Publicado em 8 de fevereiro de 2021 às 10:04
- Atualizado Data inválida
Com apenas dois meses, Yuri não parava quieto e caiu do colo do pai. Aos quatro meses, a pediatra aconselhou a deixá-lo no chão, porque ele não queria ficar deitado no berço de maneira alguma. Dormir seis horas por noite? Sem chances. Ele acordava no meio da noite e queria brincar. >
"Deu muito trabalho", confessa a mãe, a dona de casa Maurina Alves, 49. "Mas como ele era muito pequeno, eu não sabia o que ele tinha. Tentei de tudo, dar regras, estabelecer pontos para ele fazer tarefas, dar prêmios para não fazer bagunça... Ele seguia no primeiro dia e depois esquecia.">
O diagnóstico só veio anos depois, quando o menino tinha sete anos e já "mexia com a sala inteira" no colégio. Após a observação dos pais, dos professores e do médico, ele passou a fazer tratamento para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).>
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que começa na infância. Sua causa não está totalmente clara, mas sabe-se que há fatores genéticos e ambientais envolvidos. As três características essenciais são a distração, a impulsividade e a hiperatividade.>
>
Elas podem aparecer combinadas, mas não necessariamente (os três tipos conhecidos são o predominantemente desatento, o predominantemente hiperativo e o combinado). Também é possível que esteja associada a outros transtornos, como dislexia e discalculia (principalmente na infância), além de ansiedade e depressão.>
Numericamente, os meninos são os que mais apresentam traços de hiperatividade. São aqueles que não param quietos, ficam se remexendo na cadeira e levantam muitas vezes na sala de aula. Enquanto isso, as meninas tendem a ser mais quietinhas, embora igualmente desatentas.>
Não é o caso de Victória, de nove anos, filha da líder de limpeza Cristina Silva, 33. "Ela era bem novinha quando percebi que havia algo com ela", diz a mãe. "Ela era muito agitada, parou de dormir durante o dia quando ainda era bebê. Era tão acelerada que começou a falar e a andar mais cedo que o normal.">
"Aquilo me pegou de surpresa, minha família é bem pacata", afirma. "Todo mundo já era adulto e ela chegou como um furacão. Minha família falava que ela era desobediente, que não tinha atenção. Foi aquele turbilhão por causa da hiperatividade.">
A menina fez acompanhamento psicológico até os três anos, mas recebeu alta. "A minha luta continuou, ela passou por vários psicólogos até completar cinco anos", diz Silva. Foi quando uma profissional a encaminhou para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), de onde ela saiu com o pré-diagnóstico e um encaminhamento para ser avaliada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).>
Victória foi admitida para o tratamento no Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) infantojuvenil perto de casa. "Quando fechou o diagnóstico, comecei a perceber o porquê de alguns comportamentos dela que antes eu não entendia, que me estressavam ou me deixavam impaciente", diz Silva. "No começo, parece assustador, mas comecei a ver que ela ganhou qualidade de vida. Tem mães que têm vergonha, mas têm que ir atrás.">
De acordo com Mário Louzã, coordenador do Ambulatório de TDAH em Adultos do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), para caracterizar o transtorno, os sintomas precisam se manifestar quando o indivíduo tem menos de 12 anos. Normalmente, o diagnóstico é feito por volta dos sete anos, quando o comportamento da criança já pode ser avaliado em ambientes diferentes, como em casa e na escola.>
Ele explica que o distúrbio pode ou não persistir na idade adulta - cerca de metade dos portadores melhora com o passar dos anos. "O adulto também pode ter as mesmas características da criança, mas consegue controlar com algum esforço", afirma.>
Mário Louzã
Coordenador do Ambulatório de TDAHMuitas pessoas chegam à vida adulta sem saber que tiveram ou ainda têm a disfunção. "Às vezes, a pessoa interpreta o problema como sendo da personalidade dela", explica. "Quando ela cai no sistema de saúde é que começa a entender que não é apenas o jeitão dela, é um transtorno mental.">
Mário Louzã afirma que isso ocorre por uma série de motivos. "A questão principal é a falta de informação e o preconceito em buscar ajuda psiquiátrica", avalia. "O problema do TDAH não-tratado é que a pessoa acaba criando uma história de prejuízo acadêmico, está sempre um pouco atrás dos colegas, e com isso pode desenvolver baixa autoestima, entre outros fatores.">
Com a produtora de podcasts Thata Finotto, 36, a descoberta se deu por acaso. Ela diz que o irmão estava pesquisando sobre o tema em comunidades da extinta rede social Orkut e se identificou com alguns pontos. Ele, então, perguntou para a mãe, que é neurologista, se tinha aquilo. "Você não, mas sua irmã tem", respondeu a médica.>
Thata tinha 24 anos e diz que sua vida mudou desde então. "Comecei a ter respostas para coisas que eu nem sabia que podia ter perguntado", afirma. "Foi uma sensação de alívio, porque tem um peso grande da sociedade e isso tira um pouco da culpa que a gente tem por tentar fazer as coisas certas e nunca ser suficiente.">
