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É arquiteta, urbanista e presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Espírito Santo (CAU-ES)

O Centro de Vitória não pode viver apenas do carnaval

O Centro se torna mais seguro, caminhável e vivo. A festa não cria um novo lugar, apenas revela o potencial urbano que sempre esteve ali, mas que não é ativado de forma permanente

  • Priscila Ceolin É arquiteta, urbanista e presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Espírito Santo (CAU-ES)
Publicado em 13/02/2026 às 16h37

Todos os anos, durante o carnaval, o Centro de Vitória volta a ocupar o imaginário coletivo da cidade. As ruas se enchem de gente, impulsionadas pelo circuito de blocos de rua que percorre o território histórico, e as praças retomam seu papel como espaços de encontro.

A população redescobre, ainda que temporariamente, um lugar que permanece esquecido ao longo do restante do ano. Isso leva a uma pergunta direta: por que o Centro só se torna protagonista quando vira festa?

A resposta passa menos pela vocação do lugar, que é inegável, e mais pela ausência de um projeto urbano consistente, contínuo e integrado. O Centro de Vitória reúne patrimônio histórico, infraestrutura instalada, localização estratégica e identidade cultural. Ainda assim, convive com esvaziamento populacional, uso concentrado no horário comercial, prédios ociosos e uma paisagem urbana pouco convidativa à permanência cotidiana. Parte dessa ociosidade está associada a edifícios públicos sem uso definido, que permanecem fechados e contribuem para a degradação do ambiente urbano ao seu redor.

Carnaval 2025 - Bloco Regional da Nair anima multidão na Avenida Beira-Mar, no Centro de Vitória
Bloco Regional da Nair anima multidão na Avenida Beira-Mar, no Centro de Vitória . Crédito: Vitor Jubini/2025

Durante o carnaval, essa lógica se inverte. A presença massiva de pessoas, estimulada pelo trajeto dos blocos e pela programação de rua, associada à ocupação contínua dos espaços e às condições urbanas existentes, muda a relação das pessoas com o espaço. O Centro se torna mais seguro, caminhável e vivo. A festa não cria um novo lugar, apenas revela o potencial urbano que sempre esteve ali, mas que não é ativado de forma permanente.

Nos últimos anos, algumas iniciativas mostraram que a revitalização do Centro é possível quando há projeto, investimento e visão urbana. A requalificação do Mercado da Capixaba exemplifica esse caminho ao recuperar um edifício histórico e devolver a ele uso, vitalidade econômica e fluxo constante de pessoas, mostrando que é possível recolocar o patrimônio em uso cotidiano sem romper com sua identidade.

A experiência do Centro evidencia os limites das intervenções pontuais e dos eventos episódicos. A vitalidade urbana depende de uso misto, diversidade de funções e presença contínua de pessoas. A moradia no Centro é uma decisão urbana que impacta diretamente a segurança, o uso dos espaços e a dinâmica econômica local.

Programas de retrofit habitacional, ao qualificar edificações e oferecer condições adequadas de habitabilidade, tendem a atrair novos moradores e a reter quem já vive no território, devolvendo vida às ruas fora do horário comercial e dos grandes eventos.

Nesse processo, o poder público tem papel decisivo ao enfrentar a ociosidade de seus próprios imóveis. A reativação de prédios públicos hoje vazios, por meio de retrofit e de novos usos voltados à habitação, serviços, cultura ou equipamentos urbanos, funciona como sinal claro de compromisso com o território e induz a ocupação privada no entorno.

Associados a isso, incentivos fiscais para empresas criativas, ateliês e espaços de trabalho compartilhado contribuem para diversificar usos e fortalecer a dinâmica cotidiana do Centro.

A iluminação pública precisa ser tratada como infraestrutura urbana permanente. Um sistema de iluminação eficiente, contínuo e bem distribuído amplia a sensação de segurança, estimula o uso noturno dos espaços, valoriza o patrimônio histórico e favorece a permanência das pessoas nas ruas. Sem luz adequada, não há vitalidade urbana sustentável.

Os espaços públicos precisam ser tratados como parte fundamental do funcionamento da cidade. Praças requalificadas, com mobiliário urbano adequado, boa iluminação e condições reais de permanência, tornam-se pontos de convivência diária, ampliando a sensação de segurança e pertencimento.

E não podemos esquecer da importância da mobilidade urbana, de pensar em como se conecta o Centro com as demais áreas da cidade em transporte público, confortável e ágil, em ruas de fato caminháveis, arborizadas, com calçadas de dimensões adequadas, mesmo que para isso seja preciso retirar um pouco de automóveis privados desses trajetos.

Quando o carnaval acontece, ele mostra, na prática, o que o Centro de Vitória poderia sustentar durante o ano inteiro. O desafio é transformar essa experiência pontual em uma dinâmica permanente, baseada em planejamento, investimento público articulado, estímulos à iniciativa privada e atuação técnica de arquitetas e arquitetos urbanistas na formulação das políticas urbanas.

O Centro de Vitória precisa ser protagonista ao longo de todo o ano.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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