Publicado em 20 de fevereiro de 2024 às 20:23
BRASÍLIA - A crise Lula-Israel deu munição à oposição e mobilizou aliados de Jair Bolsonaro (PL) para um novo pedido de impeachment contra o presidente, mas líderes de bancadas no Congresso Nacional afirmam ser zero a chance de a ofensiva prosperar.>
O petista comparou a ofensiva do país em Gaza ao extermínio de judeus promovido por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.>
Bolsonaristas da Câmara, em especial a bancada do PL, prometem protocolar nesta semana, com a assinatura de mais de 100 deputados, o 18º pedido de impeachment de Lula desde 2023, o segundo relativo ao caso de Israel.>
Os pedidos anteriores, alguns deles também feitos em grupo pelos deputados, englobam uma série de episódios, que, na argumentação dos parlamentares ligados a Bolsonaro, mereceriam a destituição do mandatário. O primeiro deles foi apresentado com apenas 26 dias de mandato de Lula.>
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Entre os motivos elencados nas peças, há uma suposta omissão de Lula nos ataques bolsonaristas de 8 de janeiro de 2023, a recepção ao ditador Nicolás Maduro em maio do ano passado, a revogação dos decretos de armas de Bolsonaro, a indicação de Cristiano Zanin ao Supremo Tribunal Federal e uma entrevista em que Lula fala que, nos tempos em que estava preso, queria "foder" o então juiz Sergio Moro.>
Na segunda-feira (19), integrantes do PL já protocolaram um pedido de impeachment contra Lula sobre o caso Israel, de acordo com a Câmara, que informou como autores apenas o nome do deputado André Fernandes (PL-CE) "e outros".>
Na tarde desta terça (20), um grupo de parlamentares do PL e da oposição ao governo concedeu entrevista coletiva à imprensa na Câmara dos Deputados sobre o pedido encabeçado pela deputada Carla Zambelli (PL-SP).>
Zambelli abriu sua fala com uma declaração bíblica e disse que a iniciativa não é ideológica, mas que Lula cometeu crimes de responsabilidade. "Esse pedido não é ideológico, ele é um pedido de um crime de responsabilidade que aconteceu de fato e temos a responsabilidade de responder à altura", disse.>
Segundo ela, a iniciativa tem apoio de 122 parlamentares até o momento. Zambelli afirmou que mais deputados deverão assinar o pedido ainda nesta terça e que, por isso, ele deverá ser protocolado nesta quarta (21).>
Líder da oposição na Câmara, Carlos Jordy (PL-SP) disse que a Câmara está dando uma resposta enfática, brava e corajosa às declarações de Lula, mas afirmou que é preciso que o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), dê continuidade ao pedido.>
"A maior resposta virá quando houver a sensibilidade do presidente Arthur Lira de perceber que é a hora de dar prosseguimento a esse processo de impeachment contra esse cidadão criminoso que envergonhou o país", disse Jordy.>
Cabe a Lira analisar esses pedidos e decidir se dá sequência a eles ou não.>
Até agora, ele arquivou dois deles, apresentados pelos deputados bolsonaristas Sanderson (PL-RS) e Evair Melo (PP-ES) em janeiro de 2023. Ambos pediam a destituição do presidente por ele ter dito, em visita à Argentina, que o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 havia sido um golpe de Estado.>
O resto segue "em análise", que é o provável destino dos pedidos apresentados em relação ao caso de Israel, de acordo com os parlamentares ouvidos.>
Lira não tem prazo para analisar esses pedidos, que podem ficar em sua gaveta por tempo indeterminado. Em caso de arquivamento da solicitação, pode haver recurso ao plenário.>
Na hipótese de avanço, o mérito da denúncia deve ser analisado por uma comissão especial e depois pelo plenário da Câmara. São necessários os votos de pelo menos 342 dos 513 deputados para autorizar o Senado a abrir um processo de impeachment.>
No domingo (18), Lula comparou as mortes na Faixa de Gaza ao Holocausto e criou uma grave crise diplomática com Israel. "O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino, não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus", afirmou o presidente no final de sua viagem à Etiópia.>
Nesta terça (20), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), cobrou uma retratação de Lula pela comparação. "Ainda que a reação feita pelo governo de Israel venha a ser considerada desproporcional, excessiva, violenta, indiscriminada, não há como estabelecer um comparativo com a perseguição sofrida pelo povo judeu no nazismo", disse Pacheco.>
