Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 08:42
No último dia 13 de janeiro, um caminhão que seguia para Boa Vista (RR) pela rodovia que liga a capital de Roraima à fronteira com a Guiana saiu da pista, capotou e deixou um morto e dois feridos. O veículo transportava equipamentos de mineração e 500 kg de carvão ativado.
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O acidente expõe a nova fase do garimpo ilegal no Brasil: esse carvão é um dos rejeitos da lixiviação, processo que usa cianeto para extração de ouro. A prática se alastrou nos últimos anos e já é amplamente encontrada na exploração clandestina em Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Roraima, segundo relatos de cinco investigadores da Polícia Federal (PF) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) ouvidos pela reportagem.
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O cianeto é altamente tóxico e pode matar. Agentes de fiscalização dizem acreditar que as organizações criminosas tenham contratado químicos para construir laboratórios e ensinar a técnica. "O emprego do cianeto, substância tradicionalmente associada a processos industriais de beneficiamento mineral, indica uma mudança no perfil operacional do garimpo ilegal, com adoção de métodos mais complexos, quando comparados às técnicas clássicas, como o uso exclusivo de mercúrio", afirma Roberto Reis Monteiro Neto, diretor técnico-científico da PF.>
"Esse cenário sugere um processo de especialização e organização das atividades ilícitas, com maior acesso a insumos químicos controlados, disseminação de conhecimento técnico e estruturação de cadeias logísticas mais sofisticadas. Trata-se de uma evolução operacional que amplia os riscos ambientais, à saúde humana e à segurança das comunidades afetadas", completa ele.>
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O manuseio incorreto do cianeto pode transformá-lo em gás, estado no qual se torna mortal. Ele foi usado por nazistas nas câmaras dos campos de concentração do Holocausto.>
O cianeto tem uso controlado pelo Exército Brasileiro que, procurado, afirmou ser responsável pela comercialização, mas não pelo seu "manuseio, reutilização ou descarte".>
"O exercício das atividades de fabricação, comercialização, importação, exportação, utilização e prestação de serviços envolvendo esse produto depende de prévio registro e autorização", disse o Exército, em nota. O garimpo ilegal explodiu no país de 2018 a 2022, principalmente no governo de Jair Bolsonaro (PL), um incentivador da prática. Nesse período, a atividade impulsionou o desmatamento e contaminou rios e comunidades que vivem dessas águas com mercúrio, metal pesado que pode causar problemas mentais intratáveis.>
"Mas com o aumento expressivo do valor do mercúrio ilegal no mercado ilícito [300% de 2019 para cá], os garimpeiros ilegais começaram a procurar alternativas. O cianeto passou a ser utilizado, pois apresenta um baixo custo operacional, além de uma capacidade de recuperação de até 90% do ouro no rejeito [enquanto o mercúrio atinge no máximo 50%]", afirma Erich Adam, gerente do programa Ouro Alvo, da PF.>
Cada laboratório clandestino deixa milhares de metros cúbicos e toneladas de lixo potencialmente contaminado, e os garimpeiros atuam sem uso de equipamento de proteção. Como manusear e dar destinação a este material é um dos desafios que a PF e o Ibama enfrentam neste novo cenário.>
Em 2025, por exemplo, uma operação desarticulou um laboratório ligado a um garimpo da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e também uma marcenaria usada como armazém de rochas e carvão ativado. Os rejeitos, porém, não foram apreendidos, pois apresentam risco à saúde e vida dos agentes. Investigações às quais a reportagem teve acesso mostram grandes laboratórios ilegais, servindo a vários garimpos, com envolvimento de políticos locais. Na Bahia, por exemplo, uma série de operações da PF de 2022 a 2024 identificou uma crescente estrutura de lixiviação a serviço de uma organização criminosa que atuava nas cidades de Santa Luz e Cansanção.>
O grupo, segundo a investigação, era comandado por Rodrigo de Almeida Santos e Jeosafa Carneiro da Silva, donos de garimpos e do laboratório. Procurada, a defesa de Santos afirmou que responderá nos autos; a de Silva não respondeu. O químico era comprado ilegalmente. O grupo usava explosivos (também adquiridos clandestinamente) para extrair grandes quantidades de rochas ricas em ouro, que também comprava de outros garimpos da região.>
Segundo a PF, o laboratório tinha cerca de 24 mil m², com oito piscinas ao ar livre, construídas com lonas, onde era realizado o processo de lixiviação. De forma resumida, acontecia desta forma: as rochas eram despejadas nas piscinas de água com cianeto. Essa mistura então era levada para um outro tanque, com carvão ativado. Assim, o químico separa o ouro das rochas; depois o carvão separa o minério da água. O ouro extraído é processado e transformado em barras e o líquido, reaproveitado.>
O esquema incluía uma fábrica de produção de joias e um posto de gasolina para lavar o dinheiro. Foram apreendidos carros de luxo e armas. Informações obtidas pela Polícia Federal apontam "um dos possíveis destinos do dinheiro auferido pela venda de ouro foi utilizado nas eleições" de 2024, quando Silva se candidatou a prefeito de Nordestina (BA).>
O Ministério Público diz que há uma "complexa e sofisticada estrutura criminosa que transcende a mera garimpagem artesanal, operando com características de mineração industrial ilegal". Outra operação mirou um garimpo de cerca de 1,2 milhão de m² "mais de 7.000 campos de futebol" na região da cidade de Centro Novo do Maranhão, município de 16 mil pessoas na fronteira oeste do estado.>
A PF estimou que foram extraídos do local 138,9 toneladas de ouro, o que corresponde a R$ 96,2 milhões, extraídos com lixiviação.>
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