Publicado em 18 de janeiro de 2018 às 10:31
Em meio a surtos de febre amarela, o governo federal não só não avançou, como reduziu em 33%, no ano passado, os repasses para ações voltadas a situações de emergências epidemiológicas. O investimento nessas atividades em relação a 2016 (incluindo construção, modernização e aquisição de equipamentos para centros de controle, vigilância e prevenção de zoonoses) caiu de cerca de R$ 30 milhões para R$ 20 milhões. O levantamento foi feito pelo GLOBO com base no Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento do Governo, e os valores foram corrigidos pelo IPCA de 2017. No mesmo período em que a verba de prevenção minguou, o país registrou quase 800 casos da doença que ameaça, principalmente, Rio de Janeiro, São Paulo ontem, após a morte de duas pessoas, foi decretado estado de calamidade na cidade de Mariporã e Minas Gerais. Nesta quarta-feira, subiu para cinco o total de casos de febre amarela confirmados no Rio (dois infectados em Teresópolis, sendo um óbito; e três em Valença, dos quais dois morreram).>
Os recursos estão listados na rubrica identificada como Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica e Controle de Doenças. Em uma outra rubrica, que destina valores para o programa de apoio a estados e municípios na prevenção de patologias como dengue, tuberculose e doenças sexualmente transmissíveis, a queda no orçamento foi de 35% de 2016 para 2017. Os repasses do governo federal para o Fortalecimento do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde caíram de aproximadamente R$ 313 milhões para R$ 208 milhões.>
REDUÇÃO ACONTECE EM PERÍODO COM 777 CASOS>
A redução no orçamento acontece num momento crítico, segundo o próprio Ministério da Saúde. Em um relatório sobre a febre amarela divulgado no ano passado, o órgão informou que o país passava pelo maior surto da história recente da doença, colocando novamente à prova a capacidade de resposta do serviço de saúde pública brasileiro. Os números não deixam dúvidas: entre dezembro de 2016 e julho de 2017, foram confirmados 777 casos, com 261 óbitos. A Região Sudeste registrou a maioria das mortes: 152 em Minas Gerais, 83 no Espírito Santo, dez em São Paulo e oito no Rio de Janeiro. Desde o ano passado, o Rio teve 12 mortes.>
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Os incentivos do governo federal para a Vigilância em Saúde de estados e municípios também apresentou redução entre 2016 e 2017: a queda nas verbas foi de 2,4%. Essa ação visa a promover, entre outras atividades, o controle ambiental e imunizações. O valor pago caiu de R$ 1,82 bilhão para R$ 1,78 bilhão. No Rio de Janeiro, a diminuição foi de 11%: de R$ 154,3 milhões para R$ 136,6 milhões. Em São Paulo, a queda foi de 13% (R$ 273,7 milhões para R$ 238 milhões); em Minas Gerais e no Espírito Santo, de 5% (R$ 220,8 milhões para R$ 209,5 milhões) e 4% (R$ 41 milhões para R$ 39,5 milhões), respectivamente. Uma única ação federal, voltada para aquisição e distribuição de remédios e vacinas, teve aumento de recursos, de 8% (de R$ 2,8 milhões para R$ 3 milhões). Os dados, que também foram corrigidos pelo IPCA de 2017, podem ser consultados no Portal Transparência Brasil.>
Uma pesquisa realizada em maio do ano passado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) já chamava a atenção para uma redução, de 18%, nos repasses do governo federal para ações de vigilância epidemiológica. Ao comparar os três primeiros meses de 2016 com o mesmo período de 2017, o levantamento constatou que o total (pago) destinado a essas atividades, corrigido pela inflação, caiu de R$ 530,88 milhões para R$ 436,24 milhões.>
Professora da UFRJ e integrante da Comissão de Políticas de Planejamento e Gestão da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Lígia Bahia classificou como uma irresponsabilidade a redução de recursos da União para o controle de arboviroses e observou que o quadro atual era previsível.>
Não faltaram alertas sobre o recrudescimento da febre amarela. É um paradoxo cruel o Brasil ser produtor da vacina, ter centros de pesquisa reconhecidamente excelentes e a população continuar exposta a doenças evitáveis por imunização disse Lígia.>
MINISTÉRIO DIZ QUE VERBA NÃO CAIU>
O Ministério da Saúde negou a queda de repasses, e afirmou que os valores empenhados aqueles reservados para as atividades, mas não liberados são bem maiores. A pasta justifica que o montante é repassado conforme o andamento das fases de cada estudo e necessidade de investimentos. Um pagamento, por exemplo, pode ser feito somente no ano seguinte, destacou o órgão.>
No levantamento feito pela FGV, o economista Wagner Oliveira só considerou os valores efetivamente pagos.>
O empenho cria uma obrigação, mas não implica em contrapartida real, pois pode ser cancelado. Usar o valor efetivamente pago se aproxima mais do que está acontecendo de fato no país argumentou Oliveira.>
Além de defender a maneira como faz os repasses, o Ministério da Saúde destacou que os investimentos anteriores ao surto de febre amarela permitiram o preparo do sistema para respostas da rede pública às necessidades da população.>
Procuradas para comentar o assunto, as secretarias estaduais de Saúde do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo negaram que a redução dos recursos federais tenha prejudicado as ações de combate à febre amarela. A de São Paulo não respondeu aos questionamentos enviados por e-mail pelo GLOBO.>
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