Ele afirmou ainda, durante sessão no Senado, que a declaração do petista foi uma "fala equivocada".>
"Estamos certos de que essa fala equivocada não representa o verdadeiro propósito do presidente Lula, que é um líder global conhecido por estabelecer diálogos e pontes entre as nações, motivo pelo qual entendemos que uma retratação dessa fala seria adequada, pois o foco das lideranças mundiais deve estar na resolução do conflito entre Israel e Palestina.">
Segundo os parlamentares ouvidos, o pedido de impeachment é, por ora, um assunto restrito apenas ao círculo de deputados bolsonaristas mais radicais, que se concentram no PL de Bolsonaro.>
Há no partido desde integrantes do governo anterior, como o General Pazuello (RJ), Mario Frias (PL-SP) e Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), a pessoas diretamente ligadas ao ex-presidente, como Eduardo Bolsonaro (PL-SP), seu filho, e Helio Lopes (PL-RJ), amigo de longa data.>
Mesmo no partido, a movimentação não é unânime, já que o grupo mais antigo, que integra o centrão, quase nunca acompanha as ações dos bolsonaristas e, em alguns casos, até vota a favor do governo.>
Dos 96 deputados do partido, 28 não assinaram o pedido, de acordo com lista divulgada pela deputada Carla Zambelli (PL-SP) nesta segunda (19).>
Zambelli já havia apresentado um pedido de impeachment contra Lula em fevereiro de 2023, no segundo mês de mandato do petista. Na ocasião o motivo apresentado por ela e pelo deputado Coronel Meira (PL-PE) para a destituição do presidente era a compra pelo governo de móveis de luxo, sem licitação, para o Palácio do Planalto.>
Há também na lista de Zambelli 28 parlamentares de legenda que apoiam formalmente o governo – PP, PSD, Republicanos, MDB e União Brasil.>
Também aí a totalidade é de deputados que já votam normalmente contra o governo ou são abertamente críticos a ele, como o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion (PP-PR), Kim Kataguiri (União Brasil-SP), pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, e Rosângela Moro (União Brasil-SP), mulher do senador Sergio Moro (União Brasil-PR).>
Os três parlamentares do MDB na lista de Zambelli, por exemplo, são o ex-ministro de Bolsonaro Osmar Terra (RS), além de Delegado Palumbo (SP) e Thiago Flores (RO), os dois últimos também bolsonaristas declarados.>
Apesar de ter ampla maioria formal de apoio, Lula vive uma relação de turbulências com o centrão, controlado por Lira, que por ora tem concentrado esforços na briga por emendas parlamentares e dinheiro extra da Saúde.>
Como a Folha de S.Paulo mostrou, a pasta privilegiou aliados na liberação de verba, causando irritação no centrão.>
Apesar dessa relação tensa, nunca a questão impeachment entrou no radar de negociações entre Palácio do Planalto e governo, até porque, como repetem políticos mais experientes, é preciso uma combinação de fatores por ora inexistente para que haja ambiente de discussão sobre destituição de um presidente.>
São eles grave crise econômica, pressão popular nas ruas, desaprovação acentuada do governo e falta de uma base de apoio mínima no Congresso – bastam 172 dos 513 deputados para barrar a abertura do processo de impeachment caso a tramitação seja liberada pelo presidente da Câmara, passe por comissão especial e vá a plenário, por exemplo.>
O presidente da Câmara dos Deputados é o responsável por analisar pedidos de impeachment do presidente da República e encaminhá-los>
O atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é aliado de Lula e ex-aliado de Jair Bolsonaro. Ele pode decidir sozinho o destino dos pedidos e não tem prazo para fazê-lo>
Nos casos encaminhados, o mérito da denúncia deve ser analisado por uma comissão especial e depois pelo plenário da Câmara. São necessários os votos de pelo menos 342 dos 513 deputados para autorizar o Senado a abrir o processo>
Iniciado o processo pelo Senado, o presidente é afastado do cargo até a conclusão do julgamento e é substituído pelo vice. Se for condenado por pelo menos 54 dos 81 senadores, perde o mandato>
Os presidentes eleitos após a redemocratização do país foram alvo de pedidos de impeachment. Dois foram processados e afastados: Fernando Collor (1992), que renunciou antes da decisão final do Senado, e Dilma Rousseff (2016)>
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