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Neutralidade no jornalismo é prato cheio para populismo de extrema-direita

O jornalismo declaratório é aquele que produz informações exclusivamente a partir do que alguma autoridade pública verbalizou, mesmo quando o jornalista sabe que conteúdo não condiz com a realidade

Publicado em 21/11/2020 às 04h00
Pessoas que falam desnecessariamente, coisas triviais e gritando, são chatas
Pessoas que falam desnecessariamente, coisas triviais e gritando, são chatas. Crédito: Pressmaster/ Pexels

Aqui mesmo neste espaço, destacamos, anteriormente, a centralidade do paradigma da objetividade jornalística na definição do que significa realizar mediação qualificada. O que se pretende com as notícias e o que se espera do jornalismo acaba, invariavelmente, sendo resultado da forma como se entende essa noção, mesmo que isso não seja muito bem elaborado teoricamente e que não esteja claro na cabeça dos cidadãos e jornalistas.

Não há somente uma única maneira de se entender a objetividade e cada uma delas pode resultar em diferentes e concretas consequências para a prática jornalística e para a qualidade do produto que se entrega.

Em vez de um problema de adequação, correspondência, representação possível ou ainda reconstrução/interpretação apropriada das ocorrências de interesse público, a objetividade pode ser compreendida simplesmente como uma questão técnica, um recurso obrigatório, disponível ao jornalista. Nesse escopo, temos a objetividade como compreensibilidade, por exemplo, quando ser objetivo é fazer uso de uma linguagem simples e direta, com vistas a ser bem entendido pelo público.

Outra possibilidade nesse sentido é o entendimento de objetividade como obrigação de expor as informações em ordem decrescente de relevância, limitando o problema a uma operação de hierarquização pertinente da informação.

Compreender a objetividade como um ritual estratégico é outro caminho no qual se reduz a questão a aspectos formais relativos a procedimentos e à apresentação textual. Nessa perspectiva, o uso de aspas, por exemplo, é uma forma de ser objetivo, já que destaca que a opinião do entrevistado não é, necessariamente, a do repórter ou do veículo, ou ainda a apresentação de mais de uma versão dos fatos relatados, como se esse método pudesse garantir que uma delas corresponde à verdade dos eventos.

Para além das limitações referentes à falta de tempo, de equipamentos ou de recursos humanos disponíveis às organizações jornalísticas para a realização de uma determinada cobertura, o jornalismo declaratório é consequência, e encontra seu fundamento, na concepção de objetividade jornalística que se adota.

Jornalismo declaratório é aquele que produz informações única e exclusivamente a partir daquilo que alguma fonte oficial de informação verbalizou. Mesmo quando o jornalista sabe que aquilo que uma autoridade pública está afirmando não condiz com a realidade, desde o entendimento de objetividade como forma de apresentação das notícias, a superação do jornalismo declaratório torna-se muito difícil. Um prato cheio para os populistas de extrema-direita. Assunto para um próximo texto.

O autor é professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, doutor em Filosofia pela UFRJ e pós-doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA

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