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Carlos Arruza

Artigo de Opinião

É psicólogo e ator
Carlos Arruza

Para suportar 450 mil mortes, podemos criar justificativas perversas

É provável que nosso instinto de brigar por nosso espaço nos induza a esquecer do coletivo. Com isso a morte é tratada como consequência para os fracos ou desafortunados
Carlos Arruza
É psicólogo e ator

Publicado em 01 de Junho de 2021 às 14:00

Publicado em 

01 jun 2021 às 14:00
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM)
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM) Crédito: Altemar Alcantara/ Semcom
Em tempos sombrios como estes, uma reflexão poderia nos servir: “o que somos capazes de fazer para suportar a dor numa realidade de mais de 450 mil mortes no Brasil? ”
Para a Psicologia, somos seres de natureza heroica. Aprendemos desde cedo a brigar por nosso espaço, por direitos e conquistas individuais. Nosso organismo age para a busca da eternidade no processo de autorregulação (biológico) e na ação de garantir nosso nome na história, não importa a classe social a que pertencemos (comportamental).
É provável que esse instinto nos induza a esquecer do coletivo, reforçando o lugar heroico de destaque. Portanto, a morte sempre é tratada como consequência dos fracos ou desafortunados, seja pelo corpo físico, seja mesmo pelo saldo de suas conquistas.
Ainda no exercício de autoestima, até no campo religioso temos os exemplos de mitos que entram em contato com a morte e ressuscitam, aumentando seu lugar de poder. Ou até mesmo, como no Salmo 91 da Bíblia, que afirma: “mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido. Somente com os teus olhos olharás e verás a recompensa dos ímpios.” 
Poderíamos, então, localizar o que nos faz por vezes tão frios ou mesquinhos com a dor alheia: receber a notícia de que o número de óbitos pela pandemia não para de crescer, mas que certamente eu faço parte de um grupo seleto, escolhido por Deus, portanto não deveria me preocupar tanto ou perder tempo com a dor de outros que, por algum motivo, precisam passar por isso.
Assim criamos as justificativas mais perversas: a "culpa" é da sexualidade, é determinada religião ou crença seguida ou com certeza é porque fez alguma coisa errada... entre outras frases para nos anestesiar, pretensiosamente, na torcida de que tudo passe logo e eu confirme toda a minha teoria narcísica.
É preciso reconhecer a grandeza dos que partem. Suas lutas, seus exemplos e toda a construção coletiva da qual fazemos parte, diretamente ou não. A roda sempre gira e a diferença está em como significar a nossa existência. Acreditem, “heróis e anti-heróis”: Não importa como vamos morrer. É só uma questão de tempo.
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