Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 08:54
O desfile de Carnaval em homenagem ao presidente Lula (PT), feito pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, tem potencial de gerar condenação na Justiça Eleitoral a depender do que acontecer no dia do evento, na opinião de especialistas ouvidos pela reportagem. >
Embora achem que o samba-enredo não tem elementos suficientes para configurar propaganda eleitoral antecipada, parte deles cita trechos da canção que ficariam no limite da legalidade e fala na possibilidade da configuração de abuso de poder -o que poderia gerar a inelegibilidade e, caso reeleito, a perda do novo mandato do presidente. Outra parte não vê qualquer ilegalidade no tema do desfile, que ocorrerá no domingo (15).>
O tema é alvo da oposição, que acionou o Ministério Público Eleitoral e o procurador-geral da República alegando, entre outros pontos, propaganda antecipada e violação do princípio de igualdade de oportunidades entre os futuros candidatos à Presidência nas eleições de 2026.>
Lula, que já confirmou tentar a reeleição, vai ser homenageado pela Acadêmicos de Niterói, estreante do Grupo Especial de escolas de samba do Rio de Janeiro. O enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil" exalta a trajetória do mandatário e traz trechos como o grito de guerra "olê, olê, olá, Lula! Lula!", o mote "o amor venceu o medo" e referência ao número do PT nas urnas ("por ironia, 13 noites, 13 dias").>
>
Deputados do Novo fizeram uma representação ao TCU (Tribunal de Contas da União) pedindo a devolução de dinheiro público entregue à escola ou que o desfile fosse impedido. Um técnico do tribunal recomendou a suspensão do repasse da verba, negado pelo ministro relator Aroldo Cedraz. O magistrado, entretanto, aceitou a representação, que está em andamento.>
O recurso questionado vem de verba de R$ 12 milhões da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) entregues à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) para repasse de R$ 1 milhão para cada uma das escolas do Grupo Especial, dentre elas a Acadêmicos de Niterói.>
Lula deve ver o evento na Sapucaí. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, o contexto é inédito e tem brecha para contestação da oposição. Segundo Raquel Cavalcanti Machado, professora de direito eleitoral da UFC (Universidade Federal do Ceará), são considerados propaganda eleitoral antecipada o pedido explícito de voto e o uso de "palavras mágicas", expressões semanticamente similares ao pedido expresso, como "apoie" ou "ele é o melhor para o cargo".>
Para Machado, a letra do samba-enredo não resvala em nenhum dos casos, embora o trecho que faz referência ao número da sigla possa comprometê-la. Outro problema, afirma, pode vir de manifestação mais contundente no dia do desfile. "Pode ser que frases mais apelativas terminem sendo ditas [na Sapucaí]. Isso por si só já traz um risco. As pessoas vão ter que se conter ". A multa por propaganda eleitoral antecipada é de até R$ 25 mil ou correspondente ao custo da propaganda, se mais caro.>
Também poderia derivar do desfile a acusação de abuso de poder, caso o ato fosse entendido como promoção de candidato, custeada pelo poder público, e com capacidade de desequilibrar o pleito. A pena é de inelegibilidade e, em caso de candidato eleito, perda do mandato. Ela acha pouco provável a classificação do evento como abuso de poder, mas diz que o argumento é "carta na mesa que pode ser usada pela oposição, diante de uma situação tão cinzenta".
>
Segundo Fernandes Neto, especialista em direito eleitoral e coordenador acadêmico da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), o enredo não é propaganda antecipada porque não tem pedido explícito de voto, mas tem trecho no "limiar da legalidade" ao reproduzir o grito de guerra de Lula. Para ele, há a possibilidade de se classificar o ato como abuso de poder, avaliação subjetiva que passaria pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e precisa considerar se o ato é "grave, com repercussão reprovável e capacidade de influenciar o pleito".>
"Há uma destinação de valores públicos que pode ser interpretada como violando o princípio da impessoalidade e que pode gerar consequências de um abuso de poder político, econômico e de meios de comunicação, porque poderia, em tese, significar uma desigualdade no pleito", diz Fernandes Neto. "Nesse sentido, eu considero muito preocupante para a candidatura e para o Lula, porque de fato colocaria o TSE em uma saia muito justa. Acho que nunca tivemos um problema desse em relação ao presidente da República".>
Fernando Neisser, professor de direito eleitoral da FGV São Paulo, não identifica qualquer ilegalidade no samba-enredo. Ele tampouco vê problemas na verba concedida à escola, já que não há indícios de qualquer movimento por parte do presidente "para que essa homenagem acontecesse". Vitor Rhein Schirato, professor de direito administrativo da USP, afirma que o valor idêntico entregue às escolas do Grupo Especial é compatível com o princípio da impessoalidade na administração pública. O que não pode acontecer, diz, é uma escola ser beneficiada, ou penalizada, pelo enredo que escolher. Por isso, ele não vê ilegalidade no uso do recurso público.>
A Secretaria de Comunicação da Presidência da República negou "qualquer irregularidade ou caráter eleitoral" no desfile. Por meio de nota à reportagem, afirmou que a verba é a mesma do ano anterior, distribuída de maneira igualitária, e que "não houve qualquer ingerência na escolha do enredo". "A Secom-PR respeita a autonomia artística das escolas e entende que questionar o tema de um samba-enredo carece de base legal e pode refletir preconceito contra manifestações culturais.">
A Embratur reforçou a destinação igualitária do valor às escolas do Grupo Especial e disse que "não interfere na escolha de sambas-enredo, respeitando a autonomia artística e a liberdade de expressão das agremiações". A Acadêmicos de Niterói não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre como se deu a escolha do tema e os planos para evitar a propaganda eleitoral antecipada no dia do desfile.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta