Publicado em 30 de agosto de 2022 às 11:27
Uma vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está pronta para começar a ser testada em humanos: a SpiN-TEC, primeira vacina totalmente desenvolvida e produzida no Brasil. >
O artigo Promotion of neutralizing antibody-independent immunity to wild-type and SARS-CoV-2 variants of concern using an RBD-Nucleocapsid fusion protein, que acaba de ser publicado na Nature Communications, mostra que os trabalhos para o desenvolvimento da vacina avançaram. No artigo, os pesquisadores provam que a SpiN-TEC induz uma resposta robusta dos linfócitos-T contra as variantes, inclusive em relação à Ômicron.>
"Os testes da Covid-19 grave e moderada já foram feitos em camundongos e hamsters. Nos testes com os camundongos, confirmou-se proteção para carga viral e para patologia pulmonar", conta a pesquisadora Natália Salazar. >
Como os testes em animais já foram realizados, a próxima etapa visa os testes em humanos. A vacina da UFMG já foi aprovada pelo Conselho de Ética de Experimentação Humana da própria Universidade e pelo sistema CEP/Conep, formado pela Conep (instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa com seres humanos) e pelo CEP (Comitê de Ética em Pesquisa). A aprovação por todas essas instâncias possibilitará que esses testes sejam iniciados. >
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Algumas pessoas podem se perguntar qual a necessidade de desenvolver uma vacina para a Covid-19, visto que já existem imunizantes para a doença. O professor Ricardo Gazzinelli, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB e pesquisador do CTVacinas, explica que o problema da vacina contra o Sars-CoV-2 não está resolvido. Segundo ele, os produtos atualmente disponíveis precisam ser melhorados em diversos aspectos, como custos, estabilidade e eficácia.>
"Já existem trabalhos mostrando que a resposta das vacinas atuais contra a variante ômicron é pouco efetiva, daí a importância de desenvolvermos novas soluções que ataquem esta e outras variantes. Além disso, a SpiN-TEC tem custo baixo e alta estabilidade. As vacinas que usam RNA precisam ser congeladas a baixas temperaturas, o que dificulta o seu transporte. O imunizante da UFMG pode ser mantido em temperatura ambiente, o que facilita a distribuição para lugares longínquos", explica.>
O pesquisador acrescenta que o método de produção diferenciado faz com que a SpiN-TEC seja mais efetiva contra mais variantes, como a Ômicron. >
"As vacinas de Covid-19 em uso geram respostas de anticorpos neutralizantes. Já a SpiN-TEC foi desenvolvida para induzir uma resposta dos linfócitos-T, ou seja, ela gera uma resposta contra várias partes da molécula do vírus, e não apenas contra um de seus segmentos, como ocorre com as vacinas atuais.">
Segundo os pesquisadores, a SpiN-TEC poderá ser a primeira vacina humana 100% desenvolvida e produzida no Brasil, o que põe o país em posição de destaque nas pesquisas sobre imunizantes no cenário internacional, além de deixar um legado para o desenvolvimento de imunizantes para outras doenças. Isso ocorre porque as tecnologias desenvolvidas durante os trabalhos com a SpiN-TEC podem ser adaptadas para vacinas que combatem outros patógenos.>
"O Brasil nunca teve uma vacina humana totalmente desenvolvida aqui, para nenhuma doença. Então um imunizante nacional terá um custo mais barato para o país, além de provar a nossa capacitação tecnológica. As vacinas existentes precisam evoluir e melhorar, mas é importante que a tecnologia aprendida também gere frutos para a prevenção de outras doenças. Nosso projeto traz um legado ao proporcionar uma transição do conhecimento produzido na universidade até a sociedade, da prova conceito até o ensaio clínico", diz Gazzinelli.>
A pesquisadora do CTVacinas Natália Salazar explica que a SpiN-TEC é feita com a proteína recombinante (quimera) aliada a um adjuvante, espécie de insumo que potencializa a resposta imune do corpo humano ao antígeno. >
A pesquisa que deu origem ao desenvolvimento da vacina baseou-se na modificação genética da bactéria E.coli, que recebeu pedaços do genoma do Sars-Cov-2 para que fosse possível produzir uma proteína que juntasse as proteínas S e N do coronavírus – daí a origem do nome SpiN-TEC. O composto, chamado de "quimera", pode então ser injetado no corpo humano e induzir a resposta imune. >
"Antes da pandemia, já trabalhávamos com essa tecnologia de vacina aplicada a outras doenças, como a leishmaniose e chagas. A urgência provocada pelo aparecimento da Covid-19 nos ajudou a desenvolver essa solução o mais rapidamente possível. Usamos uma tecnologia já conhecida para desenvolver a vacina contra uma doença que então surgia", diz Salazar. >
A pesquisadora salienta que o artigo dá credibilidade para a eficácia e proteção da vacina. Além disso, ela ressalta a importância de o CTVacinas ter trabalhado para comprovar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) as boas práticas de laboratório do CTVacinas. >
"Trabalhamos muito para que a Anvisa aprovasse o controle de qualidade do produto final, que é a vacina, e do IFA, sigla para insumo farmacêutico ativo. O IFA é a base da vacina, o seu principal componente, que no caso da SpiN-TEC é um 'pedaço' do vírus. O IFA é o alvo da resposta imune do organismo e geralmente é importado, mas, nesse caso, está sendo produzido por nós no Brasil", conta.>
O CTVacinas recebeu recentemente a certificação Boas Práticas de Laboratório (BPL) do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), outra condição importante para o início dos testes humanos. >
"Acabamos de fazer testes pré-clínicos que mostraram a eficácia e a segurança da SpiN-TEC. Estamos terminando de responder às últimas exigências da Anvisa que avaliam a pureza da vacina e então poderemos realizar os testes em humanos. A primeira fase será com um número restrito de pessoas e, posteriormente, serão feitos testes com milhares de voluntários. A expectativa é que os testes com humanos ocorram já no início do ano que vem", conclui Salazar.>
Os trabalhos são fruto de parceria de pesquisadores do CTVacinas, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e da Faculdade de Farmácia da UFMG, da Fundação Ezequiel Dias (Funed), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz MG) e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). >
Além de pesquisadores, alunos de pós-graduação também estiveram envolvidos nos trabalhos que contaram com apoio financeiro da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), do Governo de Minas Gerais, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e do Governo Federal.>
O CTVacinas também realiza pesquisas para o desenvolvimento de vacinas contra a malária e contra a leishmaniose, além de já ter iniciado os estudos para um imunizante contra a monkeypox.>
*Com informações da UFMG>
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