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É professor, mestre em Educação pela Ufes, vereador de Vitória (PT)

Morros de Vitória sem água: a face cotidiana da desigualdade

A técnica, isoladamente, não explica por que a água falta sempre nos mesmos lugares. Tratar a falta de água como evento excepcional é uma forma de minimizar um problema que é contínuo

  • Jocelino Júnior É professor, mestre em Educação pela Ufes, vereador de Vitória (PT)
Publicado em 30/01/2026 às 15h28

Em janeiro de 2026, moradores de bairros da periferia de Vitória e da Grande Vitória iniciaram o ano enfrentando uma situação que deveria ser inaceitável em qualquer cidade brasileira, especialmente se tratando de uma capital ou de regiões metropolitanas, considerando que vemos muitos investimentos nessas regiões urbanas.

As comunidades de Santa Clara, Piedade, Fonte Grande, Moscoso, Jesus de Nazareth, Forte São João, Romão e regiões da Grande São Pedro, todas na cidade de Vitória, registraram interrupções prolongadas no abastecimento de água, com relatos de residências que permaneceram dias seguidos sem nenhuma gota nas torneiras. Em pleno verão, período de altas temperaturas e maior demanda hídrica, a falta de água passou a desorganizar a vida cotidiana de milhares de famílias.

As denúncias não partiram apenas de percepções individuais. Reportagens publicadas ao longo de janeiro registraram que moradores afirmaram ficar até dois meses sem abastecimento regular. Em alguns casos, a água chegava de forma intermitente, em horários imprevisíveis e com pressão insuficiente para encher caixas d’água dos territórios mais altos. Em outros, simplesmente não chegava. Houve relatos de famílias que precisaram se deslocar para cidades vizinhas apenas para tomar banho, situação documentada pela imprensa.

A gravidade do cenário nos levou a procurar o Ministério Público do Espírito Santo para notificar formalmente a Cesan, exigindo explicações e a apresentação de medidas emergenciais. Na notificação, o MPES ressaltou que a interrupção prolongada do fornecimento de água potável caracteriza violação de direito essencial e representa risco direto à saúde pública.

Em resposta, a concessionária chegou a atribuir parte do problema a ligações irregulares, o chamado “gato”, deslocando a responsabilidade para a população. O que não se enfrenta, no entanto, é a ausência histórica de políticas públicas efetivas de regularização do serviço, de diálogo com as comunidades e de mecanismos que garantam acesso formal, pagamento possível e abastecimento contínuo. O abastecimento de água não é serviço facultativo, mas obrigação permanente da concessionária, especialmente em áreas densamente povoadas e socialmente vulneráveis.

Os dados reforçam que não se trata de um episódio isolado. A falta de água figura entre as principais reclamações registradas na ouvidoria da Cesan nos últimos anos. O elemento mais revelador, no entanto, é o recorte territorial dessas queixas, que se concentram de forma recorrente em bairros de periferia, historicamente marcados por menor renda média, maior presença de população negra e infraestrutura urbana muitas vezes precária e de difícil acesso.

Em muitos desses territórios, a alternativa imposta à população tem sido depender de carros-pipa, obrigando moradores a descer das comunidades até as partes mais baixas da cidade para buscar água, em uma cena que remete a práticas de subalternização e a um passado escravizatório que insiste em se reproduzir sob novas formas, quando a população negra, especialmente as mulheres, carregavam na cabeça latas e baldes de água.

Quando um serviço essencial falha repetidamente nos mesmos territórios, estamos diante de um problema estrutural. A desigualdade no acesso à água revela como as políticas de investimentos são distribuídas de forma desproporcional, sua capacidade de resposta e sua atenção às demandas.

É nesse ponto que o conceito de racismo ambiental se torna central para compreender o que acontece nesse caso. Racismo ambiental é o nome dado a situações em que populações negras e de periferia são as mais afetadas pela falta de serviços básicos, pela exposição a riscos ambientais e pela negligência do poder público. O termo tem sido utilizado por organizações da sociedade civil, movimentos sociais e pesquisadores para explicar por que determinados territórios convivem, de forma recorrente, com a precariedade no acesso à água, ao saneamento e a outras condições essenciais de vida, enquanto outras áreas da cidade permanecem protegidas dessas ausências.

Vitória - ES - O Coronavírus e a periferia. Bairro Nova Palestina, região da Grande São Pedro.
Região da Grande São Pedro, em Vitória. . Crédito: Vitor Jubini

Organizações como o Movimento Negro Unificado (MNU) e redes formadas por movimentos populares, entidades ambientais e coletivos negros têm denunciado que a falta de acesso regular à água e ao saneamento básico é uma das expressões mais concretas do racismo ambiental. Também podemos indicar que o racismo estrutural encontra amparo nessa ampla omissão do órgão estatal, que por reiterados anos sabe da existência desses problemas e não age de maneira planejada para evitá-lo. Permanece culpabilizando a população em vez de ações mais estratégicas e coordenadas.

Em Vitória, a crise hídrica vivida pelas comunidades da periferia escancara essa lógica. Enquanto algumas áreas da cidade mantêm abastecimento regular mesmo em períodos de alta demanda, outras convivem com interrupções sucessivas, sem respostas efetivas, cronogramas públicos ou soluções estruturais. A falta de água afeta diretamente a saúde, a alimentação, a higiene e a dignidade das pessoas. Crianças, idosos e pessoas com deficiência são os mais impactados, aprofundando desigualdades já existentes.

As explicações técnicas apresentadas pelos responsáveis, como oscilações de pressão ou manutenções pontuais, não dão conta do problema em sua totalidade. O verão, o aumento do consumo e a necessidade de planejamento são previsíveis. Quando o planejamento falha de forma recorrente nos mesmos bairros de periferia, é legítimo questionar prioridades e critérios de investimento.

A técnica, isoladamente, não explica por que a água falta sempre nos mesmos lugares. Tratar a falta de água como evento excepcional é uma forma de minimizar um problema que é contínuo. O que está em curso é uma crise de acesso a um direito básico que atinge de forma desigual a população da cidade. Enfrentar essa realidade exige mais do que soluções emergenciais. Exige transparência, planejamento de longo prazo, políticas públicas efetivas nas regiões, investimentos direcionados e o reconhecimento de que desigualdade ambiental também é desigualdade social e racial.

A água não é mercadoria nem pode ser tratada como concessão temporária. Já é, por si só, um contrassenso que um bem essencial à sobrevivência seja cobrado da população, sendo condição mínima para a vida. Quando o abastecimento falha de forma recorrente nos bairros de periferia, a questão deixa de ser apenas técnica e assume caráter político. Ignorar essa realidade é reafirmar um modelo de cidade que hierarquiza direitos e continua tratando determinados territórios como menos dignos de atenção e investimento público.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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