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Produtos químicos são utilizados ilegalmente para garimpo ilegal de ouro, na Amazônia

Produtos químicos são utilizados ilegalmente para garimpo ilegal de ouro, na Amazônia

O garimpo ilegal explodiu no país de 2018 a 2022, principalmente no governo de Jair Bolsonaro (PL), um incentivador da prática.

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 08:42

Garimpo ilegal na Amazônia é recorente, e o descarte de lixo químico é um problema
Garimpo ilegal na Amazônia é recorente, e o descarte de lixo químico é um problema Crédito: Chico Batata/Greenpeace

No último dia 13 de janeiro, um caminhão que seguia para Boa Vista (RR) pela rodovia que liga a capital de Roraima à fronteira com a Guiana saiu da pista, capotou e deixou um morto e dois feridos. O veículo transportava equipamentos de mineração e 500 kg de carvão ativado.

O acidente expõe a nova fase do garimpo ilegal no Brasil: esse carvão é um dos rejeitos da lixiviação, processo que usa cianeto para extração de ouro. A prática se alastrou nos últimos anos e já é amplamente encontrada na exploração clandestina em Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Roraima, segundo relatos de cinco investigadores da Polícia Federal (PF) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) ouvidos pela reportagem.

O cianeto é altamente tóxico e pode matar. Agentes de fiscalização dizem acreditar que as organizações criminosas tenham contratado químicos para construir laboratórios e ensinar a técnica. "O emprego do cianeto, substância tradicionalmente associada a processos industriais de beneficiamento mineral, indica uma mudança no perfil operacional do garimpo ilegal, com adoção de métodos mais complexos, quando comparados às técnicas clássicas, como o uso exclusivo de mercúrio", afirma Roberto Reis Monteiro Neto, diretor técnico-científico da PF.

"Esse cenário sugere um processo de especialização e organização das atividades ilícitas, com maior acesso a insumos químicos controlados, disseminação de conhecimento técnico e estruturação de cadeias logísticas mais sofisticadas. Trata-se de uma evolução operacional que amplia os riscos ambientais, à saúde humana e à segurança das comunidades afetadas", completa ele.

O manuseio incorreto do cianeto pode transformá-lo em gás, estado no qual se torna mortal. Ele foi usado por nazistas nas câmaras dos campos de concentração do Holocausto.

O cianeto tem uso controlado pelo Exército Brasileiro que, procurado, afirmou ser responsável pela comercialização, mas não pelo seu "manuseio, reutilização ou descarte".

"O exercício das atividades de fabricação, comercialização, importação, exportação, utilização e prestação de serviços envolvendo esse produto depende de prévio registro e autorização", disse o Exército, em nota. O garimpo ilegal explodiu no país de 2018 a 2022, principalmente no governo de Jair Bolsonaro (PL), um incentivador da prática. Nesse período, a atividade impulsionou o desmatamento e contaminou rios e comunidades que vivem dessas águas com mercúrio, metal pesado que pode causar problemas mentais intratáveis.

"Mas com o aumento expressivo do valor do mercúrio ilegal no mercado ilícito [300% de 2019 para cá], os garimpeiros ilegais começaram a procurar alternativas. O cianeto passou a ser utilizado, pois apresenta um baixo custo operacional, além de uma capacidade de recuperação de até 90% do ouro no rejeito [enquanto o mercúrio atinge no máximo 50%]", afirma Erich Adam, gerente do programa Ouro Alvo, da PF.

Cada laboratório clandestino deixa milhares de metros cúbicos e toneladas de lixo potencialmente contaminado, e os garimpeiros atuam sem uso de equipamento de proteção. Como manusear e dar destinação a este material é um dos desafios que a PF e o Ibama enfrentam neste novo cenário.

Em 2025, por exemplo, uma operação desarticulou um laboratório ligado a um garimpo da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e também uma marcenaria usada como armazém de rochas e carvão ativado. Os rejeitos, porém, não foram apreendidos, pois apresentam risco à saúde e vida dos agentes. Investigações às quais a reportagem teve acesso mostram grandes laboratórios ilegais, servindo a vários garimpos, com envolvimento de políticos locais. Na Bahia, por exemplo, uma série de operações da PF de 2022 a 2024 identificou uma crescente estrutura de lixiviação a serviço de uma organização criminosa que atuava nas cidades de Santa Luz e Cansanção.

O grupo, segundo a investigação, era comandado por Rodrigo de Almeida Santos e Jeosafa Carneiro da Silva, donos de garimpos e do laboratório. Procurada, a defesa de Santos afirmou que responderá nos autos; a de Silva não respondeu. O químico era comprado ilegalmente. O grupo usava explosivos (também adquiridos clandestinamente) para extrair grandes quantidades de rochas ricas em ouro, que também comprava de outros garimpos da região.

Segundo a PF, o laboratório tinha cerca de 24 mil m², com oito piscinas ao ar livre, construídas com lonas, onde era realizado o processo de lixiviação. De forma resumida, acontecia desta forma: as rochas eram despejadas nas piscinas de água com cianeto. Essa mistura então era levada para um outro tanque, com carvão ativado. Assim, o químico separa o ouro das rochas; depois o carvão separa o minério da água. O ouro extraído é processado e transformado em barras e o líquido, reaproveitado.

O esquema incluía uma fábrica de produção de joias e um posto de gasolina para lavar o dinheiro. Foram apreendidos carros de luxo e armas. Informações obtidas pela Polícia Federal apontam "um dos possíveis destinos do dinheiro auferido pela venda de ouro foi utilizado nas eleições" de 2024, quando Silva se candidatou a prefeito de Nordestina (BA).

O Ministério Público diz que há uma "complexa e sofisticada estrutura criminosa que transcende a mera garimpagem artesanal, operando com características de mineração industrial ilegal". Outra operação mirou um garimpo de cerca de 1,2 milhão de m² "mais de 7.000 campos de futebol" na região da cidade de Centro Novo do Maranhão, município de 16 mil pessoas na fronteira oeste do estado.

A PF estimou que foram extraídos do local 138,9 toneladas de ouro, o que corresponde a R$ 96,2 milhões, extraídos com lixiviação.

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