Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 13:15
O jovem Luiz Otávio Santos Nunez, 19, que sofreu um acidente com arma de fogo em outubro de 2025 e ficou tetraplégico, abriu um novo capítulo a respeito do potencial da polilaminina, substância que agiria na regeneração de lesões medulares, ainda em fase de testes clínicos de segurança na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Ele teve uma lesão considerada muito debilitante pelos médicos, com perda de movimentos em braços e pernas e perda de sensibilidade do umbigo para baixo. Há seis dias, Luiz recebeu a aplicação da substância, por ordem judicial, em um hospital militar de Campo Grande, já passados 110 dias de seu acidente, o que fugiu ao padrão adotado nos procedimentos compassivos até aqui.>
Luiz relata uma série de manifestações positivas em seu corpo após a realização do procedimento. O grupo de pesquisa da substância, liderado pela professora doutora Tatiana Sampaio, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), havia determinado que o campo de atuação do estudo seria em lesões medulares completas -com rompimento total da atividade da medula- e dentro de uma janela terapêutica de 72 horas.>
Em acordo com o laboratório Cristália, porém, tendo em vista os resultados em aplicações dadas até agora, todas com ordem judicial, os pesquisadores resolveram estender o atendimento para casos subagudos -até três meses após o trauma. Não se pretende fazer a aplicação em pessoas com lesões ocorridas além desse prazo.>
"Sinto que estou fazendo força com os músculos da minha perna. É um leve movimento, mas ele não existia. Também passei a ter uma sensação de calor nas pernas. Senti o toque da mão da minha mãe no meu pé. Não tenho nenhuma dúvida, foi tudo depois da polilaminina, antes isso não existia", diz Luiz, que é militar do Exército.>
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Na lesão de Luiz, nas vértebras C6 e C7, é esperado movimentos parciais dos braços, sem um prazo específico para que isso aconteça. Especialistas afirmam que ainda é preciso esperar os resultados da pesquisa clínica para atestar a eficácia da substância.>
Viviane Goreti Ponciano dos Santos, mãe do jovem, afirma que sabe da responsabilidade da divulgação do quadro do filho. "Somos realistas. Sabemos da gravidade da lesão dele [do filho, Luiz]. Tenho total consciência da expectativa que podemos gerar nas pessoas. Mas eu afirmo que tudo está acontecendo. Sentimos claramente uma melhora, graças a Deus e a doutora Tatiana.">
Luiz já começou um programa intensivo de fisioterapia, tido como fundamental para o avanço dos resultados da medicação, que ainda não pode ser comercializada. "Entramos na Justiça porque era uma situação grave, com poucas alternativas reais, e havia uma possibilidade de benefício mesmo fora do prazo ideal. Não fazer nada também tem risco: é manter o paciente exatamente no mesmo cenário, sem perspectiva", afirmou o advogado da família, Gabriel Traven Nascimento.>
Para Traven, a questão não foi "arriscar por arriscar". "É ter coragem técnica para atuar onde quase ninguém atua, mas com método, responsabilidade e estratégia, para viabilizar uma chance ao paciente quando o caminho tradicional simplesmente não oferece resposta". Para os testes da pesquisa clínica, na Anvisa, o recorte dos voluntários não muda. Serão cinco pessoas com lesões medulares completas e agudas, ocorridas em até 72 horas. Os pacientes deverão fazer a reabilitação em São Paulo.>
Por meio de nota, o Cristália afirmou que, para casos crônicos -lesões mais antigas- está "conduzindo estudos experimentais em animais para definir como (e se) o tratamento poderá ser realizado em humanos. Até o momento, os dados disponíveis não permitem dizer que o uso em pacientes com lesões crônicas é seguro e eficaz".>
O laboratório não está cadastrando pacientes com esse perfil. "Sabemos da expectativa desse público e, caso haja inclusão em estudos futuros, essa informação será divulgada oficialmente por nossos canais", diz o texto.>
As aplicações compassivas da polilaminina, realizadas por determinação judicial, já são pelo 17, em todo o país. Até agora, nenhum relato de reação adversa foi registrado pelo grupo de pesquisa, que vem se desdobrando para conseguir dar conta de toda a demanda. O laboratório Cristália, parceiro da pesquisa e quem produz a substância, não tem cobrado pelo fármaco, que tem sido injetado em hospitais públicos e privados. A empresa alerta que não existe venda da polilaminina em nenhum meio e que apenas ela detém a fórmula.>
"Não podemos disponibilizar o medicamento polilaminina antes da aprovação do seu registro pela Anvisa. Atualmente, estamos iniciando o estudo clínico de fase 1, voltado para lesões agudas, sendo esta a primeira etapa de estudo regulatório em humanos, com o objetivo principal de provar a segurança do medicamento", informou o laboratório, por meio de nota.>
O Espírito Santo é o estado com mais pacientes, quatro, até agora, e pretende ser um polo de apoio para a pesquisa e montar, inclusive, um centro de reabilitação específico para pessoas que passaram pelo procedimento, segundo Mitter Mayer, assessor especial do governo capixaba e membro do comitê da polilamina. Em Vitória, um jovem que se acidentou em uma cachoeira, lesionando as vértebras C4, C5 e C6, recebeu polilaminina há cerca de 20 dias, por ordem da Justiça, e está movimentando os braços e parcialmente as mãos e os dedos. Para os pesquisadores, ele é um dos casos mais emblemáticos até agora de avanços. Esse processo específico está sendo totalmente documentado.>
No quadro dele, o mais esperado era uma retomada de movimentos nos ombros, segundo a literatura médica. Especialista ressaltam, porém, que é possível avanços de melhora em até dois anos após a lesão, o que depende de estimulações, neuroplasticidade e o próprio organismo do paciente.>
De acordo com acompanhamento da reportagem com os pacientes e de informações vindas de equipes médicas, pelo menos 12 pessoas tiveram manifestações de sensibilidade ou já fizeram movimentos após a aplicação da substância.>
Os especialistas afirmam que as reações variam em cada organismo e que fatores como acesso a uma boa reabilitação, com fisioterapia intensiva, o estado geral de saúde e emocional dos pacientes podem interferir nos possíveis resultados.>
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