Com o início da Quaresma, na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja Católica no Brasil lançou a 63ª Campanha da Fraternidade, que neste ano tem como tema Fraternidade e Moradia e como lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).
O tema da moradia já foi abordado pela Igreja na Campanha da Fraternidade de 1993. Trinta e três anos depois, constatamos que a falta de moradia continua sendo um flagelo constante na vida de milhões de brasileiros.
Em nosso Estado, mais de 130 mil famílias vivem em déficit habitacional; 8.500 estão em moradias precárias; 121 mil precisam escolher entre comer, comprar remédios ou pagar aluguel; e mais de 4 mil pessoas sobrevivem nas ruas da Grande Vitória.
Basta caminhar pelas periferias para constatar as condições indignas impostas aos empobrecidos: falta saneamento básico, transporte coletivo adequado, segurança, acessibilidade nos morros e políticas habitacionais eficazes. A situação se agrava com a crise climática. Embora os mais ricos sejam os maiores responsáveis por ela, são os pobres que mais sofrem com secas, enchentes e o calor excessivo em casas frágeis ou erguidas em áreas de risco.
Moradia não é privilégio! O direito à moradia é um direito constitucional básico ao qual todo brasileiro deve ter acesso, embora os dados acima mostrem o contrário. Na mensagem dirigida aos brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2026, o Papa Leão XIV manifesta o desejo de que “as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar autoridades governamentais a promover políticas públicas a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação”.
Entretanto, o poder público muitas vezes caminha na direção oposta. Em vez de priorizar políticas habitacionais, prefeituras da Grande Vitória investem milhões em estruturas e enfeites natalinos. Apenas em 2025, foram mais de R$ 20 milhões com decoração de Natal e valores elevados com shows pirotécnicos na virada do ano. Quantas casas poderiam ser construídas ou reformadas com esses recursos? Quantas escadarias e ruas nos morros poderiam ser recuperadas? Quantos equipamentos de atendimento à população em situação de rua poderiam ser implantados?
Também fere a dignidade humana o drama de famílias expulsas pelo Judiciário de suas casas, construídas em áreas ocupadas, em favor de grandes projetos imobiliários, sob o silêncio cúmplice de outros poderes, como ocorre na Vila Esperança, em Vila Velha; e na ocupação Chico Prego, em Vitória.
A Campanha nos recorda que “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Cada pessoa sem moradia digna atualiza o sofrimento do Menino Jesus e de seus pais, que não encontraram uma casa e precisaram acolher a vida em condições precárias. Defender moradia é defender a própria dignidade humana.
Convido vocês para a abertura da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Vitória que acontecerá neste dia 22 de fevereiro, às 15h, no Ginásio Dom Bosco, em Vitória.
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