"É semelhante a ir ao oftalmologista pela primeira vez e não saber que não enxerga como todo mundo", compara. "Depois que você coloca os óculos, parece que está tudo em HD. É a mesma sensação." Ela diz não se ressentir de só ter recebido a informação quando adulta. "Tem um estigma muito grande, as pessoas culpam os pais porque a criança não obedece, é agitada ou distraída demais.">
Como passou a pesquisar bastante sobre o tema, ela resolveu aproveitar a própria experiência profissional para compartilhar informação. Há dois anos, ela comanda o podcast Tribo TDAH, no qual fala sobre os dilemas e conflitos de quem vive com essa condição. "É uma comunidade de acolhimento, não são informações do ponto de vista do especialista, mas de igual para igual", explica.>
Como saber diferenciar quem tem um esquecimento normal ou é naturalmente impulsivo ou agitado daquele que tem TDAH? "Você pode ter pessoas que são levemente mais distraídas, mas isso não prejudica o cotidiano delas", explica Louzã. "Quando isso começa a trazer prejuízos, é bom procurar ajuda.">
Isso não significa necessariamente que a pessoa precisará tomar medicação ou seguir um tratamento específico. "Depende das atividades que a pessoa desempenha", conta. "É possível tentar estratégias simples para compensar as dificuldades, como colocar vários alarmes no celular para lembrar das coisas, por exemplo.">
Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, é possível participar de grupos de apoio gratuitos com portadores do transtorno e familiares organizados pela Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). As sessões são mediadas por médicos e psicólogos voluntários.>
"São grupos de ajuda mútua em que pessoas com realidades diferentes compartilham informações e trazem suas dúvidas", diz a psicóloga Iane Kestelman, presidente da ABDA e mãe de dois filhos com TDAH. A entidade, que chega a receber 8.000 pessoas por ano nesses encontros, tem como missão difundir informações científicas sobre o transtorno e lutar por políticas públicas para quem é portador.>
A associação visa capacitar profissionais de saúde e educação para saberem lidar com o transtorno. "O ideal é consultar um profissional que conheça e se dedique a pesquisar o tema para que não haja pessoas se tratando ou tomando medicação sem necessidade", afirma.>
Outra recomendação é que, ao saberem que o filho tem o transtorno, os pais avisem à escola. "Apesar do preconceito que existe em alguns segmentos da educação com relação aos diagnósticos ligados aos transtornos de aprendizado, o certo é que a escola seja comunicada para que a equipe pedagógica faça as adaptações necessárias.">
Iane Kestelman
PsicólogaAlgumas medidas simples, como colocar a criança sentada mais perto do professor ou dividir as tarefas em partes, podem ser adotadas. "É preciso ajudar este aluno a organizar o pensamento", diz. "E, como não existem políticas públicas que deem suporte aos portadores de TDAH e muitas vezes a escola não está preparada, o ideal é que os pais cobrem.">
O analista de sistemas Eduardo Caetano, 39, acompanhou de perto as dificuldades do filho Wallace, 17, na escola. "Nos primeiros anos, ele tinha um desempenho acima da média, gostava de matemática e era um aluno normal", lembra. "Quando ele começou a ter mais matérias, o desempenho caiu vertiginosamente.">
"Eu ia estudar com ele e via que ele sabia fazer os cálculos, mas não sabia entender os comandos", diz. "Ele não chegava ao final do parágrafo para saber o que era pedido. Aquilo acendeu uma luzinha.">
Eduardo diz que já ouvira falar de TDAH, mas era algo distante. "Eu ainda não tinha ligado os pontos", afirma. Há cerca de quatro anos, numa consulta com um neuropediatra, o médico começou a descrever as características de quem tem o transtorno. Na hora, ele diz ter pensado: "Espera aí, ele está falando do meu filho ou de mim?".>
Ele começou a pesquisar sobre o assunto, leu livros e assistiu a vídeos no YouTube. "Consumi tudo o que havia em uma semana, ativei o hiperfoco", diz sobre outra característica comum entre os portadores de TDAH, que consiste em centrar a atenção em um único assunto por horas, sem perceber nada mais ao seu redor.>
O pai acabou diagnosticado antes que o filho. "Eu percebia que era diferente, mas achava que era o meu jeito", afirma. "E, no caso do meu filho, achava que ele tinha uma personalidade parecida com a minha, é normal. Eu não olhava para ele com as características do transtorno.">
Hoje, ambos seguem tratamentos diferentes. "Isso é muito individual", explica. "Cada um aprendeu qual é a característica e trabalha cima disso. É muito bom quando você tem o diagnóstico, facilita muito", afirma. "Já tentei pegar serviço burocrático e não deu certo, mas descobri outras atividades que para mim são superdivertidas. Já sei como funciona, não preciso lutar mais contra o meu funcionamento.">
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta