A primeira conta de uma guerra é humana. A segunda costuma aparecer nos mercados. O ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã recolocou em evidência um ponto sensível da economia internacional: o fluxo de petróleo que sai do Golfo. Quando essa região entra em confronto, aumentam o risco nas rotas marítimas, o custo da energia e a incerteza financeira. Fretes sobem, moedas oscilam e o crédito fica mais caro. É assim que uma decisão militar pode se traduzir em desaceleração do crescimento global.
Cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo atravessa o Estreito de Ormuz. Não é preciso que a produção se interrompa para que o preço suba. Basta que aumente a probabilidade de bloqueio ou ataque às rotas. O mercado reage menos ao discurso e mais ao risco de escassez. Quando a oferta parece ameaçada, o barril sobe e o impacto se espalha por transporte, fertilizantes, indústria e serviços.
A história recente ajuda a dimensionar esse mecanismo. Em 2019, ataques a instalações da Arábia Saudita derrubaram a produção e o Brent, referência internacional do petróleo, fechou o dia com alta de 14,6%. Foi uma falta concreta de oferta: menos barris disponíveis significaram preço mais alto quase imediatamente.
Em 2020, após a morte do general iraniano Qassem Soleimani, o Brent subiu 3,6%, mas recuou quando ficou claro que a produção não havia sido afetada. A alta refletia temor de escalada, não escassez efetiva. O mercado distinguiu interrupção real de simples risco.
O conflito atual ainda é precificado como incerteza, mas com sinais que merecem atenção. Até o fechamento deste texto, o petróleo chegou a subir cerca de 9% e o Brent foi a US$ 82 antes de recuar. O custo de navegação e de seguro na região aumentou. Se as rotas se normalizarem rapidamente, parte do movimento tende a ser revertida. Se a tensão persistir, bancos internacionais estimam que o barril pode atingir US$ 100, passando a afetar preços de forma mais duradoura. A variável central continua sendo o tempo.
No Brasil, o impacto chega por três vias principais. A mais visível é combustíveis e frete, porque energia mais cara encarece transporte e se espalha pela cadeia produtiva. A segunda é o câmbio: em ambiente de aversão a risco, o dólar tende a se fortalecer, ampliando o custo de importados e insumos. A terceira é expectativa de inflação. Se o choque se prolongar, o ciclo de queda da Selic pode ser mais lento, pois o Banco Central reage ao que a inflação pode se tornar, não apenas ao que já foi.
Há ainda um ponto que não cabe na aritmética dos preços. O Irã é um país com mais de 90 milhões de habitantes. Cada dia adicional de conflito amplia perdas humanas e prolonga a incerteza. A diplomacia raramente rende manchetes, mas quase sempre rende estabilidade. E estabilidade, para além do valor moral, é o ambiente que reduz risco, barateia crédito e sustenta crescimento. Por isso, a paz pode parecer abstrata, mas do ponto de vista econômico ela costuma ser o investimento mais barato.
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