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É doutor em Administração e professor titular aposentado da Ufes. Palestrante e consultor organizacional

O “Rei Sol” é uma representação do Brasil de hoje

Mas o que o “Rei Sol” tem a ver com o 7 de Setembro de 2021? Tudo a ver, quando assistimos a alguém chamado de “mito”, que  conclama as massas para manifestações que defendem o autoritarismo

Publicado em 09/09/2021 às 16h41
Bolsonaro durante ato do 7 de setembro
Bolsonaro durante ato do 7 de setembro. Crédito: Clauber Cleber Caetano/PR

Neste 7 de Setembro assistimos a manifestações contrárias à nossa democracia e ao Estado de Direito, por meio de pautas com ataques ao Judiciário, ao Legislativo, a governadores, além de evocações à tomada do poder pelos militares, entre outras bravatas insanas e de cunho fascista.

Além disso, também vimos a defesa do “tratamento precoce” para a pandemia da Covid-19, já comprovadamente demonstrados ineficazes pela ciência. Símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, bem como a camisa da seleção “canarinho” foram usurpados como instrumentos vinculados a essas pautas.

Mas o que isso tem a ver com o que o 7 de setembro de 1822? Nada, pois a comemoração desta data marca a nossa independência da metrópole portuguesa, a libertação do Brasil colônia. Logo, vestir-se de verde e amarelo, bradando bandeiras autoritárias, está longe de ideais de liberdade, não só de uma metrópole, mas como de uma nação livre, com respeito às instituições que garantem a democracia e o Estado de Direito.

A história nos mostra como esses arroubos antidemocráticos e autoritários são comuns em regimes de governo que prezam pela autocracia. O nazifacismo na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler que, com discursos autoritários, inflamaram as massas em favor de pautas de intolerância em relação à diversidade político-social e de ódio contra às liberdades coletivas.

Mas talvez o exemplo mais marcante de uma “liderança” que toma de assalto para si próprio o direito de representar as instituições de um Estado foi o rei francês Luís XIV (1643-1715) em frase a ele atribuída: “Eu sou a lei, eu sou o Estado”. Conhecido como o “Rei Sol”, foi um dos símbolos do absolutismo até meados do século XVIII. Mas o que o “Rei Sol” tem a ver com o 7 de Setembro de 2021? Tudo a ver, quando assistimos a alguém chamado de “mito” (cujo conceito é totalmente distorcido por quem o utiliza nesse sentido), que conclama as massas para manifestações que defendem o autoritarismo e, acima de tudo, ataques ao Estado de Direito.

Simbolicamente, temos um “Rei Sol” em busca de um gozo que não consegue atingir como governante maior de um Poder de Estado democrático. Em nenhum momento, vimos, entre os “verdes e amarelos”, qualquer reivindicação por políticas públicas consistentes para o combate da pandemia da Covid-19 que já ceifou a vida de quase 600 mil pessoas; pelo arranjo da economia que possa minimizar o desemprego que atinge mais de 14 milhões de brasileiros; por uma política educacional que possa acolher o déficit de aprendizagem de crianças e adolescentes, alavancado pela pandemia; por uma política social que possa mitigar a pobreza e a desigualdade social, entre outras pautas de um governo atuante.

Talvez seja mais fácil invocar as massas do “cercadinho” para as ruas, evocando traços culturais de práticas herdadas de um Brasil de passado escravocrata e “coronelista”, todas elas em oposição a uma sociedade livre e democrática.

Um “Rei Sol” acredita que detém a verdade única e absoluta e inculca a massas incautas essas crenças. Em si residem todos os poderes de Estado. Reeditar o “Rei Sol”, no Brasil de hoje, significa negar a maior parte das lutas de nossa sociedade pela garantia dos ideais democráticos de um Estado de Direito, sacramentados na Constituição de 1988.

Mais impressionante ainda é o “Rei Sol” tropical invocar versos bíblicos, chamando a si a imagem divina de “suas verdades”. Trata-se de um sacrilégio, pois, como cristãos, aprendemos que não devemos usar o “Santo” nome em vão. Jamais a Santíssima Trindade apoiaria bravatas favoráveis a regimes totalitários, carregados de ódio ao semelhante. Bradar pelo totalitarismo e onipotência nada mais é do que uma ofensa e desrespeito à própria Constituição vigente.

Um “Rei Sol” não enxerga o mundo real do desemprego, da fome, da inflação de quase dois dígitos, da ausência de políticas socioeconômicas condizentes com a mitigação da pobreza... mas, felizmente, como nos ensina Arnaldo Antunes, em sua bela canção, “o real resiste”.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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