Publicado em 21 de fevereiro de 2024 às 19:58
BRASÍLIA - A previsão na cúpula da Câmara é que a Casa não demore a votar o projeto que acaba com saídas temporárias de presos em datas comemorativas, as chamadas saidinhas. O texto foi aprovado pelo Senado na terça-feira (20) com ampla maioria e a expectativa é que tenha adesão similar entre os deputados.>
Caso a previsão se confirme, a matéria seguirá para sanção do presidente Lula (PT). No governo, o tema deve dividir auxiliares próximos do mandatário. Por um lado, a ala política defende que a medida seja sancionada integralmente por considerar que um eventual veto seria derrubado e ainda acirraria o clima com o Congresso.>
Por outro, porém, há uma tendência de que o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que chefia a pasta responsável pelos presídios federais, recomende o veto.>
Além disso, ministros mais ligados à esquerda também pressionam para que Lula não ceda à pressão da ala conservadora do Parlamento e mantenha uma coerência com o discurso progressista sobre a necessidade de implementação de medidas de ressocialização de presos.>
>
Outro fator mencionado por integrantes da pasta de Lewandowski diz respeito às consequências de uma eventual restrição ampla às saidinhas. O temor é que a medida gere uma revolta nos presídios e cause, depois, uma crise ainda maior para o governo.>
No STF (Supremo Tribunal Federal), por sua vez, os ministros observam o debate com atenção. Pessoas próximas a três ministros, ouvidas sob reserva pela reportagem, apostam que a corte não deverá se meter no tema por se tratar de uma pauta impopular e de competência do Legislativo.>
No entanto, não é descartado o cenário em que uma ação chegue ao tribunal e um magistrado dê uma decisão liminar (provisória), forçando a discussão sobre o assunto no plenário.>
As avaliações do governo e do Supremo sobre o tema, no entanto, ainda dependerão do texto que será aprovado pela Câmara.>
Os deputados aprovaram em 2022 um texto que extingue totalmente as saidinhas. O Senado, porém, suavizou o texto para conquistar voto da maioria e restringiu a liberação de presos em massa em datas comemorativas, mas manteve a previsão para detentos em regime semiaberto estudarem.>
A Câmara, agora, negocia se aprova o projeto com a redação original da Casa ou se acata as mudanças do Senado.>
Outro debate que a eventual sanção do fim das saidinhas deve gerar diz respeito ao alcance da medida. Uma ala de juristas defende que a restrição não deve valer para todos os presos, mas apenas para quem for condenado a partir da validade da lei.>
O argumento é que a lei determina que uma legislação não pode ter efeito retroativo em casos em que o réu é prejudicado.>
Por outro lado, no entanto, há a tese de que se trata de uma mudança na Lei de Execução Penal, que não está abrangida pela regra sobre os efeitos retroativos de novas normas.>
Especialistas em direito afirmam que essa avaliação deverá ser feita por cada juiz que se deparar com um processo desta natureza, caso o STF evite julgar o assunto e não defina o alcance da nova lei.>
O tema ganhou força no Senado e mobilizou setores da classe política após a morte do sargento da Polícia Militar Roger Dias da Cunha, 29 anos, baleado durante uma perseguição por um homem que estava em saída temporária em Belo Horizonte.>
Outro caso que gerou repercussão foi a fuga de dois dos condenados por chefiar a maior facção de tráfico de drogas do Rio de Janeiro, Saulo Cristiano Oliveira Dias, 42, conhecido como SL, e Paulo Sérgio Gomes da Silva, 47, o Bin Laden, após o direito a saidinha de Natal.>
O projeto foi relatado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e abraçado pela ala conservadora do Senado. O governo hesitou em relação ao tema e chegou a cogitar uma movimentação para barrar o projeto.>
No entanto, a base aliada do Palácio do Planalto se viu encurralada diante da ampla adesão à proposta e, no fim das contas, o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), liberou a bancada governista, ou seja, não exigiu voto contra a matéria.>
O desconforto ficou evidente no discurso de Wagner. "Ficou claro nesse debate, até quando olha para o painel, o grande número de partidos que são da base do governo e orientaram voto 'sim'. Não adianta aqui eu confrontar com lideranças partidárias. Mas não vou orientar voto sim porque eu entendi todas as razões, matéria apaixonante, fui governador oito anos, sei o que está acontecendo na segurança porque fui governador e sei desse drama", disse Wagner.>
ENTENDA O QUE MUDA NA SAIDINHA >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta