susto. "Waldecir Rodrigues, 18 anos, morador em Santa Luzia - a quatro quilômetros de Comendador Rafael - teve prejuízos de aproximadamente Cr$ 5 mil, com uma mangueira caindo sobre o seu corcel. Ele, no momento, namorava com Leacir Ferreira, filha do dono do sítio", contava a matéria.

BOIS MORTOS

Nem os animais escaparam. "Na pecuária, o fazendeiro Luiz Alves de Almeira, da fazenda Boa Esperança, havia localizado até a tarde de ontem, 18 bois mortos, num prejuízo de Cr$ 35 mil. Por estar a propriedade junto da lagoa Juparanã, os animais mergulharam na água, ao correr apavorados com os estrondos causados pelo vento. O gado que pereceu foi retalhado à beira da lagoa e parte da carne distribuída para populares", cita a matéria do dia 24. 

BR 101 FECHADA

Ainda naquela quinta-feira, A GAZETA trazia os efeitos na estrada. "Em Bananal do Norte, o tufão causou consideráveis prejuízos e, na reserva florestal, a 52 quilômetros da cidade, uma árvore com quase dois metros de circunferência tombou na BR 101, interrompendo o trânsito durante 40 minutos e exigindo a ação imediata da Patrulha Rodoviária Federal... Ainda no município de Linhares, o tufão que destruiu parcialmente Comendador Rafael, destelhou casas e provocou consideráveis prejuízos ainda não levantados em São Rafael, Japira, São Jacinto e Santo Hilário... Na localidade de Rio das Palmas, na fazenda Nossa Senhora da Penha, foram destelhadas as casas de máquinas."

"AS IGREJAS CAÍRAM PORQUE ESTAVAM PODRES"

O seminário também entrou na lista de afetados pelo tufão. "Uma árvore com aproximadamente oito metros de altura caiu sobre o prédio do teatro, danificando-o parcialmente. Também o portão de entrada para o seminário - que serve apenas para a residências e três padres, foi deslocado pela pressão do vento.

Explicou o padre Estêvão, residente no seminário, que não há qualquer implicação com a fé de cada pessoa, o fato de ter o vento atingido localidades com nomes de santos, casas de religiosos e destruídos três igrejas, danificando outra - em Japira - parcialmente. 'As igrejas caíram porque estavam mesmo podres e cairiam por si mesmas', falou o religioso."

FUSCÃO INCENDIADO

O fusca foi atirado fora da estrada, incendiado e ainda carregado pelo vento por dezenas de metros. Crédito: Cedoc A Gazeta
O fusca foi atirado fora da estrada, incendiado e ainda carregado pelo vento por dezenas de metros. Crédito: Cedoc A Gazeta

Já na sexta-feira (25), mais uma história sobre o fenômeno. "Na estrada que liga Linhares a Bananal, a 16 quilômetros da sede do município, o fuscão gelo foi destruído de forma curiosa. Testemunhas do acidente contaram que o carro foi jogado fora da estrada, pela esquerda, incendiando-se em seguida. Seu motorista, não identificado, abandonou-o e, surpreso, viu quando o carro retomava a marcha, em chamas, estranhamente, até desviar-se novamente para a esquerda. Está, agora, abandonado no mesmo lugar."

RECONSTRUÇÃO

Na mesma edição do jornal, constava: "Em Comendador Rafael, ou povoado Lagoa Juparanã, os serviços de reconstrução das 227 residências parcialmente destruídas pelo tufão Ateu foram iniciados ontem. O aspecto é desolador no patrimônio, com os humildes habitantes impossibilitados de buscar serviços para a manutenção de suas famílias... Quatro assistentes sociais da Secretaria do Trabalho e Promoção Social iniciaram levantamentos da catástrofe para conhecimento do Governo do Estado e a prefeitura de Linhares deslocou  três caminhões basculantes para o transporte de material e todos os operários para a execução das obras."

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