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É vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Espírito Santo. Já foi secretário de Estado de Turismo

Moqueca capixaba é divina, mas sozinha não faz milagres pelo turismo

A falta de entendimento do turismo como mola propulsora para a economia é o que nos faz sermos vistos por Gramado, Porto de Galinhas e Jericoacoara pelo retrovisor

Publicado em 09/09/2021 às 02h00
Pedra Azul; Paisagem da Rota do Lagarto
Paisagem da Rota do Lagarto, em Pedra Azul: destino competitivo com Campos do Jordão. Crédito: Rita Benezath

Thomas Fuller sempre disse que nada é bom ou mau se não for por comparação. Vamos a elas: Campos do Jordão faz tão frio quanto, mas não tem uma rocha que muda de cor conforme a incidência solar, tal qual a Pedra Azul. Balneário Camboriú, por sua vez, é a meca do veraneio, mas não tem as enormes Dunas de Itaúnas, nem as águas quentes do Riacho Doce. E no que se diferem as cachoeiras do Parque Nacional do Caparaó para as mineiras?

O que une esses espetáculos capixabas ao enorme vácuo que os separa desses hypados destinos nacionais é a falta de atenção que o primeiro setor concede ao turismo. Um descaso que já comemora aniversário há quase três décadas e deixa um rastro de consequências amargas para a economia e seus derivados: geração de emprego, infraestrutura hoteleira, modernização de modais e profissionalização.

É essencial que haja uma compreensão e planejamento estrutural por parte dos governantes. A falta de entendimento do turismo como mola propulsora para a economia é que nos faz sermos vistos por Gramado, Porto de Galinhas e Jericoacoara pelo retrovisor. Um bom começo seria nomear secretários de turismo advindos do segmento, já que os leigos confundem turismo com lazer, e destinar volume de verbas decentes à pasta que, das 23 secretarias, é o menor orçamento do Estado.

Um destino turístico de grande porte é composto por uma simbiose que, depois de criada, parece ter nascido perfeita. Mas não: havia ali a mão e a mente de gente destinada a entender o turismo como um farol. Turismo é simples, nasce e anda das mãos privadas ao longo do planeta, mas, com apoio do primeiro setor, voa!

A Bahia, por exemplo, ao ver que a vocação industrial não lhe traria tantos frutos, apostou no turismo como vetor da alavanca econômica. Do carnaval às praias, deu no que deu. O calor, o axé, o acarajé, a história e o dedo divino ajudaram? Decerto. Mas até os melhores presentes precisam de uma boa embalagem.

O executivo precisa se livrar das amarras da burocracia e abraçar essa joia rara que é o turismo. É hora de pensar em mais incentivos fiscais aos empreendedores e mais liberações ambientais responsáveis e ágeis. Grande sucesso recente, o Airbnb nasceu, por exemplo, dos impostos reduzidos. Gramado, por sua vez, possui um decreto que acelera renovação automática das licenças ambientais.

A nosso favor conta o “overtourism”, quando existe um volume de pessoas muito maior do que a capacidade suportada pelo local. Os destinos turísticos que abrem esse artigo são a prova viva desse movimento. Uma boa dose de bairrismo nos permite questionar, de fato, por que o turista de Campos do Jordão não pode dar uma chance para Pedra Azul? Por que não trocar Camboriú por Itaúnas? Não seria a hora de o primeiro setor promover um plano de ação que permita um ambiente de negócios para a criação de vinícolas, fábricas de chocolate com visitação e resorts?

Até porque, convenhamos, a moqueca capixaba é divina, mas sozinha não faz milagres.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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